Eu sempre soube que me daria muito mal se estivesse preso dentro de um filme de terror. Seria um daqueles personagens que fazem quem assiste gritar "DEIXA DE SER BURRO, CARAMBA. POR QUE VOCÊ TÁ FAZENDO ISSO?" e certamente teria uma morte horrível causada por minha própria burrice. O assassino/fantasma/monstro não teria trabalho algum. Tipo, eu sempre soube, né, mas nunca tinha tido a oportunidade de comprovar na prática.

Até que tive.



Eis que numa noite chego em casa, na minha linda nova casa de paz e alegria, e sinto que ela está estranha. Tô lendo um livro que diz que introvertidos sentem demais em todos os sentidos, então estou me sentindo meio paranormal em vários aspectos. Eu senti a casa estranha. Com o sexto sentido que esse livro está me fazendo acreditar que eu tenho.

Da porta, já chamei pela Ju, minha roommate, pra ver se ela estava em casa e tal. Não respondeu. Dei uma olhada no lugar onde a gente deixa nossas chaves e vi que a dela não estava lá. Beleza, deve ter saído.

Encontro a porta da cozinha fechada. Humn, estranho. A gente NUNCA fecha essa porta da cozinha. Antes de entrar na cozinha achando tudo meio suspeito, vejo que a chave da cozinha está jogada no chão. Quando de fato entro no cômodo, SOCORRO, vários ímãs da geladeira estão caídos no chão, há uma vassoura abandonada fora do lugar, há papéis suspeitos manchados de óleo no chão! O QUE HOUVE AQUI???

Dou um pulo na sala, vejo que a gata está viva, MAS: a porta que dá para os quartos está fechada. ESSA PORTA REALMENTE NUNCA FICA FECHADA. E, gente, nunca mesmo. Estava um calor danado, por que roommate fecharia essa porta? E a da cozinha? E A CHAVE CAÍDA NO CHÃO? Com toda uma inteligência que desenvolvi naquele instante, meus super poderes de introvertido, saco na hora: HÁ ALGUMA COISA NESSA CASA. Ou talvez não. MAS SEI QUE HÁ. Ou talvez só tenha ACONTECIDO uma coisa nesta casa, eu não sei. Só sei que corro de volta para a cozinha apavorado sabendo que a vida de Juliana Fina Flor está em minhas mãos.

Mas sou incapaz de guardar minhas paranoias e jogo no grupo do zap. Todo mundo tem esse grupo no zap pra onde você pode mandar mensagem quando acha que está prestes a morrer.


Rapidamente repasso os fatos do assassinato, sequestro, evento sobrenatural ou luta corporal que aconteceu na casa, mas todo mundo parece estar de boas DEMAIS. Mando uma mensagem para Ju pelo whatsapp e, A-RÁ, ela nem recebe. "JU, VOCÊ ESTÁ VIVA E BEM?", dizia a mensagem, mas claro que ela não respondeu pois está morta. Talvez ela tenha lutado com alguém na cozinha, alguém caiu em cima da geladeira e derrubou tudo. A panela de óleo que estava no fogão deve ter virado e manchou os papéis que estavam colados na geladeira. Juliana estava no meio de uma faxina e, por isso, a vassoura ficou lá. Mais luta e a chave foi derrubada! Será que levaram a Juliana embora ou seja lá o que for AINDA está nessa casa?

Nisso eu já tava meia hora agachado no chão da cozinha sem fazer nenhum barulho para o assassino não sacar meus movimentos. Claro que ele sabia que eu estava na casa, ainda mais se fosse um espírito ou demônio, mas não tinha como saber quando eu ia agir. Aí Bells me manda essa no grupo.



Juliana diz que se sente mais protegida com essa gata, pois eu sou justamente o contrário. Vou verificar a gata na sala e CLARO que ela está miando para a porta trancada que dá para os quartos, onde o monstro e/ou o corpo da Ju certamente está. PUTA MERDA, ESSA GATA. A gata sabe.



Ligo para Ju umas 200 vezes sem sucesso, nada da mensagem ser recebida e eu fazendo mil teorias na minha cabeça. Penso em fugir da casa, ligar para a polícia, mas... parece meio drástico demais. Então ao mesmo tempo que acho que Ju está bem, também sei que há um serial killer na casa e sou a vítima nº 2.

Me perguntam no grupo se já abri a porta, porque é claro que a essa altura do campeonato já era pra eu ter aberto a porta, mas não abri pois em posição fetal na cozinha.



Bells fala que, se Ju estivesse caída precisando da minha ajuda, certamente já estaria morta agora pelo tanto que eu enrolo, então me ENCHO DE CORAGEM e me excedo no zap.



EU NÃO SEI DE ONDE ESSE PALAVRÃO VEIO. FOI O CORRETOR. Ninguém acredita. Ou dizem que, se o corretor corrigiu, é porque eu ando usando, MAS EU JURO QUE NÃO. Fico me justificando, até que ninguém aguenta mais o suspense da porta e eu faço a única coisa possível.

Pesquisar "PORRA" no whatsapp pra ver se realmente já usei um dia (não usei).

E nisso está Juliana caída no chão após uma possessão demoníaca ou sei lá.



O tanto que eu ri, gente (Carol <3). O assassino devia estar muito confuso atrás da porta.

Claro que não peguei faca nenhuma pois Deus me livre de esfaquear gente (e eu ainda tinha certa esperança de ser uma festa surpresa pra mim, mesmo meu aniversário sendo em julho, imagina eu esfaqueando minha mãe ou um amigo no susto), mas ABRI A PORTA. Abri bruscamente, dei três pulos pra trás e mandei a gata ir como se fosse um Pokémon.

E ela foi. Isso nem é gata, é um anjo. Fiquei só de longe vendo a gata entrar no corredor mal assombrado, ir cheirando cada canto, entrando em alguns cômodos, nada aconteceu. Ainda aguardei uns minutos pra ter certeza, mas depois fui (engraçado que agora tô vendo os horários dos prints, mas na minha cabeça tudo durou 2,5 eternidades)

NOSSA, mas vasculhei tudo. Banheiro, dentro do box, atrás das portas, dentro do guarda-roupa, nas gavetas, acendi todas as luzes, cantei uma canção de louvor a Jesus e NADA de assassino ou corpos.

Juliana respondeu a mensagem dizendo que estava bem.

Aparentemente, apesar de TODOS os indícios que qualquer introvertido SAGAZ poderia facilmente notar, não tinha nada de errado.

Quem diria, né? ¯\_(ツ)_/¯



Juliana disse que era normal o vento causar esse caos todo na casa de vez em quando. Essas horas todas de agonia e eu me cagando por causa de vento. Mas, beleza, vida que segue.

Até que rendeu mesmo uma história.



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