terça-feira, outubro 27, 2020

Fiquei mais de um mês sem ligar pra minha mãe. O pior de tudo é que nem percebi.


Um dia, se eu tiver tempo e oportunidade, ainda vou escrever um livro sobre isso. No que tange questões familiares, eu nunca me identifiquei 100% com nenhuma família representada na ficção. Temos as famílias felizes, dessas que tem uns conflitos no meio, mas no fim das contas todo mundo coloca as diferenças de lado e se ajuda quando precisa. Tem aquelas pessoas que vivem pela família. Tem a irmã que se voluntaria como tributo pela outra. Tem os pais que se sacrificam pelos filhos. Lógico que o outro lado da moeda também aparece bastante nos livros e filmes: as famílias completamente despedaçadas, abusivas, disfuncionais. Sempre tem alguém que ama demais, sempre tem gente que se odeia até a morte. É um espectro até bem abrangente, mas não consigo me ver nele.


Maçãs penduradas em galhos de árvore


Não tenho nenhum carinho especial pela minha genealogia, talvez porque eu seja um fruto que caiu um pouco longe demais da árvore. Acho o conceito de "laço de sangue" uma bobagem. Amo minha mãe porque ela me criou, não porque ela me pariu. Sigo esse mesmo raciocínio com os demais parentes. Uma tia que nunca teve participação na minha vida é apenas uma conhecida. Dos meus primos distantes eu mal sei o nome. Às vezes a gente se aproxima, às vezes a gente se afasta e, pra mim, isso é natural. É o que acontece com todas as minhas amizades: um amigo com o qual eu não tenho mais assunto, que a gente nunca se procura, nunca se vê, vira uma lembrança. Os parentes que esperam de mim alguma coisa só por sermos da mesma família estão fadados à frustração. EU COMECEI ESSE POST DIZENDO QUE ESQUECI DA MINHA MÃE, pelo amor de Deus.


E, gente, eu realmente amo a minha mãe. Quando vou visitar, fico grudado nela. Adoro o carinho que ela me dá, amo abraçar. Ela tem um riso facílimo que me deixa muito feliz. Minhas irmãs, meus primos e tias, minhas crianças, eu não tenho nada contra ninguém. Nenhuma briga mal resolvida, nenhum ódio mortal básico por causa das eleições 2018, se algum dia alguém me tratou mal eu já esqueci. A gente se dá bem, de vez em quando a gente senta pra rir e conversar, passo horas nos jogos de tabuleiro com meus sobrinhos... Então, assim, é um mistério eu não sentir saudades de ninguém. O que eu tenho pela minha família é gratidão, eu acho. Fui amado em todas as linguagens do amor na infância e adolescência. Minha mãe fez de um tudo pra me manter numa escola boa, sempre incentivou meus estudos. Se hoje eu tenho um diploma que ela nunca teve, um emprego estável que ela também nunca alcançou, um salário que dá para sustentar a mim e a ela, foi tanto mérito dela quanto meu. Mais da metade do meu dinheiro vai para minha mãe e, se eu pudesse viver com menos pra ela viver com mais, eu viveria. Ela merece. Eu gosto de todos os demais, mas mais de uma vez pensei que, se minha mãe morresse, não sei o que me faria ir até eles novamente sem ela por lá.


Já conversei com amigos sobre isso, embora talvez devesse levar para um psicólogo, sou muito curioso em saber por que as pessoas amam suas famílias. Talvez você que me lê nunca tenha pensado sobre isso, para algumas pessoas soa como "Por que você gosta de sorrir?", mas encontrei algumas respostas. "Porque eles são meu porto seguro". Eu sou muito bom em resolver meus problemas sozinho e, quando preciso de colo, é meu namorado quem me dá. Quando me imagino triste e devastado, não penso na casa da minha mãe como lugar de curar minhas feridas. Nossa, ia ter que responder tantas perguntas! Eu prefiro até ficar chorando minhas pitangas sem ninguém. "Porque meus melhores amigos estão lá". Pois os meus estão todos do lado de fora. Ninguém da minha família é meu amigo íntimo. Meus segredos, minhas aflições e planos eu conto para outras pessoas. Eu jogo no Twitter, mas não compartilho com parente. "Porque eles me sustentam". Já tem uns anos que eu sou financeiramente independente, inclusive tem gente na minha família me devendo horrores.


A sensação que eu tenho, e eu evito dizer isso em voz alta, é que eu não preciso da minha família para nada. Eles poderiam sumir que minha vida não iria piorar. Aliás, era capaz da minha vida melhorar. (muito mais dinheiro, menos telefonemas que não gosto de dar, menos eventos que não gosto de ir, menos pessoas pra eu me preocupar...). Não que eu queira que eles MORRAM. Se todo mundo falecer num acidente trágico de avião, por exemplo, eu vou sofrer largado, mas digo sumir mesmo, pluft, como se nunca tivessem existido. Um cenário completamente irreal, eu sei, mas penso demais nisso. Tem dias que eu quase quero que eles sumam.


É bem fora do meu personagem revelar aqui um pensamento feio desses, mas o nome do blog é "Não sei lidar", então achei condizente. Vira e mexe me debato com esse conflito, já fui ao Google várias vezes ver se é sintoma de psicopatia (não é). Eu nem fui criado por lobos nem nada. Pensar assim não chega a me fazer mal, além de umas leves crises de consciência, só fico constrangidíssimo perto de gente que liga para a mãe todos os dias sem falta.




Revelei demais? Se diferente de mim você sabe não se expor gratuitamente na internet, mas gostaria de conversar sobre o assunto, pode me mandar um e-mail! O formulário de contato do blog funcionava em 2019, fica aí o suspense se ainda funciona, mas tente!

Se você já perdeu as rédeas da sua vida na internet, então deixe um comentário aqui mesmo. Você ama sua família? Consegue me dizer o porquê?


Posted on terça-feira, outubro 27, 2020 by Felipe Fagundes

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terça-feira, outubro 20, 2020

Todo mundo já sabe mais ou menos o que esperar quando começa a ler Dom Casmurro, do Machado de Assis. Quando meu clube do livro escolheu essa leitura, já imaginei todo um debate gostoso sobre o bom e velho Capitu traiu ou não traiu. Sabe o que eu não esperava? Um tórrido romance lgbt nas entrelinhas e principalmente nas linhas.



Eu não tô brincando, gente. Sei que nesse blog faço piada com tudo, mas o subtexto homoerótico entre Bentinho e Escobar é real. Tudo começou com esse meme aqui:





Quer dizer, eu achei que fosse um meme, mas é toda uma teoria embasada nas pistas escondidas por Machado à espera do gay certo. Quanto mais eu ia lendo, mais ficava Nossa. Eita. Rapaaaaaaz. Juro pra vocês, a tensão sexual nas páginas de Dom Casmurro me balançou mais que os últimos romances gays que li. Chegou certo ponto do livro, eu não estava mais nem aí pra saber quem era Capitu, afinal nem se quisesse ela conseguiria alguma coisa com Escobar, que só tinha olhos para o Bentinho.


"Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os rapazes e os padres"


Isso é quando Bentinho começa a contar como foi a adolescência dele no seminário, que é um colégio católico que forma padres, obviamente só para meninos. Assim... ATÉ AÍ TUDO BEM. Ele acabou de conhecer o Escobar e, de repente, já são grandes amigos. Até que vem essa confissão:


"Escobar, você é a pessoa que mais me tem entrado no coração"


"Bentinho, a verdade é que não tenho relações com ninguém aqui, você é o primeiro e creio que já notaram, mas eu não me importo com isso"


Logo em seguida eles são repreendidos por um padre porque se abraçaram no pátio. O padre diz que eles não precisam demonstrar tanto afeto assim, "podem estimar-se com moderação". A solução dos dois amigos é dar as mãos às escondidas, longe dos olhares indesejados.


Eu não sei pra que gastei minha adolescência inteira indo numa igreja evangélica se toda diversão acontece nos seminários católicos.


Ok que vocês podem achar pouco, mas eu não acabei.


Amo a parte que o Escobar conhece a mãe do Bentinho e percebe que ela é muito bonita.


"Está muito moça e bonita! Também a alguém há de você sair"


Meu deus, gente, que flerte sutil. Ao mesmo tempo em que Escobar elogia a mãe, encaixa rapidamente um elogio a beleza de Bentinho.


MANDARAM ISSO NO GRUPO DO CLUBE e achei pertinente


Existem outras passagens menos reveladoras, mas que carregam muito potencial quando lidas com os olhos certos. Quando Bentinho pergunta, irritado, por que Escobar não foi jantar na casa dele, e o segundo rebate que não foi convidado, para ouvir um "E precisa???". Ou as inúmeras vezes que Bentinho deixa claro que a opinião de seu amigo hétero Escobar é tudo que ele precisa ouvir. Ou ainda quando Bentinho APALPA os braços de Escobar, como num clássico lgbt, e diz "Nossa, que braços de nadador!"


De qualquer forma, porém, o detalhe que deixou minhas pernas bambas é o porta retrato sobre a mesa do escritório do Bentinho com uma foto do Escobar. Isso mesmo, nosso protagonista trabalhando o dia todo olhando para a foto de seu grande amigo, como todos nós fazemos. Nenhuma menção a outras fotos, nem da Capitu, nem do filho, nem da mãe... Mas tudo bem! Intrigante inclusive que a foto foi dada pelo próprio Escobar como um presente. Não é uma foto deles juntos. Não é uma foto das famílias, não é um grupo de pessoas que por acaso inclui o Escobar. Não. É uma foto EXCLUSIVAMENTE DO ESCOBAR. Posando para a câmera. Não bastasse tudo isso, ainda vem com uma dedicatória:


"Ao meu querido Bentinho, do seu querido Escobar"


COMO É LINDO HOMENS QUE SE AMAM NA CAMA COMO AMIGOS!!!


Eu encerro meu caso aqui.




* Se você gosta de gays, pode me seguir no Twitter pois sou um.


* Se por acaso você também gosta de livros, eu participei de uma coletânea que une o melhor dos dois mundos. Parece aquele meme: tem gay, sapatão, androide, contos de fada, espíritos, demônios e um conto meu pra fazer você rir largado. Já conferiu? É a coletânea Não Morre No Final, à venda na Amazon e disponível no Kindle Unlimited!

Posted on terça-feira, outubro 20, 2020 by Felipe Fagundes

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terça-feira, outubro 06, 2020

O ano aqui é 2020, então, se você está lendo esse blog no futuro, espero que a pandemia já tenha acabado. Se esse blog de alguma forma se perdeu numa brecha temporal e você está na verdade em, sei lá, 2005, aproveita enquanto pode, as coisas começam a escorregar na bacia já em 2018.

Dito isso, estou de quarentena em casa, como 2% dos brasileiros.


Parece que não, mas tem muita gente morrendo lá fora. A TV só fala disso o tempo todo, então acho que por isso inventaram o TikTok, pra equilibrar um pouco. Eu sei que o número de mortes e gente com sequelas é meio assustador, mas olha aqui esse cachorro dançando em duas patas. Etc. É impossível pra mim não reparar nos meus amigos sofrendo pelos cantos da internet, e, infelizmente, dá para preencher uma cartela inteira do bingo da pandemia na minha timeline do Twitter: "Alguém que foi demitido", "Alguém tendo um surto", "Alguém fingindo que o coronavírus nunca existiu", "Alguém que perdeu um parente", "O presidente falando merda", BINGO, fechou a quina. 

Mesmo quem entendia que a quarentena era necessária, lá em Março, agora em Outubro já está desfalecido e esperando apenas a ordem divina para desencarnar. Não é legal ficar sem ver a família. Não é legal ficar longe dos amigos. É o oposto de legal ter que fazer tudo virtualmente, principalmente para a  gente que vinha num processo de desapegar um pouco da internet depois das eleições 2018 e agora estamos nos sentindo um bando de otários. Não é de se admirar que a procura por terapia online aumentou 500% ou sei lá, e o número de divórcios também, já que maridos e esposas descobriram que odeiam morar juntos. Enfim, o ponto é que, PRA QUALQUER UM que vocês perguntarem sobre a quarentena, a resposta vai ser pelo amor de Deus, me salve.

Menos pra mim.

Ai, gente, essa é uma verdade que eu prometi pra mim mesmo guardar no meu coração a sete chaves e, por isso, faz todo o sentido eu vir aqui e contar no blog: estou odiando a pandemia, mas amando a quarentena. E às vezes o amor é tão grande que eu esqueço que o mundo lá fora está se desintegrando.

EU AMO FICAR EM CASA.

Quem acompanhava o blog antes do coma talvez se lembre de que eu vivia numa JORNADA de me autodescobrir, de viver experiências diversas, de desbravar os mares, de conhecer os lugares, essas coisas todas que a gente gosta de fazer quando tem vinte e poucos anos e lê A Arte de Pedir. Eu fui de garoto mudo e tímido no Ensino Médio pra pessoa que chama todos os amigos pra sair nos finais de semana. Olha, eu saí muito de casa. Juro que não tinha planos de parar de conhecer gente nova, muito menos de dar um tempo nas ciladas do bem. Me joguei no mundo, sabe? Aquela alma lúgubre trancafiada em casa? Aqui não, meu bem. Mas aí veio a quarentena. E eu redescobri como é MARAVILHOSO ser uma alma lúgubre trancafiada em casa.

Admito que tenho vergonha de dizer isso em voz alta, mas eu não quero voltar ao normal. Óbvio que não estou falando sobre nada relacionado ao vírus, mas o fato de ter que ficar em casa está sendo, sei lá, o melhor momento da minha vida.

O livro que eu não conseguia terminar de escrever porque não me sobrava tempo? Escrevi. As duas horas e meia que eu gastava indo da casa pro trabalho e vice-versa? O home office matou. Os inúmeros eventos de família que honestamente eu nunca tenho vontade de ir apesar de gostar de todo mundo? Cessaram. Quer dizer, cessaram pelo menos as intimações pra eu comparecer, porque minha resposta é sempre a mesma poxa, tô de quarentena, né.



Eu tô dormindo como nunca antes, já que não preciso mais acordar tão cedo. Leio que nem um desgraçado. Estou tendo tempo de limpar minha casa do jeito que eu gosto, de lavar minhas roupas e minha louça. 

Toda a logística de manutenção de um namoro com a qual eu precisava fazer malabarismos caiu por terra, já que eu e meu namorado decidimos morar juntos temporariamente (mas um temporariamente que já dura MESES, então tenho certeza que sairei da quarentena casado). E Arthur é a pessoa mais fácil de se lidar. Meus colegas de trabalho todos reclamam de como é HORRÍVEL lidar com as esposas e os filhos deles 24h por dia, enquanto eu apenas me recolho no meu gay silence já que morar com meu namorado há 8 meses vem sendo uma experiência maravilhosa. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginei dar tão certo com alguém. 

Os tempos de ócio que eu tinha no meu trabalho mais a hora de almoço são perfeitos para fazer o impensável no mundo corporativo: tirar uma sonequinha. Posso acompanhar horas de reuniões que caberiam num e-mail passando um pano no chão, organizando meus projetos pessoais, agitando os grupos do clube do livro... Eu inclusive estava engatinhando com a ideia de fazer encontros online via chamada de vídeo no clube do livro logo antes da pandemia acontecer e, daí, quando ela chegou, me joguei na experiência. Organizo bate-papos quase semanais, faço a mediação de encontros com mais de dez pessoas, vejo meus amigos pela tela do meu celular e, assim, isso nunca vai substituir totalmente ver todo mundo cara a cara, mas, se antes eu gastava, sei lá, oito horas para participar de um encontro desses, agora eu gasto duas ou menos no conforto do meu lar. Para o introvertido que estava adormecido dentro de mim, é uma realidade tentadora.

Sei que não tem como durar para sempre. Nem eu quero que dure, quero meus amigos todos vivos quando tudo isso acabar. Só acho que vou carregar esse conflito comigo e, talvez lá na frente, ele exploda ou floresça de alguma forma. É como se eu tivesse descoberto a vida que quero viver, vivido ela por um período limitado de tempo e, quando passar, passou, não volta mais. Isso não é meio triste? O novo normal me pediu em namoro, mas eu não posso aceitar.

A Thaís Godinho detalhou esse conflito muito melhor do que eu e lançou a pergunta que não quer calar: Quando tudo voltar ao normal, será que eu também quero voltar ao que era?

A minha resposta é um sonoro não.



Semana retrasada eu escrevi aqui no blog sobre a história mais incrível que já me aconteceu quando eu saía de casa, você viu?

Outra coisa! Estou tentando voltar a fazer parte de uma comunidade de blogs pessoais legais. Você conhece algum pra me indicar? Que tal o seu? Vamos ser amigos de blog!







Posted on terça-feira, outubro 06, 2020 by Felipe Fagundes

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