Estava lembrando de um texto que li ano passado em que pessoas de uma redação de revista refletiam sobre o fato de que só tinha gente branca trabalhando com eles. E todo mundo era do eixo Rio-SP. Era um texto sobre representatividade e tal, e eles queriam fazer um esforço real para mudar esse quadro. A motivação deles não era só preencher cota e satisfazer, sei lá, a galera da internet. Eles, como jornalistas, estavam se perguntando o que estavam perdendo deixando de abraçar outras realidades de vida, outras perspectivas. A gente, principalmente homens e brancos, tende a pensar que a nossa realidade é a realidade padrão. Que todo mundo vive o mesmo, que nossa vivência é universal. Por isso que há uma resistência em acreditar nas falas sobre racismo, acreditar nos discursos feministas entre outras pautas. A gente não vive, daí os problemas dos outros parecem surreais e inventados. Isso tudo só pra dizer que tem muita coisa que eu não sei.

É spoiler pra quem não leu NS1 (meu livro), mas tem umas cenas lá no final em que a Melodee e o Arthur terminam o namoro e ela vai embora para o Canadá. Daí ele vai atrás dela para tentar reconquista-la. Na minha cabeça, isso era uma prova de amor incontestável: um homem indo atrás de sua amada, atravessando terras e céus em nome da paixão e outras cafonices. Óbvio que com ele chegando lá, ela fica balançada, surpresa, grata e feliz. Que homem fofo! Ele a ama mesmo! Daí eles reatam e fim.

Eu devo ter escrito isso em 2014, 2015... Jurava que estava abafando nas cenas românticas.

Quando postei no Wattpad, consegui alcançar muuuuuitas adolescentes e mulheres adultas. Essa e outras atitudes do Arthur geraram debates e comecei a reparar em vários comentários de meninas dizendo ter ranço do Arthur, que ele era abusivo, que a Melodee merecia coisa melhor... A princípio, fiquei meio COMO ASSIM? ELE É UM AMORZINHO! Mas depois eu continuei lendo e percebi.



Gente, vocês já viram o tanto de notícia de homem que, após o término do namoro/casamento, vai atrás da ex e tira a vida dela com crueldade? Mete bala, facadas, dizima uma família inteira, atropela... É assustador. Eu nunca tinha reparado nesse padrão. Seu ex ir atrás de você assim do nada é invasivo, é de deixar com um pé atrás. Acredito que essas vítimas também não esperavam serem assassinadas pelos homens que um dia elas amaram.

Uma amiga minha viveu uma coisa parecida. Namorava à distância um menino de outro estado, as coisas não estavam indo muito bem, ela resolveu terminar. Ele ficou chateado, mas, beleza, vida que segue, término não é fácil mesmo. Até que um dia do nada o lindo diz que está A CAMINHO DA CASA DELA pois PRECISAMOS CONVERSAR.· Fiquei imediatamente preocupado com a integridade física dela assim que ela me contou. Não foi à toa que os amigos todos se juntaram e fomos juntos marcar um encontro dela com ele. Não que isso fosse salvar a vida dela de um cara realmente decidido (ainda ia matar a gente), mas pelo menos desencorajaria um fulano inseguro.

Ele achou ruim.

Achou que era um absurdo ela pensar algo assim dele, disse que ele jamais seria capaz de machucar ela e que só queria conversar. Assim, eu também ficaria meio chateado se alguém pensasse isso de mim, mas eu que não arriscaria minha própria vida pelo ego ferido de outra pessoa. Cheguei a refletir se era paranoia da nossa parte, mas, caramba, acontece tanto.

É uma coisa que eu, como homem, jamais temeria caso uma ex fosse atrás de mim. Mesmo um ex homem não me deixaria alerta, porque quem traz a desgraça geralmente é o homem hétero que acha que a mulher não pode ser feliz sem ele.

No livro, eu meio que validei esse comportamento. Como se a menina fosse até obrigada a aceitar o ex só porque ele foi atrás dela. Imagina dizer não para um cara agressivo que atravessou um continente pra te ver. Corrigi isso depois, de certa forma. No conto "Os Quatro e o Fusca" rola uma pequena reflexão sobre o assunto. Sei que não farei mais nas minhas próximas histórias.

Mas quantas coisas eu ainda não sei? Quantas ideias equivocadas eu repasso por falta de conhecimento? Sei que só posso aprender mais conhecendo pessoas diferentes de mim. De outras idades, outros lugares, outra classe social, de outras religiões... Não quero perder nada.



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