segunda-feira, maio 27, 2019

Eu lembro bem do dia que me assumi pra minha mãe. Nós dois choramos depois.


Era uma manhã bem manhã mesmo, porque eu saía cedo de casa pra trabalhar naquela época e, sei lá, eu senti que precisava contar. Eu odeio guardar segredo, gente. O das outras pessoas eu guardo com um afinco que chega a irritar, mas os meus eu gosto de contar pra TODO MUNDO. Me sinto um impostor escondendo as coisas, uma fraude. Imagina esconder minha sexualidade da minha mãe. Nunca tinha chegado nem perto de me envolver com ninguém e, na verdade, eu nem queria. Ainda estava na fase AI, MEU DEUS, SEREI EU UM INSTRUMENTO DE SATANÁS? Então eu só disse: "Preciso te contar uma coisa: eu gosto de meninos". Não usei a palavra gay, porque ainda me via apenas como assexual, mas sei que foi o que ela entendeu. Eu ainda frequentava uma igreja, ela ainda frequenta, então pensei, bom, a PIOR COISA para uma mãe cristã é ter um filho gay, então vou mirar logo no pior. O que vier disso será lucro. Ela me abraçou, disse que me amava e que ia orar muito por mim. Melhor que um soco na cara, né?

Fiquei aliviado, mas lembro que dei uma choradinha no caminho de casa até o ponto de ônibus. Era um choro de CARAMBA, COMO ASSIM eu tive que passar por esse momento e pessoas héteros nunca chegam perto disso? Que injustiça. Mas passou. Depois minha mãe me ligou dizendo que chorou também, mas que já estava tudo bem.

Depois simplesmente não falamos mais nada sobre o assunto. Foi até como se eu nunca tivesse contado nada.

Eu passei por todo o caminho de me conhecer melhor e entender o que a palavra gay significa pra mim. Acho que ainda estou me apropriando dela enquanto vou experimentando uma coisa aqui e outra ali, enquanto vejo como ser gay cai nos ambientes que frequento. Também só contei para minha mãe e meus amigos próximos, o resto pode esperar ou descobrir sozinho.

Quando eu comecei a namorar o Arthur, achei que seria meio ridículo esconder. Difícil também, né. Uma coisa é esconder um sentimento, omitir meus desejos, outra coisa é esconder uma PESSOA. Eu nunca tinha namorado e as pessoas sabiam que eu nunca tinha nem ficado com ninguém, então todo mundo me lia como solteiro que ficaria sozinho pra sempre. Só com um anúncio formal para as pessoas entenderem a nova realidade. Falo abertamente aqui no blog, no Twitter, mas deixo mais implícito no Facebook. Uma pessoa atenta percebe que Arthur existe e o que ele significa pra mim, mas acho que as mais lerdas só eu falando mesmo.

Minha mãe não deixou eu contar pra minha família. Eu queria só agir como se todo mundo já soubesse e numa conversa qualquer soltar um "Ah, meu namorado já foi nesse lugar também" do jeito mais casual do mundo pra todo mundo ficar O SEU O QUÊ??? e eu explicar com toda paciência. Sem dramas. Mas minha mãe cismou que ela que tinha que contar. AOS POUCOS. Não sei dizer o motivo, gente. Vergonha? Medo? Não sei mesmo. Vocês que já são mães tentem desvendar pra mim. Achei besta e meio que um abuso, já que é a MINHA verdade e a MINHA história e a MINHA vida, mas ok. Quer dizer, NÃO TÃO OK, mas pra quem já esperou a vida toda o que seria esperar um AOS POUCOS?

Confesso que achei que nunca fosse acontecer, mas vocês acreditam que minha mãe está realmente progredindo? Toda semana ela me liga pra avisar:

- FALEI DE VOCÊ PRA SUA TIA.
- Falou o quê?
- DE VOCÊ.
- MAS O QUÊ?
- VOCÊ!!!

Às vezes é uma prima, minha irmã... As crianças estão proibidas de saber, o que acho uma bobagem porque tenho certeza que elas aceitariam muito melhor. "DEIXA QUE EU CONTO. UM DIA". Eu vou esperar, né, o que me resta? Todo mundo está levando de boa. Vamos acompanhar.



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Posted on segunda-feira, maio 27, 2019 by Felipe Fagundes

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quinta-feira, maio 16, 2019

Quando eu estava solteiro, achava o fim dos tempos alguém dizer que a pessoa com quem ela tem um relacionamento amoroso é sua melhor amiga. Tipo os Tribalistas com essa de "Meu melhor amigo é o meu amor". E olha que você pode achar esse verso em várias legendas no Instagram. Além do fato de que eu não tinha um amor pra chamar de meu, eu valorizava muito amizades (ainda valorizo) e tinha uma perspectiva ruim de relacionamentos em geral. Sei lá, a impressão que eu tinha é que pessoas que namoram não necessariamente combinam, elas meio que são obrigadas a fazerem tudo junto já que namoram. Ah, quer dar uns beijos e uns amassos? ENTÃO VAMOS FAZER TUDO JUNTOS. Não me parecia ter a liberdade que uma amizade tem, onde as pessoas escolhem quando querem estar perto uma das outras.

Eu também tinha exemplos de relacionamentos meio esquisitos. Me desculpa se o seu é assim. Mas homens que acham chato passear com as namoradas, gente que tem segredos pro marido/esposa, pessoas que acham um sacrifício conversar. Coisas básicas. Na hora do vuco-vuco, tudo maravilhoso. Fora isso, já entrava na parte chata do namoro/noivado/casamento.

Assim, gente... Que amizade horrível.


Também tinham esses casos das pessoas que fazem tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO, juntas e isso até hoje eu acho desconcertante. Me dá agonia. Acho que isso cria uma relação de dependência muito forte e meio que vai matando suas outras relações. Se o tempo todo você está com seu namorado/namorada, então você nunca está com os seus amigos. São até aqueles casos típicos de gente que some quando começa a namorar ou que arrasta o agregado pra tudo que é rolê dos amigos. Pra mim, o inferno é assim. Geralmente são essas pessoas que, quando enfrentam problemas no relacionamento, ficam só a boquinha do Sérgio Moro, no fundo do poço, porque não tem mais amigo nenhum pra desabafar nem aconselhar nem pra dar apoio. Ah, tem sim, tem o seu amado, mas, adivinha só, ELE É O PROBLEMA.

Por essas e outras que eu sempre pensei "Coitados..." quando vinham com essa de o melhor amigo ser também o amor. Parece um desperdício dar à mesma pessoa dois cargos tão importantes. Às vezes, você precisa de um namorado, em outras você precisa de um amigo.

Aí eu comecei a namorar.

Ok, dá pra entender o fogo no rabo de querer fazer TUDO com a pessoa e contar TUDO pra ela. Não sei exatamente o motivo, mas namorando a gente cria uma intimidade absurda, que, pelo menos na minha experiência, ultrapassa fácil qualquer amizade que eu tenha. É curioso que eu conheça o Arthur há menos de um ano, mas só pra ele eu tenho coragem de dizer certas coisas. Eu não tenho coragem de dançar na frente dos meus amigos que conheço há mais de dez anos, mas danço até o Tchan na frente do Arthur. As críticas que eu faço, os pensamentos que eu deixo vazarem... A vergonha é quase mínima, porque, de alguma forma, sei que ele não vai me julgar nem um pouquinho. E, mesmo quando ele me julga, eu conto mesmo assim porque é muito engraçado. Acho que ele foi a primeira pessoa pra quem eu contei que odeio museus, EU PRECISAVA PÔR ISSO PRA FORA. E ele foi o escolhido. Ele sabe quanto dinheiro eu tenho, sabe dos meus planos de dominação mundial, eu conto tudo que eu quero, porque, sei lá, eu não preciso esconder. É uma vulnerabilidade que não é forçada, pra mim foi natural.

É disso que as pessoas falam? Humn... Então vou deixar passar. Mas não viciem, tá? Respirem um pouco sozinhos, vai dar um rolê sem seu @, CULTIVE SUAS AMIZADES, DESGRAÇA. É o melhor conselho possível.


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Posted on quinta-feira, maio 16, 2019 by Felipe Fagundes

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quarta-feira, maio 08, 2019

Quando eu me entendi como assexual e assumi para o mundo, senti que fiz a coisa certa. Nossa, foi uma identificação tão grande! As peças que não se encaixavam sobre minha sexualidade finalmente fizeram todo o sentido, mas todo MESMO, e eu adorei descobrir que existia mais gente que nem eu, que eu não era quebrado nem nada. Comecei a falar pra todo mundo que me perguntava. "Sou assexual". "Não tenho interesse em nudes, sou assexual". "Você é bem atraente sim, só que eu sou assexual, então...". As pessoas não entenderam muito. Até discuti com algumas.

Ter que se defender o tempo todo enquanto assexual é o ó, o mundo não tá preparado pra isso, eu acho. Surge gente do bueiro querendo te ensinar a transar como se falta de oportunidade para aprender fosse seu obstáculo. "Venha, vou te tirar desse mundo de solidão e escassez de orgasmos decentes!". Chega a ser ridículo. Ainda hoje eu acho sexo uma coisa superestimadíssima. Talvez isso prove que de fato sou assexual.


De qualquer forma, eu sentia que me faltava algo. Algumas coisas, na verdade. A primeira era uma identidade forte, algo que eu pudesse dizer e as pessoas entenderem. O mundo é homofóbico e, em todo lugar que me perguntavam "Você é gay?", eu respondia que não. Porque tecnicamente eu era assexual. Na minha cabeça, eu estava respondendo "Não sou gay, sou assexual", mas cada um entende o que quer, né? Certeza que quem me perguntava escutava "Não sou gay, sou hétero". E, ai, gente, é horrível ser hétero é uma das piores situações ser lido como hétero e, por conta disso, ter que ouvir um bando de comentários homofóbicos que pessoas "do bem" jamais falariam na cara de um gay. Eu era obrigado a ficar lá com cara de tacho, porque ao mesmo tempo que eu não podia afirmar que era gay, também não queria ter que explicar que era assexual, porque ninguém ia entender e, pelo amor de Deus, a gente nem se conhece. Eu não tinha lugar de fala, me sentia limitado.

Eu sempre gostei de outros caras. Talvez não de um jeito muito evidente e físico e vai ver que não do jeito que as pessoas gostam das outras, mas eu sempre gostei. Em muitas coisas eu me identificava com meninos que gostavam de outros meninos, praticamente todas exceto as relacionadas ao sexo. Então era como se eu fosse gay sem ser. "Assexual homorromântico" é uma palavra tão comprida! E meio que não existe uma "cultura ace". Se existe, é invisível. Mas a gay está aí. Gostar de divas pop, o jeito de falar, de agir, não gostar de futebol e carros, o dialeto próprio, a liberdade contra a masculinidade tóxica... Óbvio que não é que todo gay seja assim, mas a cultura existe. Eu nem curto diva pop. Mas sempre joguei com personagens femininas em vídeo games e ver outros gays comentando isso foi tudo pra mim! São tantos DETALHES em comum!!! Então, me assumindo como ace, não fazer parte da cultura gay era outra coisa que me fazia falta.

E desde então que acho que esse modelo de sexualidade está errado incompleto. Uma coisa que eu tava pensando uns meses atrás é que a assexualidade é totalmente inventada. Não o fato de pessoas não sentirem atração sexual, essas pessoas existem e são válidas, mas o modelo que criaram pra assexualidade é isso: criado. Não é biologia ou sei lá. O fulano que cunhou o termo achou que estava bom assim e, como ninguém tinha falado sobre isso antes, ficou valendo o dele.

Não acho bom.

Colocar a assexualidade como uma sexualidade nova me parece pobre e limitador. Um assexual homorromântico sexopositivo tem muito mais em comum com um gay do que com um assexual heterorromântico sexonegativo, por exemplo. Assexuais são muito diversos e, por mais que todos possam se identificar com a questão da falta de atração sexual, as demais vivências não ligadas ao sexo são muito diferentes. Como eu disse, não há cultura ace. E, também, todas as sexualidades conhecidas são sobre POR QUEM você sente atração. Assexualidade é mais sobre COM QUE FREQUÊNCIA você se sente atraído. Da mesma forma que ser trans não é uma sexualidade, ser ace também não, na minha visão.

Por isso que agora eu me identifico como gay e assexual. Eu me interesso POR homens, mas não com TANTA frequência como todo mundo. A minha relação com sexo é diferente. Sabendo que namoro com um menino, todo mundo vai me ler como gay. Se eu sofrer algum tipo de violência, vai ser por ser gay. Algum benefício? Por ser gay. Eu me identifico com todas as questões que tocam gays além do sexo. Quando é sobre sexo, aí minha assexualidade aflora. Pra mim, funciona bem.



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Posted on quarta-feira, maio 08, 2019 by Felipe Fagundes

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quinta-feira, maio 02, 2019

Acho que já podemos afirmar que peguei gosto por viajar e estou ficando craque. Já sei resolver tudo sozinho razoavelmente bem: hospedagem, passagens, estimar valores, contratar passeios e curtir. É a vida que eu quero viver, sabe. Tava até pensando em comprar uma mala espaçosa para as próximas viagens já que parece que é um hábito que veio para ficar. Já estou no aguardo das marcas me patrocinarem para eu poder viajar MAIS.

(Pra quem não sabe como funcionam os meus diários: São diários físicos que vou escrevendo durante as viagens, depois eu chego em casa, edito e posto no blog. Então aqui estamos.)

Dessa vez, Ilha Grande!



1) Se você mora no Rio de Janeiro, provavelmente conhece alguém que conhece alguém que já foi à Ilha Grande. Se não conhece, então esse alguém é você. Ou eu, que agora estou indo. SEM AVENTURAS DESSA VEZ. Passei o Carnaval todinho em casa namorando pra testar se era ok ficar em casa num feriadão, sem viajar, sem gastar dinheiro, apenas vivendo das atividades gratuitas. NUNCA MAIS. Gente, o tédio. Carnaval 2020 vocês já podem me convidar pra viagem. Daí que acabei economizando esse dinheiro que eu usaria pra viajar no Carnaval e meio que aleatoriamente escolhi Ilha Grande pra torrar tudo na Páscoa. É perto de casa, dentro do RJ, não precisa de muita antecedência pra agendar as coisas, praias bonitas, me pareceu ideal pra um rolê de 3 dias.

2) Eu nem acredito que estou sentado num ônibus rumo à Ilha Grande escrevendo esse diário com Arthur (meu mozely), Elisa (fiel escudeira), Taiany (a doida do Contato), Kelly (minha amiga modelo profissional, alô marcas) e Elizabeth (eleita a pessoa mais fofa do Rio de Janeiro por unanimidade). Primeiro, porque é mentira kkkkk Segundo, porque estamos em pé na vigésima condução que pegamos pra chegar NESSA DESGRAÇA DE ILHA QUE NUNCA CHEGA. Sério, gente. Trem, metrô, 2 ônibus, BARCA, pelo amor de Deus. Mas somos brasileiros e não vamos desistir, estamos indo.

3) Demorou umas 5 horas ou sei lá, mas o caminho não foi de todo ruim. Foi até muito agradável na primeira parte porque eu, Kelly e Arthur descobrimos que tem um ônibus chiquérrimo que sai de Campo Grande pra Itaguaí. Um ônibus de viagem! Com poltronas fofas, muitos lugares vazios, ar-condicionado, bagageiro... E só R$3,80!!! Mandamos até foto no grupo.

Eu tô particularmente muito lindo nesta foto, eu sei

Recebemos a foto das outras:


kkkkkkk otárias

4) Antes da viagem, Taiany estava teimando comigo que dava pra chegar em Ilha Grande de ônibus. Atenção para o mapa de Ilha Grande:


Então assim... Dá pra chegar em Ilha Grande de ônibus sim, se for um ônibus que voa ou anda sobre as águas. Não achamos nenhum desses e mesmo se achássemos não teríamos dinheiro pra pagar essa passagem. ILHA GRANDE É UMA ILHA, PELO AMOR DE DEUS. Uma terrinha com água ao redor. ILHA GRANDE. Está no nome. Precisávamos pegar uma barca pra chegar até lá e, depois de muitas baldeações, finalmente chegou nossa vez de embarcar pra ilha. Veio uma ONDA do nada pra cima do píer e molhou exclusivamente a Taiany, acho que era a natureza dizendo ACORDA, MULHER, NÃO TEM ÔNIBUS.

[Taiany vai aparecer aqui nos comentários se defendendo, mas esse blog é meu e vou apagar]

5) Não falei nada na hora porque tava com receio de Elizabeth ser essas pessoas que vomitam em barco, mas, gente, pegar o transfer pra Ilha Grande me lembrou muito MEU ÓCULOS NINGUÉM SAI e JULIANA DESMAIADA. "Transfer" significa barco motorizado que não passa segurança nenhuma e que quando acontece um acidente e muita gente morre afogada as pessoas falam MAS TAMBÉM NÉ. Não falei nada disso na hora pois sou sensato e não queria deixar ninguém nervoso. E também mais da metade do grupo usava óculos.


6) Chegamos em Ilha Grande! VIVOS! Nenhuma Juliana desmaiou. Assim como é uma ilha, Ilha Grande também é GRANDE, do tipo que não dá pra passear pela ilha a pé. Aliás, acho que só de barco porque o meio dela é só de selva ou sei lá. Então escolhemos nos hospedar na Vila do Abraão, que é onde o transfer deixa a gente e tem um milhão de opções de hospedagem, lojinhas, restaurantes e pessoas seminuas dentro de cada estabelecimento por causa da praia.



7) Antes de uma viagem dar certo, ela dá muito muito muito errado, então ficamos sem hospedagem faltando umas duas semanas pra viajar. Tivemos que escolher um hostel que por acaso estava fazendo uma promoção de Páscoa e comportava bem um grupo de 6. Realmente tava muito barato. Pelas fotos, não era o ideal, mas tava ok. Não tinha grandes luxos, mas teria que servir.

Foi o lugar mais doido em que já me hospedei em toda minha vida.

Na real, acho que era uma casa disfarçada. No portão, tinha um papel colado dizendo mais ou menos assim.

Parece confiável

O quarto era apertadinho, até que bonitinho e tinha um banheiro legal, mas também tinha uma porta misteriosa que eu imediatamente abri e dava pra outro quarto com pessoas???

- RAMON, O QUE É ISSO??? (Ramon era o funcionário do hostel)
- É o quarto da minha família
- Mas tem uma porta pra ele do nosso quarto????
- Só abre do lado de vocês.

Gente, certeza que no meio da noite ALGUÉM ia entrar por aquela porta e roubar nossos pertences e talvez nossos rins. Mas não tive tempo de reclamar disso porque Ramon logo disse:

- Vamos ali na cozinha pra vocês assinarem uns documentos e eu explicar pra vocês algumas... regras doidas.

AH PRONTO, eu pensei.

- Ramon, já diga as regras doidas que dependendo do que for a gente já mete o pé sem assinar nada

*** ReGRAs dOiDas dO HostEL de raMon ***

Regra número 1: NÃO PODE FUMAR MACONHA

- Mas vocês não são disso rsrsr
- Como você sabe?
- Ah, dá pra ver pela cara de vocês kkkk
- VOCÊ NÃO CONHECE A GENTE

Taiany era a única maconheira do grupo, mas, tipo, fumou 1 vez e quase morreu ou sei lá, mas Kelly ficou OFENDIDA porque ele tava dizendo na nossa cara que éramos NERDS.

Regra número 2: NÃO PODE TRAZER ESTRANHOS PARA O HOSTEL NO MEIO DA NOITE

Elisa chegou na cozinha depois e me perguntou as regras.

- Proibido maconheiros e transar.

Também teve a regra número 3 de só poder ligar o ar-condicionado em determinados horários, o controle ficava CONFISCADO com Ramon. Resumindo: pagamos para ficar num cativeiro.

8) Eu suspeito que ninguém ficou muito feliz com o hostel, mas também só ficamos nele pois pessoas pobres demais, era o que tinha. Estávamos mortos de fome, então fomos passear pela Vila do Abrãao para achar um restaurante em conta. Achei a vila uma gracinha. Dá uma sensação de estar longe da civilização, mas também não é tão RÚSTICA ao ponto das casas serem feitas de palha e as pessoas trocarem mercadorias por espelhos e pentes. Todo mundo tem celular e aceitam débito e crédito. Muitos restaurantes, hamburguerias, lojas de lembrancinhas e um milhão de agências oferecendo passeios de barco pra todos os cantos da ilha. É um inferno pra decidir porque Ilha Grande tem mil praias que parecem a mesma.


9) Escolhemos um restaurante qualquer e adivinha quem era o atendente? RAMON. ORA, ORA, estávamos sendo perseguidos. Na hora rimos muito, mas depois notamos que Ramon nunca estava presente no hostel porque estava no restaurante ou sei lá mais onde. Começamos a desconfiar de que todos os estabelecimentos da Ilha eram operados por Ramon.

10) O almoço ia demorar uns 40 minutos pra sair, então Taiany resolveu acabar com a minha paz trazendo o Contato de volta. Meu Deus, que inferno. É uma praga. 

[Não contei pra vocês porque fiquei com preguiça, mas na viagem de Penedo Taiany veio com esse jogo. Contato. É um jogo completamente verbal, não precisa de tabuleiro, de cartas, de papel, de lápis, NADA, apenas umas 4 pessoas com QI razoável e boa vontade pra entender. Confesso que é ideal pra viagens. Dá pra jogar no carro, no ônibus, numa hora de tédio qualquer e infelizmente esperando o almoço]

Já joguei algumas vezes e honestamente sou muito bom nele, MAS A TAIANY NÃO SABE A HORA DE PARAR. ELA QUER JOGAR TODA HORA. E o pior é que o jogo é contagiante. Sou o único imune. Meu namorado aprendeu e espalhou a palavra por aí. Jonas e Elisa jogaram. Kelly e Elizabeth foram contaminadas em Ilha Grande e agora eu tenho certeza que em toda viagem que eu fizer serei obrigado a presenciar várias rodadas de Contato. Comente aqui nos comentários se vocês acham que devo parar de chamar Taiany para as viagens.


11) O começo do Contato é muito engraçado porque as regras são meio complicadas de entender e no começo todo mundo se sente burro. Não vou explicar aqui para não contaminar vocês também, vai que um dia vocês que estão lendo esse diário viajam comigo (Se bem que da última vez que viajei com leitor do blog, este leitor era a Taiany e agora olha onde estamos). Mas enquanto a Taiany tentava explicar e a galera boiava, eu só ficava falando mal kkkkkkkk

[Taiany, eu te amo e você é uma das minhas melhores amigas, jamais se esqueça disso, principalmente ao longo deste diário pois tenho um prazer imenso em zoar você]

12) Chegamos na sexta, né? Como já era tarde para estrepolias, fomos caçar uma agência para conseguir um passeio para o sábado. Esqueci de comentar que há muitos estrangeiros não só visitando Ilha Grande como residindo e trabalhando lá, principalmente pessoas que falam espanhol. Entramos nessa agência que tinha uma moça MUITO FOFA e simpática trabalhando lá. Ela abriu a boca e imediatamente quisemos jogar todo nosso dinheiro em cima dela. Foi o que fizemos. Dei uma pesquisada nas praias mais badaladas e naqueles lugares que as pessoas falam que a gente PRECISA VER quando pisa em Ilha Grande. Tinha um passeio dando o que eles chamam de "Meia-Volta" na Ilha (que na verdade é uma volta completa, eu não sei qual é a dessas pessoas) e nele que fomos. Lola, a moça da loja, explicou tudo. "O barco sai daqui às 10h e aí é só TDHLKADHIUW OWAYDIuhfwepr aODSUYDWEOgwfenf 8qwyoiwrAGWIR FEUWHOSJDKFAJOER, está bom pra vocês?". Era um portunhol na velocidade 5 do créu e ninguém entendeu nada do roteiro, sinceramente, mas aceitamos porque em Lola confiamos. Suspeito que Lola estava ali vendendo passeios justamente por essa habilidade sobrenatural de fazer as pessoas quererem ser amigas dela, pois é assim que o capitalismo funciona. Eu pagaria pra ser amigo da Lola.

Vou parar por aqui porque, MEU DEUS, acho que esse é o diário de viagem mais longo que já escrevi. Muita coisa aconteceu e já deixo aqui o spoiler de que nas próximas partes terá polícia no hostel e eu tentando mijar nas águas lindíssimas de Ilha Grande.



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Posted on quinta-feira, maio 02, 2019 by Felipe Fagundes

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