terça-feira, junho 26, 2018

Tem uma parte no A Arte de Pedir que a Amanda Palmer comenta que, em alguns casos, principalmente quando se é artista, não existe validação no mundo para o que você faz. Tipo, se você é advogado, médico, professor de matemática, etc, existe o diploma que você ganha no final da faculdade. Às vezes a profissão escrita na sua carteira de trabalho já vale. Você sabe que seu trabalho existe. Mas artistas e similares ficam sempre na dúvida se estão trabalhando de verdade ou só sendo ridículos, daí a Amanda diz que temos que criar nossa própria varinha mágica da legitimidade e bater com ela na nossa própria cabeça.

Posso dizer que funciona.


Fiquei uma semana trabalhando o conceito do Saia da Rotina, porque eu queria uma alternativa de renda e experiência de trabalho ao que eu já tinha na vida. Depois de tanto juntar meus amigos e conhecidos para passear e viver coisas doidas e de tanto ouvir que eu era bom nisso, eu acreditei. Sou desses que acredita nos elogios que ouve sei lá o quê em Leão. Aí, bom, por que não juntar o útil ao agradável, né? Bolei a ideia, fiz site, criei página, escolhi o pacote que eu achava mais fácil de divulgar e fui. Fui quase como um hobbie, coloquei um valor bem baixo (10 reais!!!) porque eu não estava pensando em ganhar dinheiro, só ver se o conceito funcionava. Se flopasse, eu apagaria tudo e ninguém teria morrido, só minha autoestima.

Procurei clientes nas redes sociais, as pessoas começaram a responder, tive ajuda na divulgação do Pacote do Clube do Livro, de repente eu tinha mais gente do que conseguia lidar, criei uma fila de espera, criei dois clubes do livro e, gente, socorro, a coisa estava viva. Acho que a primeira pessoa com mais de mil seguidores que divulgou meus clubes no Twitter me matou de vergonha, eu quase gritei, porque eles estavam falando "OLHA, GENTE, ESSE FELIPE AQUI TEM UM PROJETO LEGAL" e eu "MEU DEUS, PARA DE ME EXPOR, AS PESSOAS VÃO FICAR SABENDO O QUE ANDO FAZENDO", mas, depois de meia hora de surto, eu fiquei "Pera, é isso mesmo que eu quero. Eu tenho uma ideia, eu tenho um serviço. Respira, meu anjo. São só mil pessoas. Eita, dez mil agora que outra pessoa ainda mais famosa deu RT também".

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Você mora na cidade do Rio de Janeiro e está disposto a conhecer novas pessoas, talvez fazer novas amizades, e viver experiências fora da sua rotina? Então é você que eu estou procurando. O conceito é simples: Você escolhe uma dentre as mais de dez experiências disponíveis, paga por esse pacote, eu reúno um grupo de 6 a 10 pessoas interessadas na mesma coisa que você e VAMOS. Antes da experiência em si, eu dou oportunidade das pessoas interagirem em um grupo do whatsapp, aprendo mais sobre a vida delas, escuto o que elas têm a  dizer, quem elas são, do que gostam, do que não gostam, divulgo passeios gratuitos e acessíveis, marco alguns encontros informais pelo RJ e é isso aí. No dia da experiência, seja um clube do livro, seja andar de kart ou uma escalada indoor, ninguém se trata mais como desconhecido.

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MEU DEUS, GENTE, O CLUBE DO LIVRO DEU TÃO CERTO! EU MORRI E ESTOU NO CÉU???

Simplesmente superou todas as minhas expectativas. Claro que eu sou suspeito pra falar, mas o feedback que recebi me deu segurança e acho que acertei o alvo. Lembram que anunciei o Clube do Livro aqui? Então, aconteceu. O Quinze Dias (livro do Vitor Martins) brilhou entre as opções e disparou como favorito, por isso foquei nele. 

Depois de uns dois meses de interação virtual, eu já sentia que eu era amigo de todo mundo e cheguei lá ansioso pra ver de perto o rosto de cada um e ouvir as vozes. Como fui o mediador, preparei uma lista com os tópicos a serem debatidos para guiar a conversa, mas tudo fluiu muito naturalmente. Fizemos um piquenique no Bosque da Barra (lugar que eu nem conhecia) e, gente, tantas risadas! Que conversas! Falamos sobre gordofobia, sobre como é se entender gay, falamos sobre transtornos psicológicos, dilemas da amizade, questões de relacionamentos, signos (kkkkk), bullying, ditadura da beleza e outras coisas que eu nem tinha planejado. Adorei ouvir os depoimentos de todo mundo, os causos, cada um teve alguma coisa a acrescentar e o grupo se deu tão bem! Eu não poderia sair de lá mais feliz. Quero mais.





Galera ficou me agradecendo, mas, anjos, eu que agradeço. Vocês não sabem como fizeram um millennial 200% feliz. Saí do piquenique me sentindo magicamente legitimado demais.

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Bom, depois desse imenso sinal verde, óbvio que o Saia da Rotina vai dar mais alguns passinhos. Já há um segundo clube do livro em andamento, a fila de espera me dá vontade de criar um terceiro... Mas também quero experimentar atividades novas. Pretendo ir abrindo os pacotes aos pouquinhos, vendo o que funciona e o que não funciona tanto, já estou quase no pontapé inicial do pacote de Kart e o de Patinação no Gelo.

Quem tiver interesse me chama! Vai ser um prazer encontrar mais uma pessoa pra fazer da comunidade de gente legal que quero criar.

Vamos acompanhar! Aguardem e confiem :)

(Antes de escrever esse texto, eu estava pensando se não deveria divulgar o Saia da Rotina de uma forma mais profissional e menos pessoal. Será que assusto uma pessoa que for no Google e cair aqui? Mas, bom, vulnerabilidade é outra lição de Amanda Palmer. Não sou uma empresa, sou uma pessoa. Interagir comigo é outra parte dos pacotes. Juro que sou legal)



OUTROS TEXTOS


Posted on terça-feira, junho 26, 2018 by Felipe Fagundes

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segunda-feira, junho 18, 2018

E pensar que esse match quase não aconteceu. 

Nossa, sério, sei que eu não paro de repetir isso, mas é que aconteceu por tão pouquinho que ainda hoje a possibilidade de eu viver num mundo em que ele não tenha acontecido me causa desconforto. Sabe essas coisas pequenas que causam um grande impacto? Eu não sabia na hora, claro, a gente nunca sabe, mas aquele meu like hesitante foi uma dessas coisas.

Não hesitei por sua causa, muito pelo contrário. Eu não queria usar o Tinder. Ai, gente, eu deveria estar no Tinder? Eu sei usar o Tinder? Seria Tinder o lugar adequado para o jovem assexual carente estar quase à meia-noite procurando romance? Fui e voltei umas três vezes. O dedo do like coçando pra ir lá e clicar no coração. Você acertava em todos os lugares que tinha pra acertar.

Eu tenho muito orgulho da minha força de vontade, mas graças a Deus fui fraco naquela noite.


Lembro das duas primeiras coisas que pensei quando te vi: Humn, mais bonito que nas fotos e Ah, 9 cm a menos não é tão mais baixo assim.

Claro que eu tinha que te chamar pra uma Cilada do Bem no nosso primeiro encontro. Estava com essa ideia na cabeça fazia um tempo e acho que o conselho mais valioso que me deram sobre encontros é que eu devo focar em me divertir neles. Então, bom, se você fosse uma perda de tempo, eu pelo menos estaria riscando a montanha-russa da minha Lista

(Desculpa)

Hoje que eu te conheço um pouco melhor, fico pensando coitado. Você tem tudo pra ter medo de montanha-russa. Acho até que você estava um pouco nervoso enquanto a gente esperava na fila. Eu estava de boas. Uma vida de ciladas do bem me fez maluco corajoso pra esse tipo de situação. Daí sentamos no carrinho, que não parecia nada seguro, e o troço começou a andar devagarzinho, subindo, dava para eu ver a queda livre e o loop que viriam depois e logo tratei de oferecer minha mão. Acho que você achou romântico, mas, meu anjo, eu tava me cagando de medo. Eu fiquei apavorado de verdade e naquela subidinha em câmera lenta eu já tava falando EU QUERO DESCEEEEEER. Logo eu, que vergonha. Não durou 1 minuto a aventura, mas eu desci do carrinho com as pernas bambas. Foi legal, gostei! Foi o que você me disse e francamente. Mas eu super repetiria se fosse pra segurar sua mão de novo.

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Na roda gigante, eu já estava criando mil cenas de beijo na minha cabeça, porque todo mundo sabe que roda gigante foi projetada pra isso. Eu ainda sabia beijar? Eu achava que não. Não é como se eu tivesse uma loooooonga vivência e muitos anos de prática. Você pegou minha mão quando estávamos lá em cima e, gente, que vista, que cenário. A noite, as luzes do parque, os carros passando na pista lá embaixo... Parecia perfeito. Eu sei que eu que te dei uma olhada. A gente reconhece esse tipo de olhar, e você perguntou se eu queria beijar. Eu queria, né, mas na hora eu só ri. E você viu que tinha uma menininha com a mãe bem na nossa frente? A mãe estava tranquilona, mas aquela criança encarava a gente, emburrada. Eu, hein, garota, sai daqui. Fiquei tímido.

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Nunca tinha pensado em estacionamentos como lugares divertidos, mas, menino, provavelmente foi a melhor parte do encontro. Acho que você concorda. Poder te abraçar e te beijar com alguma privacidade foi maravilhoso, mas você me fez feliz bem antes quando andou de mãos dadas comigo por lá. Eu nunca tinha feito isso. Um mês depois estaríamos fazendo isso totalmente em público, mas naquele primeiro encontro eu senti que estava vivendo numa realidade paralela, em San Junipero, sei lá. Várias pessoas viram a gente e eu nem liguei. Aquele casal de adolescentes que ficou super sem graça quando foi se enfiar no mesmo canto onde estávamos, o segurança do estacionamento que tava fazendo a ronda e jogou uma luz na gente ("BANDIDOS, ah, não, só dois meninos de amorzinho", imagino), sem contar aquele auê do carro parado.

Tinha um carro com os vidros pretos estacionado perto da gente e teve uma hora que do nada ele ligou. Não vimos quem entrou, mas o carro ligou e pensamos que ia sair. Mas não saiu. Ficou lá por vários minutos, com aquele barulho de motor, mas nada de meter o pé. A gente até esqueceu do carro, porque tínhamos coisas mais interessantes pra fazer. Lembro que até brinquei "Já pensou se tem gente dentro vendo a gente dar beijos? kkkk". O final é quase óbvio. Pois depois de uns vinte minutos o carro DESLIGOU, a gente se assustou, A PORTA SE ABRIU, SAIU UM CASAL LÁ DE DENTRO e eu fiquei PASSADO. Você me pegou pela mão e saiu varado Hahahah Na minha cabeça, eu já estava sendo testemunha de cena de adultério de pessoas importantes e logo seria apagado como queima de arquivo. Ai, não resisti e olhei pra ver quem era direito.

ERAM DOIS HOMENS KKKKKKK Que saíram do carro ajeitando o cabelo e fechando o zíper da calça. Eu tive um ataque de riso e jamais vou superar isso.

Versão em gif do episódio do carro

O Brasil que eu quero é esse mesmo.

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Infelizmente, não posso prever o futuro, mas estou adorando o que a gente tem. Eu costumava apontar esse e aquele casal como casos de sucesso do Tinder, mas agora confesso que penso na gente. Não digo em voz alta com um medo bobo de estragar tudo. Eu já vi situações que mudam do dia pra noite. Mas também não tenho culpa se você parece ser uma pessoa que inventei. Lembro que perguntamos um para o outro o que mudou desde que nos conhecemos, qual a diferença do que achávamos no começo para o que achamos agora. Como falei, você parecia acertar em todos os lugares e, menino, não é que acerta mesmo? Eu te achava fofo, agora te acho mais. Te achava bonito, agora fico maravilhado toda vez que observo seu corpo. Te achava tranquilo, agora é essa confiança e segurança que me deixa com vontade de ficar mais tempo.

Sei que querer não é poder, mas quero continuar andando sem rumo contigo, me perder e descobrir pracinhas reservadas que ninguém sabia que existiam. Quero aprender mais sobre mim ao mesmo tempo que você aprende sobre você. Quero te arrastar pra esse tipo de situação que só acontece comigo, porque daí vai passar a acontecer com a gente, e é tão bom ter com quem morrer de rir ao vivo...

E pensar que esse match quase não aconteceu. Meu Deus.



OUTROS TEXTOS



Posted on segunda-feira, junho 18, 2018 by Felipe Fagundes

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segunda-feira, junho 04, 2018

Eu amo discursos de empoderamento, sejam eles quais forem. Gosto da boa vibe, gosto da mágica de fazer alguém que antes se sentia um lixo se sentir querido, adoro isso de cultivar amor-próprio e todos os desdobramentos que isso traz. Caramba, a gente precisa. Deus abençoe quem se tocou que empoderar pessoas era mais sadio que fazer chacota delas. A única coisa que eu esbarro nesses discursos é o fato de, no fim das contas, sempre apontarem para o fato de que a pessoa tem que se sentir linda. Óbvio que empoderamento trata de mil outras coisas, mas beleza parece ser fundamental. 

Uma mulher empoderada é uma mulher que se sente bonita. Uma pessoa gorda e empoderada se acha linda. Eu compreendo que a sociedade é horrível em dizer todo dia que só tem beleza quem é do jeito X e daí há uma leva gigantesca de pessoas que fica de fora. Uma vida inteira se sentindo feio e sem valor. Eu entendo. Então vem o empoderamento pra levantar essa autoestima e dizer que, ei, deixa esse povo pra lá, você é bonito, sim! Você é lindo do jeito que você é!

Eu só quero ser feio em paz, gente.


Confesso que não sei bem por que tratamos beleza como algo essencial. Tipo, parece que o amor-próprio é automaticamente relacionado a isso. Se você se ama, você tem que se achar lindo. Eu já acho que tudo bem ser feio. Eu acho que ser e estar bonito cansa, ainda mais pra quem não faz parte do grupinho aí privilegiado. Compreendo que para algumas pessoas seja importante ser bonito, mas para todas?

É engraçado que, com outras características que eu também considero importantes, a roda não gira assim. Por exemplo, ser engraçado. Tem gente que não é. E tá tudo bem. Nunca vi ninguém dizer que não é engraçado e surgir uma pessoa do bueiro pra falar "PARA COM ISSO, VOCÊ É ENGRAÇADO, SIM! APRENDA A SE AMAR". Muita gente diz que é péssima em matemática e também fica tudo bem. Eu sou um pouco desastrado, não ajo bem sob pressão e não sou a pessoa mais eloquente do mundo, mas não me sinto um lixo por causa disso. Tá tudo bem não ser perfeito. Mas aí vem o ser feio.

Não pode ser feio.

É muito mais prático viver num mundo em que é ok ser feio do que em um em que TODO MUNDO tem que ser bonito. O natural geralmente é considerado feio. Se a pessoa não fizer nenhuma firula estética básica, é feia. Pra se sentirem bonitas, as pessoas usam maquiagem, fazem algum penteado diferente, colocam aquela ou essa roupa, essas coisinhas. Até em programas tipo Queer Eye, em que pegam uma pessoa super comum e até fora do padrão e fazem uma transformação básica para a pessoa se enxergar como bonita, há essas alterações mínimas para obter o efeito desejado. Aí eu fico pensando que, quando o programa acaba, a pessoa ainda tem que ficar pelo resto da vida executando aqueles procedimentos para manter a beleza recém-alcançada. Cansa.

Não me acho grandes coisas no quesito beleza e admito que há dias em que quero me sentir bonito. Mas também há os dias em que fico de boas com ser/estar feio. Tipo, ok, eu sou feio, mas também sou engraçado, inteligente, criativo e boa companhia. Não conta? Já expliquei minha teoria do potencial de beleza e, por causa disso, nossa, beleza é algo tão subjetivo! Acho muito complexo querer agradar a todos, ainda que esse todos seja nós mesmos (que na verdade somos influenciados por esse todos).

Realmente entendo que os discursos de empoderamento batem nas teclas que precisam ser batidas. Alguém ouviu que é feio a vida toda e está precisando se achar bonito. Pessoas do tipo Y também podem ser lindas. É uma causa nobre. Apesar da diferença ser um tanto sutil, acho que a pessoa ficar o dia todo lutando contra discursos contrários e tentando se afirmar como bonita é mais penoso do que trabalhar a ideia de que tudo bem ser feio. Porque está tudo bem, ninguém tem nada com isso.


OUTROS TEXTOS


Posted on segunda-feira, junho 04, 2018 by Felipe Fagundes

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