Tem essa parte no "Jane Eyre" em que a protagonista precisa decidir se quer ser feliz com o homem que ela ama e ferir seus princípios ou manter os princípios e ficar sozinha. Não posso dizer por todos, mas direi por todos e digo que TODOS os leitores ficam "JANE, PRA QUÊ PRINCÍPIOS? JOGUE TUDO FORA", mas Jane é teimosa pra caramba. Pra ela existe um grande obstáculo moral em ficar com o homem, obstáculo este que divide opiniões se é mesmo um obstáculo, porque é mais... bom, coisa de igreja. A Jane mega acredita, fiel fervorosa. Pra ela, é um grande pecado. Jane mete o pé.


"Que não sintais jamais o que senti! Que os vossos olhos jamais vertam lágrimas escaldantes, aflitas (...) Que não apeleis jamais para Deus em preces tão sem esperança e tão agoniadas como as que nessa hora saíam dos meus lábios. Que jamais, como eu, receeis ter sido instrumento do demônio contra aquilo que mais profundamente amais!"

Eu fiquei devastado. Não tanto porque o romance ficou muitíssimo prejudicado nessas circunstâncias, mas porque eu faria o mesmo. Eu seria a Jane todinha. Esse apego aos meus princípios é algo que não consigo largar. É curioso isso, né? Principalmente quando ligado à religião, pode ter esses nossos princípios que de fato não afetam em nada a vida ao redor, mas somos apegados a eles, acreditamos neles e, mesmo que ninguém mais dê bola, não largamos o osso. Coisas, tipo, sei lá, desvirar o chinelo pra mãe não morrer. Ou colocar o arroz em cima ou em baixo do feijão O certo é em cima. A Jane tinha esse aí. Pior ainda, era princípio religioso, então ela se sentia traindo O PRÓPRIO DEUS, que é uma coisa que ninguém que acredita em Deus quer. Acho que meu princípio religioso era não ser gay.

Gente, sério, essa citação do livro é praticamente uma visão da realidade paralela que eu poderia ter vivido se tivesse insistido na igreja por mais tempo e aí conhecido o Arthur, minha atual pessoa que mais me faz feliz. Eu tenho certeza que eu deixaria de viver o que vivo com ele hoje por causa desse meu princípio e isso é assustador. Acho que foi isso que eu senti lendo essa parte de "Jane Eyre". Eu ia jogar TUDO PRO ALTO por causa de uma decisão que no meu coração era moral. Que morte horrível. Acho que todo gay cristão temeu em algum momento estar sendo "instrumento do demônio".


De alguma forma, escapei. Mas muita gente não escapa e agora tô pensando no tanto de pessoas LGBT que abrem mão dessa essência pra seguir o que acreditam serem os planos de Deus. Não posso culpar essas pessoas. É tudo o que a gente SABE e VIVE e não adianta outras pessoas falarem que não tem nada a ver e tal, a gente acredita no que a gente acredita.

Acho que eu fui desconstruindo meu pensamento com o tempo e ainda bem que só fui conhecer Arthur depois. Eu não tinha escolhido esperar nada, mas foi bom ter passado meus primeiros 26 anos sem ter me envolvido com ninguém. Me deu tempo. Hoje, que eu sinto do fundo do meu coração que tô cultivando esse sentimento TÃO PURO E PERFEITO que não consigo imaginar o que ALGUÉM que sentisse O MESMO poderia criticar, eu simplesmente não tenho como dizer que não ser gay ainda é um princípio meu. Ser gay, na verdade, é muito bom. EU RECOMENDO A TODOS. Queria que todo mundo fosse gay o suficiente pra ser feliz que nem eu ando sendo.

De qualquer forma, fiquei orgulhoso pela Jane. Existe um equilíbrio entre manter nossa essência e ir se livrando do que não faz mais sentido. Tem coisa que eu tenho que ser teimoso mesmo, coisas que, se eu transgredir, vou me sentir mal pelo resto da vida. Mas tem outras que eu só preciso entender que não funciona. Posso aprender princípios novos com outros, posso ensinar, posso deixar pra trás... Cada um sabe de si.



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