Amo pular páginas. Sempre rola uma comoção quando dou a entender, casualmente, que meu hábito favorito de leitura é esse. Não sei se as pessoas me entendem. Não que eu queira me justificar, não tô aqui buscando o PERDÃO de ninguém, é que eu acho que quem não pula é que perde horrores. Você tem o costume de pular páginas?



Entendo que pega mal. Quer dizer, eu leio desde sempre, tô falando de livros desde que vim capinar o matagal da internet, agora eu organizo clubes do livro e muita gente me agradece por esse trabalho, por eu ter ajudado a ressuscitar o hábito de leitura de gente que tinha deixado os livros um pouquinho de lado. Pular páginas parece coisa de quem não gosta de ler, de quem está lendo por obrigação e só quer chegar logo ao final para se ver livre da tarefa. Eu particularmente nem tenho nada contra quem faz isso, o livro é seu, pode ler de trás pra frente se quiser, mas não é por isso que pulo páginas.


Pulo para o livro ficar melhor. Pular páginas, pra mim, é melhorar a minha experiência de leitura.


Pessoal do clube do livro fica dizendo que eu deveria dar um curso. Não tenho essa cara-de-pau, mas na minha cabeça realmente existe uma técnica. Não saio pulando páginas aleatoriamente. Preciso primeiro sentir que posso pular aquela cena, aquele parágrafo, aquelas páginas. Não é qualquer página que dá para ser pulada, mas o processo é muito pessoal e só você vai saber quais páginas são boas para serem lidas. Vai muito do seu autoconhecimento enquanto leitor.


Eu tenho exemplos.


"Fangirl" é um livro da Rainbow Rowell, que é uma escritora que eu amo, tudo que essa mulher escreve me encanta pelo jeito que ela usa as palavras. Nesse Fangirl, bom, ela conta a história de uma menina indo para a faculdade, uma menina que escreve fanfics. Até aí tudo bem. O livro fica alternando os capítulos entre a vida da protagonista na universidade (as amizades dela, os relacionamentos amorosos, professores, dramas familiares etc) e as histórias que ela escreve. Sim, história dentro de história, que é um artifício que eu realmente odeio. Eu nunca fui muito feliz com livros nesse formato. Enquanto eu lia muito animado os capítulos da protagonista, quase morria pra finalizar os capítulos da fanfic, que é uma história de fantasia, gênero que já não me apetece muito. Era até engraçadinha e tal, mas não acrescentava EM NADA à história original. Muito mal se conectava com a trama, eram páginas e mais páginas descrevendo cenas que, ao meu ver, eram inúteis. Bastava saber que a menina escrevia fanfics de uma série naipe Harry Potter. Pulei sem dó. Li o livro até o final, continuei amando a autora, Fangirl é um dos melhores livros dela, na minha opinião.



Outro caso foi com o "Por trás de seus olhos", da Sarah Pinborough, que foi uma das escolhas do clube do livro. O livro fala do drama de uma mulher que se vê dividida entre a melhor amiga e o marido dessa amiga. Comecei lendo realmente muito curioso, a história é instigante, a escrita te leva longe. A protagonista entende que tá sendo fura-olho pegando o marido da amiga, mas está muito apaixonada pelo cara. E o casamento deles é todo esquisito mesmo, parece um relacionamento abusivo girando em várias direções. Aí notei um padrão. Toda santa vez que, por exemplo, o marido mandava uma mensagem para a protagonista do tipo "ei, vamo transar", ela ficava MAS NUNCA que vou fazer isso com minha amiga incrível, CHEGA DESSE HOMEM, aconteceu uma vez só sem querer, mas agora BASTA. Aqui eu tô resumindo. Mas eram umas cinco páginas da gente lendo os motivos que ela tinha pra nunca mais ficar perto desse homem, pra na última frase ela beber vinho, se chatear com a amiga por qualquer coisa e ficar QUER SABER? VOU DAR PRA ELE SIM. E aí ia. O tempo todo isso, gente. Às vezes ia na direção da amiga, às vezes na direção do cara. Mas era batata. Mil páginas falando que não ia fazer e, do nada, jogar tudo para o alto e fazer o oposto. Fiquei, meu deus, PRA QUE ESTOU LENDO ISSO se logo em seguida essa DESGRAÇADA vai cagar para o que disse? Quando comecei a identificar que vinha a lengalenga de sempre, pulava até ela efetivamente fazer o malfeito. Nossa, a leitura voou. O final é muito surpreendente, ou você termina de queixo no chão ou ultrajado com a reviravolta. Adorei ter passado por essa experiência!


Deu para entender meu ponto? Eu só pulo páginas em livros que estou gostando. Evito páginas que considero inúteis ou só vão me irritar sem acrescentar nada de novo. Às vezes o livro é incrível, mas tem uma parte muita chata, eu corto ela da minha experiência. É como tentar salvar um legume meio podre. O que é ruim a gente corta fora, a parte que sobra a gente consome. Quando o livro é ruim como um todo, na minha opinião, aí eu nem avanço na leitura. Eu abandono. Tenho certeza de que, se eu tivesse tentado ler de cabo a rabo esses livros que citei, teria ou abandonado ou terminado com uma avaliação bem negativa. Sem contar as horas gastas lendo coisa chata.


Ah, mas tenho medo de pular e perder coisa importante. Se for importante, você volta, ué. Ninguém morre por isso. Mas, como eu disse, vai muito de você saber identificar o que faz sentido para você ler. Um fã de fantasia, que ama Harry Potter, por exemplo, provavelmente seria muito feliz lendo os capítulos da fanfic em Fangirl. Cabe a você decidir. Também não é sobre ser importante ou não para o enredo do livro. Tem livros com capítulos imensos e inúteis, mas que eu gosto de ler porque sim. A escrita é boa, as cenas são engraçadas, eu amo ver os personagens interagindo... Eu pulo o que eu sinto que não vou gostar. Como eu disse, há séculos que sou leitor, então tem muita coisa que já sei que não rola para mim: história dentro de história, personagens sonhando, cenas com personagens alucinando, gente perdida em floresta e alguns formatos repetitivos como rolou com o "Por trás de seus olhos".


Ah, mas o autor e o editor pensam muito bem em construir a narrativa, tudo que está no livro é importante. Assim... Eu concordo que quem trabalha no livro realmente se esforça para que fique o melhor possível, mas o conceito de melhor é muito subjetivo. Melhor pra quem? A melhor forma do Fangirl pra mim seria ele sem os capítulos da fanfic. Obviamente a autora e quem editou o livro discordam de mim, e isso não é um problema. Pular páginas é minha forma de eu mesmo editar o livro para deixá-lo do jeito que me interessa. E, pelo amor de Deus, livros são escritos por pessoas, gente que erra, que toma decisões questionáveis, quantas vezes você não já leu um livro cujo final você odiou pois pareceu completamente incoerente com o resto da história? Nunca um livro vai ser publicado da melhor forma para todo mundo. Poder até ser a melhor forma para a maioria, mas para todo mundo não. Me sinto muito poderoso, cabe a mim mesmo fazer do livro a melhor experiência de leitura que eu puder.



Um exemplo que considero maravilhoso e que põe logo o prego no caixão dessa discussão é o Memórias Póstumas de Brás Cubas. Juro pra vocês que não estou faltando com a verdade, assim como fui ilibado ao demonstrar a subtrama homossexual em Dom Casmurro. Machado de Assis sempre a frente de seu tempo, ai, ai. Um dos capítulos do Memórias, não vou reproduzir com as exatas palavras, mas começa assim: "Olha, o capítulo a seguir é um grande delírio, então, se você quiser pular, pode, não acrescenta em nada". EU JURO, GENTE. E eu realmente odeio delírios!!! O AUTOR ME DEU O AVAL PARA SER FELIZ. Obviamente pulei. E vocês ainda nisso, ah, mas o autor quer que a gente leia tudo. Gente, o autor quer DINHEIRO, quer que você COMPRE O LIVRO. Depois de comprado você pode até botar fogo. Em outra parte do livro, eu senti que ia começar uma cena longa e desnecessária, então pulei o capítulo. Fiquei muito surpreso que o capítulo seguinte começa mais ou menos assim: "Eu sei que o capítulo anterior parece inútil, mas te garanto que não é. Se você pulou, te aconselho a voltar lá e ler". JURO DEMAIS, GENTE. Vocês que já leram Memórias Póstumas sabem que isso está lá! 


Então, assim, até o Machado de Assis sabia que tudo bem pular as páginas certas. Algumas precisam ser lidas, outras não necessariamente. O livro é seu, a experiência é sua, faça o que for melhor para você. Fico me perguntando o tanto de livro que vocês odiaram e que poderiam ter sido muito mais divertidos fazendo os cortes bem feitos. Dê seus pulos! Se um dia eu montar um curso, vocês saberão.




Nesse meio tempo entre um post e outro, estava brincando nas casas virtuais de outras pessoas. Dei uma mini-entrevista para o Rata de Biblioteca, falando da minha relação com a Biblioteca Parque RJ e de como ela ajuda os meus clubes do livro presenciais. Já leu?



Também ousei e participei de um podcast! Vocês que me acompanham exclusivamente aqui pelo blog provavelmente nunca ouviram minha voz, então talvez tenham interesse em ouvir o Eu-Lírico, da Laura Rubianes. O podcast é voltado para livros de terror e suspense, e nesse episódio a Laura me chamou para conversar sobre A Garota do Lago, um best-seller que foi lido pelo clube do livro e que, na minha opinião, está sendo um grande delírio coletivo nas listas de Mais Vendidos do Brasil. Ouça o episódio aqui!