Tem uma parte no A Arte de Pedir que a Amanda Palmer comenta que, em alguns casos, principalmente quando se é artista, não existe validação no mundo para o que você faz. Tipo, se você é advogado, médico, professor de matemática, etc, existe o diploma que você ganha no final da faculdade. Às vezes a profissão escrita na sua carteira de trabalho já vale. Você sabe que seu trabalho existe. Mas artistas e similares ficam sempre na dúvida se estão trabalhando de verdade ou só sendo ridículos, daí a Amanda diz que temos que criar nossa própria varinha mágica da legitimidade e bater com ela na nossa própria cabeça.

Posso dizer que funciona.


Fiquei uma semana trabalhando o conceito do Saia da Rotina, porque eu queria uma alternativa de renda e experiência de trabalho ao que eu já tinha na vida. Depois de tanto juntar meus amigos e conhecidos para passear e viver coisas doidas e de tanto ouvir que eu era bom nisso, eu acreditei. Sou desses que acredita nos elogios que ouve sei lá o quê em Leão. Aí, bom, por que não juntar o útil ao agradável, né? Bolei a ideia, fiz site, criei página, escolhi o pacote que eu achava mais fácil de divulgar e fui. Fui quase como um hobbie, coloquei um valor bem baixo (10 reais!!!) porque eu não estava pensando em ganhar dinheiro, só ver se o conceito funcionava. Se flopasse, eu apagaria tudo e ninguém teria morrido, só minha autoestima.

Procurei clientes nas redes sociais, as pessoas começaram a responder, tive ajuda na divulgação do Pacote do Clube do Livro, de repente eu tinha mais gente do que conseguia lidar, criei uma fila de espera, criei dois clubes do livro e, gente, socorro, a coisa estava viva. Acho que a primeira pessoa com mais de mil seguidores que divulgou meus clubes no Twitter me matou de vergonha, eu quase gritei, porque eles estavam falando "OLHA, GENTE, ESSE FELIPE AQUI TEM UM PROJETO LEGAL" e eu "MEU DEUS, PARA DE ME EXPOR, AS PESSOAS VÃO FICAR SABENDO O QUE ANDO FAZENDO", mas, depois de meia hora de surto, eu fiquei "Pera, é isso mesmo que eu quero. Eu tenho uma ideia, eu tenho um serviço. Respira, meu anjo. São só mil pessoas. Eita, dez mil agora que outra pessoa ainda mais famosa deu RT também".

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Você mora na cidade do Rio de Janeiro e está disposto a conhecer novas pessoas, talvez fazer novas amizades, e viver experiências fora da sua rotina? Então é você que eu estou procurando. O conceito é simples: Você escolhe uma dentre as mais de dez experiências disponíveis, paga por esse pacote, eu reúno um grupo de 6 a 10 pessoas interessadas na mesma coisa que você e VAMOS. Antes da experiência em si, eu dou oportunidade das pessoas interagirem em um grupo do whatsapp, aprendo mais sobre a vida delas, escuto o que elas têm a  dizer, quem elas são, do que gostam, do que não gostam, divulgo passeios gratuitos e acessíveis, marco alguns encontros informais pelo RJ e é isso aí. No dia da experiência, seja um clube do livro, seja andar de kart ou uma escalada indoor, ninguém se trata mais como desconhecido.

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MEU DEUS, GENTE, O CLUBE DO LIVRO DEU TÃO CERTO! EU MORRI E ESTOU NO CÉU???

Simplesmente superou todas as minhas expectativas. Claro que eu sou suspeito pra falar, mas o feedback que recebi me deu segurança e acho que acertei o alvo. Lembram que anunciei o Clube do Livro aqui? Então, aconteceu. O Quinze Dias (livro do Vitor Martins) brilhou entre as opções e disparou como favorito, por isso foquei nele. 

Depois de uns dois meses de interação virtual, eu já sentia que eu era amigo de todo mundo e cheguei lá ansioso pra ver de perto o rosto de cada um e ouvir as vozes. Como fui o mediador, preparei uma lista com os tópicos a serem debatidos para guiar a conversa, mas tudo fluiu muito naturalmente. Fizemos um piquenique no Bosque da Barra (lugar que eu nem conhecia) e, gente, tantas risadas! Que conversas! Falamos sobre gordofobia, sobre como é se entender gay, falamos sobre transtornos psicológicos, dilemas da amizade, questões de relacionamentos, signos (kkkkk), bullying, ditadura da beleza e outras coisas que eu nem tinha planejado. Adorei ouvir os depoimentos de todo mundo, os causos, cada um teve alguma coisa a acrescentar e o grupo se deu tão bem! Eu não poderia sair de lá mais feliz. Quero mais.





Galera ficou me agradecendo, mas, anjos, eu que agradeço. Vocês não sabem como fizeram um millennial 200% feliz. Saí do piquenique me sentindo magicamente legitimado demais.

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Bom, depois desse imenso sinal verde, óbvio que o Saia da Rotina vai dar mais alguns passinhos. Já há um segundo clube do livro em andamento, a fila de espera me dá vontade de criar um terceiro... Mas também quero experimentar atividades novas. Pretendo ir abrindo os pacotes aos pouquinhos, vendo o que funciona e o que não funciona tanto, já estou quase no pontapé inicial do pacote de Kart e o de Patinação no Gelo.

Quem tiver interesse me chama! Vai ser um prazer encontrar mais uma pessoa pra fazer da comunidade de gente legal que quero criar.

Vamos acompanhar! Aguardem e confiem :)

(Antes de escrever esse texto, eu estava pensando se não deveria divulgar o Saia da Rotina de uma forma mais profissional e menos pessoal. Será que assusto uma pessoa que for no Google e cair aqui? Mas, bom, vulnerabilidade é outra lição de Amanda Palmer. Não sou uma empresa, sou uma pessoa. Interagir comigo é outra parte dos pacotes. Juro que sou legal)



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