Minha família por parte de mãe veio toda de um lugar que, quando criança, eu só conhecia como "Roça". Não tinha ideia do estado, município, bairro, nada. A Roça era só um lugar genérico meio parado no tempo, onde asfalto, internet e água pra dar descarga na privada chegavam lá por último. Se você conversar com a minha mãe por uma horinha, ela vai te contar uma dúzia de histórias envolvendo espingardas e animais de fazenda. É fascinante.

Eu odiava ir pra lá visitar meus parentes, pois sempre fui mocinho da cidade, mas aí você se pergunta: Nossa, Felipe, não aguenta ficar uma semana sem internet? Gente, que internet o quê. Eu só não era muito feliz passando pela experiência de CAGAR NO MEIO DO MATO. Isso e porque eu ficava muito confuso com as pessoas chamando minha mãe de Ilza.


Minha mãe é Elza igual a Frozen, mas com Z. Tipo, sempre foi. Só lá na Roça que ela não era. Viajar pra lá era tipo entrar numa realidade paralela onde as pessoas ganhavam um novo nome e limpavam a bunda com sabugo de milho. Todo mundo só chamava ela de Ilza. As tias, minha vó, meus primos. Meu tio Edson virava Édio, minha tia Ana Gilda virava Nagilda, mas meu nome seguia o mesmo. Pessoal de lá tem um sotaque meio caipira? Tem, mas não era isso. Até minha mãe começava a chamar as pessoas pelos nomes de Roça! E minha mãe sempre morou no Rio de Janeiro.

- Mãe, por que todo mundo te chama de Ilza aqui?
- É meu nome

Não era??? Eu já tinha visto a identidade da minha mãe várias vezes e sabia que lá estava escrito Elza. Ela inclusive fora da Roça atendia como Elza. Ilza era um delírio coletivo.

- Eles um dia te chamaram pelo nome errado e você deixou pra sempre?
- Meu nome é Ilza, Elza é o errado
- O QUE???

Eu talvez fizesse parte de uma família de espiões secretos com múltiplas identidades, mas a explicação que minha mãe me deu depois serviu melhor. Gente, a explicação: O pessoal do cartório usava drogas. Minha mãe não disse isso, mas eu deduzi e sei que essa é a verdade. A revelação é que minha mãe É UMA ILZA. Meu avô foi lá registrar minha mãe bebêzinha no cartório e registrou como Ilza. Minha vó que escolheu o nome. Beleza. Os documentos só ficavam prontos um bom tempo depois, e aí quando chegou a certidão... minha mãe era uma ELZA. Mas aí todo mundo já chamava de Ilza, eles tinham escolhido Ilza, e ficou por isso mesmo. O mesmo com Édio e Nagilda.

(Eu sei, vocês devem estar se perguntando QUEM registra filhos com nomes de ÉDIO e NAGILDA. Resposta: Meus avós)

O pessoal do cartório simplesmente mudava os nomes e registrava do jeito que achavam melhor e fizesse mais sentido pra eles. Quando minha mãe, já adulta, saiu da Roça e veio para o Rio, foi um inferno ter que explicar que o nome dela era Ilza, mas nos documentos era Elza, então ela simplesmente adotou os dois. Aqui ela é Elza, na Roça ela é Ilza. Os outros irmãos fizeram o mesmo.

E isso é a cagada só dos nomes... Se eu contar que meu avô inventou um monte de sobrenome que nem existia na família e o cartório nem checou, vocês acreditam? Pois cada filho dele tem um sobrenome diferente que nem ele nem minha avó tem Hahahahahah Na mesma família somos Alves, Cruz, Francisco, Santos...

Eu morro com a Roça.

Mas, caramba, que oportunidade perdida. Se eu fosse meu avô, hoje meu nome seria Felipe Lambertini, Felipe Müller com a trema mesmo, talvez Felipe Hickmann...



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