Comecei esse blog dizendo que eu sou um personagem. Na época, eu me sentia exatamente assim, como se minha vida fosse inteira roteirizada, como se eu pudesse achar um dos meus roteiristas atrás de uma cortina se eles dessem mole e eu fosse rápido o bastante. A gente tem essa mania, né, de tentar explicar os fatos aleatórios, os altos e baixos. Eu particularmente encontrei muita dificuldade de sentido quando acharam que um demônio apareceu na selfie da minha prima. Ou quando o Ícaro Silva me mandou dançar lá de cima do palco. Ou ainda quando sem querer me sequei com a toalha de outra pessoa dentro de um vestiário. Com certeza eu estava numa série de TV! Numa sitcom!



Depois disso, eu atirei um garfo no meu chefe. E me enrolaram em papel higiênico da cabeça aos pés. Eu literalmente fiquei famoso na internet por causa de 1 tweet e apareci na TV! Teve aquela vez que eu tomei coragem e saí da casa da minha mãe, fui viver em outra cidade. E aquela reviravolta incrível de que larguei um emprego bom, fui para um ruim, FUI DEMITIDO e consegui um emprego ainda melhor que todos esses, estou nele até hoje.

Os textos que fizeram mais sucesso aqui no blog, além das viagens que nunca terminei, foram aqueles que vocês me viram ir de menino de Jesus para gay rebelde. Vocês viram meu primeiro beijo. Eu tinha 26 anos, meu Deus. QUEM dá o primeiro beijo aos 26 anos? Com certeza a mesma pessoa que começa a namorar com o primeiro match que saiu do Tinder para a vida offline.

É uma série de TV, não é? Daquelas que a gente assiste sem esperar nada profundo, talvez daquelas que a gente deixa a TV ligada e vai passar pano na casa. Cafona, por vezes inverossímil, ligeiramente simpática e com umas temporadas muito melhores que outras. Modéstia à parte, eu tenho muito orgulho das histórias que criei nesse blog.

Vocês já sacaram que o blog acaba hoje, confere?

Na verdade, gente, acho que ele já acabou e eu esqueci de contar. Ali os créditos subindo.

Acontece que toda série de TV tem que acabar. Menos Grey's Anatomy, aparentemente, mas é porque dá muito dinheiro. Mas Não Sei Lidar, eu gosto de pensar que o nome da minha série é Não Sei Lidar, foi legal, cativou algum público, mas agora os atores protagonistas querem fazer outra coisa da vida e é muito difícil seguir em frente sem eles, já que não inventamos nenhum filho para o personagem. Ou um irmão gêmeo do mal. Um cachorro, pelo menos. Mas eu é que não ia deixar minha série ser cancelada! Então, melhor que o cancelamento, só uma temporada bem fechadinha.

E essa história tem final feliz.

Eu acho, né. O problema do final feliz é que a gente não sabe realmente se ele é um final de verdade, não dá pra saber. Quando é triste tá na cara, porque a pessoa morre e vai com Deus, mas o feliz? A pessoa que termina grávida pode perder o bebê ou, que Deus a proteja, nascer uma criança feia. O casal que termina namorando pode brigar uma semana depois. Quem casa dá em divórcio. Quem abre um negócio pode perder tudo e virar coach. E muito pior que morrer ou ser preso é virar coach, todo mundo sabe. Mas a gente gosta de acreditar que, se a gente não viu, não aconteceu, então, se a última cena é feliz, feliz para sempre será.

E eu tô me agarrando a isso, porque é o que conta.

Realizei todos os meus sonhos? Não. Fiquei rico, pelo menos? Também não. Ô, cacete, engravidei então? Não, mas, se eu engravidasse, a criança seria lindíssima.

Mas eu de fato casei!!! Não é piada, eu realmente casei.

Eu e Arthur segurando nossa certidão de casamento

Pois é, o Felipe de 2013 que começou a escrever esse blog jamais, eu disse JAMAIS, imaginaria que esse fosse ser o seu final feliz 8 anos depois. Casado não apenas com um HOMEM, mas um homem GOSTOSO Arthur morre de vergonha quando me vê falando essas coisas na internet, mas, caramba, eu ganhei na loteria gay. Eu continuo bem gay, aliás. A cada dia mais. Conseguimos equilibrar nossas contas, montamos nossa casinha juntos e, nossa, me sinto morando no Paraíso. Não naquele paraíso bíblico onde as pessoas vestem branco o dia todo e ficam, sei lá, tocando harpa, mas em um que construímos com amor, carinho, confiança e respeito. Engraçado que desde o nosso primeiro encontro eu já sentia que ia dar certo. Não dizia isso em voz alta, mas, quando dizia, minhas amigas ficavam CALMA, você acabou de conhecer o menino, que já vai casar o quê. Não ia casar logo de cara, né, mas de alguma forma sabia que era só questão de tempo. Arthur é meu encaixe perfeito.

Minha família tá bem, ninguém morreu. Meu chefe não quer me matar e eu também não quero que ele morra, o que eu já acho mais que suficiente para ser feliz no trabalho. Amigos eu tenho aos montes. Em 8 anos soltei a mão de alguns, mas agarrei várias outras mãos incríveis. Continuo lendo, fofocando sobre livros nos meus clubes, escrevendo minhas próprias histórias. Um dia vocês estarão matando tempo numa livraria e vão dizer NOSSA, olha o livro do Felipe aqui! Pode acontecer ano que vem ou daqui a vinte anos, quem viver verá.

Sobre Deus... Essa parte é muito complexa porque eu não sei bem se o final feliz seria eu me arrependendo de todos os meus pecados e voltando para os braços de Jesus OU tendo a certeza de que o Cristianismo é uma farsa e precisa acabar para eu enfim me libertar. Fica aí esse plot em aberto. Nem lá, nem cá, mas, se quiser me ganhar de volta, Jesus vai ter que se esforçar um pouco mais. Com certeza acabei de cometer um pecado digitando isso, mas eu já vou pro inferno por ser gay mesmo.

Eu já falei que tem um texto meu no The Intercept? Porque nunca vou parar de dizer isso. Quero que deixem essa informação na minha lápide. Ou algo do tipo "Morri, mas venci na vida horrores".

Hoje o blog acaba, mas eu não. Vou continuar escrevendo em outro lugar, de outro jeito, só não sei onde nem como e muito menos quando. A gente se esbarra por aí. Eu prometo.



A melhor fonte de notícias sobre a minha vida atualmente é meu perfil no Twitter, @felipe_fgnds. Se você não me segue lá, esse é um bom momento. Falo até o que não devo. Quando eu voltar a escrever textos engraçadinhos e ligeiramente preocupantes, é por lá provavelmente que você vai saber.

Mas, se não quiser se dá o trabalho, deixe seu e-mail nesse formulário aqui! Que eu te aviso quando eu e a nova casa estivermos prontos para receber visitas.

Em breve, NaoSeiLidar.com.br vai deixar de ser um lugar que existe na internet, mas o blog estará aqui até eu começar a sentir muita vergonha dele e trancá-lo, mas acho que não vai acontecer ou vai demorar. Os links ficarão todos quebrados, mas vocês que chegaram depois e estão aqui para me stalkear precisam se esforçar também, né, não vou dar tudo de mão beijada mais do que já dou.

Estou delirando.

Fiquem bem no que depender de vocês, ok? Vocês que leram, comentaram, compartilharam ou mesmo mandaram um pensamento positivo (eu recebi) me fizeram muito feliz nesse tempo todo. Espero ter retribuído à altura. 

Agora troquem de canal e voltem a passar pano, que essa casa não vai ficar limpa sozinha.