Eu amo discursos de empoderamento, sejam eles quais forem. Gosto da boa vibe, gosto da mágica de fazer alguém que antes se sentia um lixo se sentir querido, adoro isso de cultivar amor-próprio e todos os desdobramentos que isso traz. Caramba, a gente precisa. Deus abençoe quem se tocou que empoderar pessoas era mais sadio que fazer chacota delas. A única coisa que eu esbarro nesses discursos é o fato de, no fim das contas, sempre apontarem para o fato de que a pessoa tem que se sentir linda. Óbvio que empoderamento trata de mil outras coisas, mas beleza parece ser fundamental. 

Uma mulher empoderada é uma mulher que se sente bonita. Uma pessoa gorda e empoderada se acha linda. Eu compreendo que a sociedade é horrível em dizer todo dia que só tem beleza quem é do jeito X e daí há uma leva gigantesca de pessoas que fica de fora. Uma vida inteira se sentindo feio e sem valor. Eu entendo. Então vem o empoderamento pra levantar essa autoestima e dizer que, ei, deixa esse povo pra lá, você é bonito, sim! Você é lindo do jeito que você é!

Eu só quero ser feio em paz, gente.


Confesso que não sei bem por que tratamos beleza como algo essencial. Tipo, parece que o amor-próprio é automaticamente relacionado a isso. Se você se ama, você tem que se achar lindo. Eu já acho que tudo bem ser feio. Eu acho que ser e estar bonito cansa, ainda mais pra quem não faz parte do grupinho aí privilegiado. Compreendo que para algumas pessoas seja importante ser bonito, mas para todas?

É engraçado que, com outras características que eu também considero importantes, a roda não gira assim. Por exemplo, ser engraçado. Tem gente que não é. E tá tudo bem. Nunca vi ninguém dizer que não é engraçado e surgir uma pessoa do bueiro pra falar "PARA COM ISSO, VOCÊ É ENGRAÇADO, SIM! APRENDA A SE AMAR". Muita gente diz que é péssima em matemática e também fica tudo bem. Eu sou um pouco desastrado, não ajo bem sob pressão e não sou a pessoa mais eloquente do mundo, mas não me sinto um lixo por causa disso. Tá tudo bem não ser perfeito. Mas aí vem o ser feio.

Não pode ser feio.

É muito mais prático viver num mundo em que é ok ser feio do que em um em que TODO MUNDO tem que ser bonito. O natural geralmente é considerado feio. Se a pessoa não fizer nenhuma firula estética básica, é feia. Pra se sentirem bonitas, as pessoas usam maquiagem, fazem algum penteado diferente, colocam aquela ou essa roupa, essas coisinhas. Até em programas tipo Queer Eye, em que pegam uma pessoa super comum e até fora do padrão e fazem uma transformação básica para a pessoa se enxergar como bonita, há essas alterações mínimas para obter o efeito desejado. Aí eu fico pensando que, quando o programa acaba, a pessoa ainda tem que ficar pelo resto da vida executando aqueles procedimentos para manter a beleza recém-alcançada. Cansa.

Não me acho grandes coisas no quesito beleza e admito que há dias em que quero me sentir bonito. Mas também há os dias em que fico de boas com ser/estar feio. Tipo, ok, eu sou feio, mas também sou engraçado, inteligente, criativo e boa companhia. Não conta? Já expliquei minha teoria do potencial de beleza e, por causa disso, nossa, beleza é algo tão subjetivo! Acho muito complexo querer agradar a todos, ainda que esse todos seja nós mesmos (que na verdade somos influenciados por esse todos).

Realmente entendo que os discursos de empoderamento batem nas teclas que precisam ser batidas. Alguém ouviu que é feio a vida toda e está precisando se achar bonito. Pessoas do tipo Y também podem ser lindas. É uma causa nobre. Apesar da diferença ser um tanto sutil, acho que a pessoa ficar o dia todo lutando contra discursos contrários e tentando se afirmar como bonita é mais penoso do que trabalhar a ideia de que tudo bem ser feio. Porque está tudo bem, ninguém tem nada com isso.


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