Numa das temporadas de Survivor que assisti, chegou um momento em que, na hora da eliminação, os votos ficaram empatados entre dois participantes. Quando isso acontece no reality, os participantes que não foram votados precisam entrar  num consenso ou, pelo menos, tentar convencer alguém a mudar de lado e encerrar o desempate. Se o empate continuar, já era, acontece um sorteio de pedras entre todo mundo e quem pegar a pedra preta está automaticamente eliminado. É sempre um caos.

Daí que tinha essa participante Coisinha que ficou GENTE, PELO AMOR DE DEUS, VAMOS ENTRAR NUM CONSENSO, mas ninguém quis e foram para as pedras. A cara de choque de Coisinha quando tirou a pedra preta me deixa no chão até hoje.

Depois de já eliminada, foram perguntar pra Coisinha se ela se arrependia de não ter ela mesma mudado de lado, e ela disse que não, não se arrependia. Porque, se ela mudasse de lado naquele voto, sabia que seus dias no jogo estariam contados. O que adianta durar mais um pouco se não for pra vencer? Ela disse que não tinha como não agir como ela agiu. "Decisão certa, pedra errada, só isso".

Pois acabou Firma pra mim.



Sim, aquela mesma Firma pela qual eu larguei meu emprego (onde eu ganhava mais) e estava AMANDO trabalhar lá

Gente, a Firma é incrível. O RH que mima a gente, as cafonices do bem que eles inventam, o ambiente descontraído, os presentes, o plano de carreira, os benefícios... Foi por isso que larguei meu antigo emprego, porque, apesar de ganhando mais, eu não via mais como crescer na área. A Firma me dava essa oportunidade, e eu achei que iria prosperar.

Eu também trabalhei muito, principalmente depois que fui mal avaliado numa avaliação de desempenho. Eu estava acostumado com a tranquilidade do último trabalho e custei a entrar no ritmo, mas engatei. Toda semana estava lá eu lutando para fazer mais e melhor, desafiando até alguns limites meus. Também sei que desenvolvi algumas habilidades sociais. Tinha dia que eu saía de lá me sentindo derrotado, mas havia dias em que eu era a pessoa mais feliz daquele prédio.

Uma coisa que eu ainda não entendi bem é por que uma empresa que é fofinha também vem acompanhada da característica de fomentar competição/meritocracia. Já notei que esse é mesmo um padrão de empresas desse naipe. TRABALHE PARA BRILHAR. FAÇA POR MERECER. SEJA O MELHOR. O alto desempenho é muito celebrado. E daí todo mundo se dispõe a dar o melhor e trabalha até o dobro necessário para ganhar, sei lá, uma medalha. Parece que estou fazendo uma crítica negativa, mas não necessariamente. Esse modelo funciona muito bem para algumas pessoas, tanto que o clima de paz e amor da Firma é sempre muito bem avaliado pelos colaboradores, mas não funcionou pra mim.

Até com ansiedade sofri, coisa que nunca aconteceu nesse nível. Acordei uns dois dias tremendo e com muito frio por causa de uma apresentação importante que tinha que fazer. Teve semanas que fiquei no chão achando que ia ser demitido por causa de N fatores.

Particularmente, sinto que estava indo muito bem nessa reta final. Eu tinha orgulho do que estava produzindo e até esse feedback positivo me deram, mas outras coisas aconteceram. Um colega de trabalho exigiu ser promovido (ele realmente merecia), Firma disse que não dava, esse colega ameaçou sair e deram um jeito de conseguir a promoção para ele. Aí o orçamento ficou pesado para o setor. Tiveram que me cortar e provavelmente vão contratar alguém com salário menor para ocupar meu cargo. Achei até justo. Era um jogo, e eu perdi.



Não chorei, não me desesperei e, no dia seguinte, já estava até me sentindo mais positivo em relação a vida e ao futuro. Não que eu tenha uma grande maturidade e estabilidade emocional, é só meu modus operandi mesmo. Não sei explicar. Eu agora estou de boas, embora preocupado com o futuro e com as últimas coisas que conquistei.

Achei ruim? Claro, né, gente. Chato, triste, uma pena... Achei que poderia virar a situação e não consegui. Também tem aquela DOR de, caramba, eu estava na paz e tranquilidade do meu antigo emprego, ganhando mais dinheiro, e larguei tudo para ganhar menos e trabalhar mais! E AGORA FIQUEI SEM NADA. Se eu continuo pensando nisso, entro numa espiral de desgraçamento e não saio mais. Porém, aprendi com Coisinha: decisão certa, pedra errada.

NÃO TINHA COMO eu não largar meu antigo emprego. Faz praticamente parte da minha essência tomar uma decisão dessas. Não é a primeira que vez que eu, mesmo morrendo de medo do futuro incerto, largo o que tenho pra tentar algo melhor. Eu simplesmente não consigo ficar numa situação que me desagrada, sofrendo, reclamando e sem fazer nada, sabendo que lá fora podem existir realidades que funcionem melhor para mim. Eu arrisco, eu tento, eu monto um plano doido e jogo tudo para o alto. Claro que não é legal quando dou com a cara no chão, mas, quando funciona, não tem sensação mais maravilhosa do que saber que VOCÊ se colocou numa posição melhor, VOCÊ batalhou para chegar ali, VOCÊ foi vulnerável o suficiente para arriscar e conquistar o que queria.

Talvez funcionasse se eu já estivesse acostumado com o ritmo da empresa. Ou se meu colega fosse outra pessoa. Ou se ele não tivesse pedido promoção ou ainda se tivesse ido para outra empresa por causa de uma promoção negada. Se eu tivesse caído em outra equipe ou, SEI LÁ, as possibilidades são muitas. Coisinha pegou a pedra errada no meio de quase dez certas. 

***

Agora, né, estamos aí desempregado e sem saber o que fazer da vida. O gerente que me demitiu me indicou para vagas de emprego, e me disseram que isso é um bom sinal: Eles gostaram do meu trabalho, mas não tinham como me manter. Se eu fosse ruim no que faço, não estariam me indicando. Estou aqui pensando no que será que o futuro me reserva. Estou enviando currículos, mas também tendo ideias variadas de como quero construir meu próprio caminho. De repente, eu dou uma virada inesperada. Sou viciado em viradas inesperadas.



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