Eu lembro bem do dia que me assumi pra minha mãe. Nós dois choramos depois.


Era uma manhã bem manhã mesmo, porque eu saía cedo de casa pra trabalhar naquela época e, sei lá, eu senti que precisava contar. Eu odeio guardar segredo, gente. O das outras pessoas eu guardo com um afinco que chega a irritar, mas os meus eu gosto de contar pra TODO MUNDO. Me sinto um impostor escondendo as coisas, uma fraude. Imagina esconder minha sexualidade da minha mãe. Nunca tinha chegado nem perto de me envolver com ninguém e, na verdade, eu nem queria. Ainda estava na fase AI, MEU DEUS, SEREI EU UM INSTRUMENTO DE SATANÁS? Então eu só disse: "Preciso te contar uma coisa: eu gosto de meninos". Não usei a palavra gay, porque ainda me via apenas como assexual, mas sei que foi o que ela entendeu. Eu ainda frequentava uma igreja, ela ainda frequenta, então pensei, bom, a PIOR COISA para uma mãe cristã é ter um filho gay, então vou mirar logo no pior. O que vier disso será lucro. Ela me abraçou, disse que me amava e que ia orar muito por mim. Melhor que um soco na cara, né?

Fiquei aliviado, mas lembro que dei uma choradinha no caminho de casa até o ponto de ônibus. Era um choro de CARAMBA, COMO ASSIM eu tive que passar por esse momento e pessoas héteros nunca chegam perto disso? Que injustiça. Mas passou. Depois minha mãe me ligou dizendo que chorou também, mas que já estava tudo bem.

Depois simplesmente não falamos mais nada sobre o assunto. Foi até como se eu nunca tivesse contado nada.

Eu passei por todo o caminho de me conhecer melhor e entender o que a palavra gay significa pra mim. Acho que ainda estou me apropriando dela enquanto vou experimentando uma coisa aqui e outra ali, enquanto vejo como ser gay cai nos ambientes que frequento. Também só contei para minha mãe e meus amigos próximos, o resto pode esperar ou descobrir sozinho.

Quando eu comecei a namorar o Arthur, achei que seria meio ridículo esconder. Difícil também, né. Uma coisa é esconder um sentimento, omitir meus desejos, outra coisa é esconder uma PESSOA. Eu nunca tinha namorado e as pessoas sabiam que eu nunca tinha nem ficado com ninguém, então todo mundo me lia como solteiro que ficaria sozinho pra sempre. Só com um anúncio formal para as pessoas entenderem a nova realidade. Falo abertamente aqui no blog, no Twitter, mas deixo mais implícito no Facebook. Uma pessoa atenta percebe que Arthur existe e o que ele significa pra mim, mas acho que as mais lerdas só eu falando mesmo.

Minha mãe não deixou eu contar pra minha família. Eu queria só agir como se todo mundo já soubesse e numa conversa qualquer soltar um "Ah, meu namorado já foi nesse lugar também" do jeito mais casual do mundo pra todo mundo ficar O SEU O QUÊ??? e eu explicar com toda paciência. Sem dramas. Mas minha mãe cismou que ela que tinha que contar. AOS POUCOS. Não sei dizer o motivo, gente. Vergonha? Medo? Não sei mesmo. Vocês que já são mães tentem desvendar pra mim. Achei besta e meio que um abuso, já que é a MINHA verdade e a MINHA história e a MINHA vida, mas ok. Quer dizer, NÃO TÃO OK, mas pra quem já esperou a vida toda o que seria esperar um AOS POUCOS?

Confesso que achei que nunca fosse acontecer, mas vocês acreditam que minha mãe está realmente progredindo? Toda semana ela me liga pra avisar:

- FALEI DE VOCÊ PRA SUA TIA.
- Falou o quê?
- DE VOCÊ.
- MAS O QUÊ?
- VOCÊ!!!

Às vezes é uma prima, minha irmã... As crianças estão proibidas de saber, o que acho uma bobagem porque tenho certeza que elas aceitariam muito melhor. "DEIXA QUE EU CONTO. UM DIA". Eu vou esperar, né, o que me resta? Todo mundo está levando de boa. Vamos acompanhar.



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