Parece que só agora estou tendo que aprender a namorar. Chega a ser engraçado dizer isso, porque a impressão que há é que é aquele tipo de coisa que todo mundo sabe ou, se não sabe, aprende naturalmente. Deixa acontecer na-tu-ral-men-te. É um conselho que talvez eu nunca tenha seguido na vida.


Fui um adolescente que não pensava em relacionamentos. Assim, é meio impossível não ser afetado pela nossa sociedade, que o tempo todo joga casais e casamentos na nossa cara, é fácil se sentir sozinho e rejeitado e talvez vez ou outra eu tenha me sentido assim. Porém, era raro. Não que eu desprezasse romances, mas eu simplesmente me interessava mais por outras coisas e lá no fundo eu sentia que comigo era diferente.

Só fui conhecer a assexualidade um pouco mais tarde e aí fiquei Ah, agora tudo faz sentido. Eu já tinha percebido observando os relacionamentos dos amigos que se relacionar com outras pessoas não é tão fácil e legal como pregam. Às vezes, é melhor ficar sozinho, gente. Eu não entendia por que as pessoas beijavam na boca e nem como elas tinham coragem de tirar a roupa e se enfiar uma dentro da outra. Eram coisas tão íntimas. Eu me achava incapaz. Aí abri mão.

Meu pensamento era bem simples: Eu estou de boas sozinho + não sinto muita vontade de me relacionar com ninguém + todo mundo gosta de coisas que acho intrigantes + Deus me livre ter que fazer o que todo mundo faz. Aí deixei essa parte da minha vida pra lá. Isso já faz tanto tempo que a sensação é de que sempre foi assim. Eu não conseguia nem visualizar eu namorando alguém. Planos de casamento? Nunca fiz. Sonhar com família, morar junto, ter bebês? Nunca cogitei.

Lembro de ter ido ao Google várias vezes pesquisar Pessoas que não se casam, como fazem na velhice?, Pessoas solteiras 60+ são felizes?, Estilos de vida na terceira idade sem casamento envolvido. Achei algumas histórias e depoimentos que me deixaram mais em paz. Realmente não é obrigatório se envolver com pessoas e é possível ser feliz sem um interesse romântico. Então tava bom. Resolvi focar no meu trabalho, nos meus amigos, um pouco na minha família, nos meus mil projetos pessoais...

Enquanto as pessoas estavam aprendendo como beijar na boca, como se comportar durante um namoro, como lidar com mais de um contatinho entre outras coisas, eu estava matando essas aulas todas. Não estava prestando atenção. Como eu achava que pra mim não ia rolar mesmo, não fazia sentido perder meu tempo com algo que eu nunca ia viver.

Mas aí rolou.


Não sei direito como namorar, gente. Nunca me identifiquei com aquela música dos Tribalistas, até porque antes nem beijar de língua eu sabia também. Não tem como deixar acontecer na-tu-ral-men-te porque não tem nada de natural. Cada dia mais eu percebo que o molde de relacionamento que a gente tem é uma construção social, porque eu não consigo ainda absorver por osmose. Existem regras que as pessoas não me contaram. Eu fico o tempo todo perguntando para os amigos "Num namoro, pode isso? E aquilo? Se acontecer X, eu posso fazer Y? É obrigatório fazer A? E B? Dá pra ter A, B e C ao mesmo tempo?". E olha que eu nem estou falando de sexo (mesmo também tendo muitas questões).

Sinto que não tenho muito espaço para um namorado porque preenchi cada pedacinho da minha vida com outras coisas. Como assim abrir todo um espaço livre na minha agenda para atender uma pessoa? E meus amigos? E minha família? E os livros todos que quero ler? Quem vai colocar minhas séries em dia? E as ciladas do bem que adoro criar? Quem vai escrever meus livros? Vocês sabiam que manter um blog ativo consome tempo pra caramba? Essa é uma questão.

A outra é que, gente, eu quero namorar? Geralmente gente que já namorou muito ou sonhou demais com comédias românticas tem um resposta pronta, mas eu não sei... Será que funciona comigo? Já vi tanto namoro dando super errado... Fico sempre pensando no fator exclusividade, no tempo que a gente precisa ceder, nas diferenças básicas da vida de solteiro pra vida de alguém que namora... Além disso, eu sinto que tô formando minha identidade sexual agora (2018). Antes eu não queria ninguém, agora eu sei que TODOS OS GAYS DO MUNDO são uma possibilidade. Na verdade, TODOS OS RAPAZES QUE GOSTAM DE RAPAZES. É muita gente, são muitas opções. O tanto de realidade de vida disponível. Como escolher só um?

Tava conversando com o menino que eu gosto que eu talvez queira ser que nem a Glória Maria, que tem um namorado em cada país. Ela diz que é fiel a eles, mas só quando está viajando pelos respectivos países. Ela não casa, não mora junto, mas tá aí namorando horrores. O menino que eu gosto prontamente respondeu ENTÃO EU SOU O DO BRASIL. Risos.

Eu tenho vários amigos, por exemplo, e gosto de todos. Eles não ficam o tempo todo comigo e nem ocupam o mesmo espaço na minha vida. Alguns são mais próximos, outros aparecem com menos frequência. Além disso, nem todo amigo eu vou, sei lá, chamar pra fazer uma trilha. Tem amigo que é de trilha, mas tem outros que são de ir ao cinema, de ficar conversando muito, de passeios de aventura, de contar segredos, de desabafar, de pedir conselho, de viajar... Não faço tudo com todos e alguns são melhores do que outros nessa ou naquela atividade. Não é um problema. Todos continuam sendo meus amigos e amo todos. Será que dá pra namorar assim?

É como se o modelo de namoro mais pregado por aí não encaixasse muito com minha rotina. Acho que pessoas em geral não refletem muito sobre isso, pois com 14 anos ou até menos já estão namorando e comprando esse esquema pra si, mas eu tive muuuuuuuito tempo pra pensar. Estou até dando uma olhada em coisas como relacionamento aberto, poliamor, mas até esses formatos que parecem mais moderninhos não me deram ainda a certeza de que são o que estou procurando pra mim.

Eu sei que gosto das pessoas que eu gosto. Gosto de carinho, de atenção, de companheirismo. Descobri que também gosto de beijar na boca e otras cositas más. Amo gente que se interessa pelas minhas coisas. Amo ser amado e poder amar de volta.

Preciso pra ontem aprender a namorar de um jeito que funcione.



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