O ano aqui é 2020, então, se você está lendo esse blog no futuro, espero que a pandemia já tenha acabado. Se esse blog de alguma forma se perdeu numa brecha temporal e você está na verdade em, sei lá, 2005, aproveita enquanto pode, as coisas começam a escorregar na bacia já em 2018.

Dito isso, estou de quarentena em casa, como 2% dos brasileiros.


Parece que não, mas tem muita gente morrendo lá fora. A TV só fala disso o tempo todo, então acho que por isso inventaram o TikTok, pra equilibrar um pouco. Eu sei que o número de mortes e gente com sequelas é meio assustador, mas olha aqui esse cachorro dançando em duas patas. Etc. É impossível pra mim não reparar nos meus amigos sofrendo pelos cantos da internet, e, infelizmente, dá para preencher uma cartela inteira do bingo da pandemia na minha timeline do Twitter: "Alguém que foi demitido", "Alguém tendo um surto", "Alguém fingindo que o coronavírus nunca existiu", "Alguém que perdeu um parente", "O presidente falando merda", BINGO, fechou a quina. 

Mesmo quem entendia que a quarentena era necessária, lá em Março, agora em Outubro já está desfalecido e esperando apenas a ordem divina para desencarnar. Não é legal ficar sem ver a família. Não é legal ficar longe dos amigos. É o oposto de legal ter que fazer tudo virtualmente, principalmente para a  gente que vinha num processo de desapegar um pouco da internet depois das eleições 2018 e agora estamos nos sentindo um bando de otários. Não é de se admirar que a procura por terapia online aumentou 500% ou sei lá, e o número de divórcios também, já que maridos e esposas descobriram que odeiam morar juntos. Enfim, o ponto é que, PRA QUALQUER UM que vocês perguntarem sobre a quarentena, a resposta vai ser pelo amor de Deus, me salve.

Menos pra mim.

Ai, gente, essa é uma verdade que eu prometi pra mim mesmo guardar no meu coração a sete chaves e, por isso, faz todo o sentido eu vir aqui e contar no blog: estou odiando a pandemia, mas amando a quarentena. E às vezes o amor é tão grande que eu esqueço que o mundo lá fora está se desintegrando.

EU AMO FICAR EM CASA.

Quem acompanhava o blog antes do coma talvez se lembre de que eu vivia numa JORNADA de me autodescobrir, de viver experiências diversas, de desbravar os mares, de conhecer os lugares, essas coisas todas que a gente gosta de fazer quando tem vinte e poucos anos e lê A Arte de Pedir. Eu fui de garoto mudo e tímido no Ensino Médio pra pessoa que chama todos os amigos pra sair nos finais de semana. Olha, eu saí muito de casa. Juro que não tinha planos de parar de conhecer gente nova, muito menos de dar um tempo nas ciladas do bem. Me joguei no mundo, sabe? Aquela alma lúgubre trancafiada em casa? Aqui não, meu bem. Mas aí veio a quarentena. E eu redescobri como é MARAVILHOSO ser uma alma lúgubre trancafiada em casa.

Admito que tenho vergonha de dizer isso em voz alta, mas eu não quero voltar ao normal. Óbvio que não estou falando sobre nada relacionado ao vírus, mas o fato de ter que ficar em casa está sendo, sei lá, o melhor momento da minha vida.

O livro que eu não conseguia terminar de escrever porque não me sobrava tempo? Escrevi. As duas horas e meia que eu gastava indo da casa pro trabalho e vice-versa? O home office matou. Os inúmeros eventos de família que honestamente eu nunca tenho vontade de ir apesar de gostar de todo mundo? Cessaram. Quer dizer, cessaram pelo menos as intimações pra eu comparecer, porque minha resposta é sempre a mesma poxa, tô de quarentena, né.



Eu tô dormindo como nunca antes, já que não preciso mais acordar tão cedo. Leio que nem um desgraçado. Estou tendo tempo de limpar minha casa do jeito que eu gosto, de lavar minhas roupas e minha louça. 

Toda a logística de manutenção de um namoro com a qual eu precisava fazer malabarismos caiu por terra, já que eu e meu namorado decidimos morar juntos temporariamente (mas um temporariamente que já dura MESES, então tenho certeza que sairei da quarentena casado). E Arthur é a pessoa mais fácil de se lidar. Meus colegas de trabalho todos reclamam de como é HORRÍVEL lidar com as esposas e os filhos deles 24h por dia, enquanto eu apenas me recolho no meu gay silence já que morar com meu namorado há 8 meses vem sendo uma experiência maravilhosa. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginei dar tão certo com alguém. 

Os tempos de ócio que eu tinha no meu trabalho mais a hora de almoço são perfeitos para fazer o impensável no mundo corporativo: tirar uma sonequinha. Posso acompanhar horas de reuniões que caberiam num e-mail passando um pano no chão, organizando meus projetos pessoais, agitando os grupos do clube do livro... Eu inclusive estava engatinhando com a ideia de fazer encontros online via chamada de vídeo no clube do livro logo antes da pandemia acontecer e, daí, quando ela chegou, me joguei na experiência. Organizo bate-papos quase semanais, faço a mediação de encontros com mais de dez pessoas, vejo meus amigos pela tela do meu celular e, assim, isso nunca vai substituir totalmente ver todo mundo cara a cara, mas, se antes eu gastava, sei lá, oito horas para participar de um encontro desses, agora eu gasto duas ou menos no conforto do meu lar. Para o introvertido que estava adormecido dentro de mim, é uma realidade tentadora.

Sei que não tem como durar para sempre. Nem eu quero que dure, quero meus amigos todos vivos quando tudo isso acabar. Só acho que vou carregar esse conflito comigo e, talvez lá na frente, ele exploda ou floresça de alguma forma. É como se eu tivesse descoberto a vida que quero viver, vivido ela por um período limitado de tempo e, quando passar, passou, não volta mais. Isso não é meio triste? O novo normal me pediu em namoro, mas eu não posso aceitar.

A Thaís Godinho detalhou esse conflito muito melhor do que eu e lançou a pergunta que não quer calar: Quando tudo voltar ao normal, será que eu também quero voltar ao que era?

A minha resposta é um sonoro não.



Semana retrasada eu escrevi aqui no blog sobre a história mais incrível que já me aconteceu quando eu saía de casa, você viu?

Outra coisa! Estou tentando voltar a fazer parte de uma comunidade de blogs pessoais legais. Você conhece algum pra me indicar? Que tal o seu? Vamos ser amigos de blog!