Se você que nunca leu este blog fizesse uma busca profunda nas minhas redes sociais para entender quem eu sou, você encontraria eu compartilhando mensagens cafonas com coração no final, ia ver eu dizendo que amo gente, ia ver eu falando de vulnerabilidade, amizades e rindo de tudo. Você custaria muito para achar eu reclamando. Você iria encontrar pessoas dizendo o quão good vibes eu sou, e talvez uma inspiração para ser feliz e correr atrás dos próprios sonhos e da vida boa, ia ter gente falando que sou um amorzinho puro demais para este mundo, ia ter muita gente falando do quão sou bonzinho e inocente, aquele raiozinho de sol e luz da esperança e até príncipe ícone da paz.

É quase tudo mentira.

E eu contribuí com metade delas. Eu acreditei em metade delas.



A minha autoestima, de uns anos para cá, ficou misteriosamente imbatível. Acho que essa bolha de blog e Twitter, com todo mundo me mandando elogios e declarações de amor palavras fofas, encheu muito a minha bola. Eu brinco com isso de ser um personagem de uma sitcom (aí o slogan do blog), mas, na minha cabeça, eu realmente criei uma narrativa coerente e me fiz personagem. Eu acreditei ser esse ser de paz e de luz amado por todos. De 10 pessoas que eu conhecia, se 7 me amassem e 3 me odiassem, eu apagava da memória essas 3. Se fosse 6 x 4 também, 5 x 5 também. Se 9 pessoas me ignorassem e aquela 1 alma misericordiosa me estendesse a mão, ela virava meu mundo e eu ficava "Nossa, eu devo ser muito legal mesmo, todos me querem". ERA SÓ UMA PESSOA. Era inconsciente da minha parte (eu acho), mas eu consegui levar 2017 todinho nesse ritmo, até que no finalzinho as coisas não ficaram tão bem.

Eu ainda acho muito bom e às vezes necessário se achar incrível e maravilhoso (se você não acha, guarda pra você, obrigado), mas há o risco de você colocar pessoas que minam sua autoestima no mesmo saco das que fazem críticas construtivas. Eu acabei ignorando um monte de críticas, mas não é possível fazer isso pra sempre, então elas começaram a GRITAR e me incomodar.

Ouvi de uma pessoa que eu nem pareço gente, pareço um robô. Outras duas disseram que sou "muito venenoso" e que "falo demais sobre mim mesmo". Teve um que disse que sou muito apagado e que não confia em gente assim. Teve uma meia dúzia de momentos no ano em que eu simplesmente travei num ambiente cheio de pessoas desconhecidas e entrei meio que em pânico. Entrei mudo e saí calado. Tem gente que reclama que não gosto de nada, alguns acham que minha vida é um tédio. Em mais de um lugar que frequentei neste ano, pessoas que não se conheciam entre si me taxaram de psicopata, pelo jeito que falo as coisas e minha falta de traquejo social. Já chegaram pra mim e disseram "Isso que você acabou de falar não foi legal". "Você é tão ruim!", já ouvi da boca de mais de duas pessoas. Isso é um pouco além de um Good Vibes Gate.

Tem coisa que, caguei, eu sou introvertido, só com muito esforço consciente que ia ser diferente. Eu nunca vou ser a alma do rolê. Eu sou mais o fantasma da foto.




Vou ser apagado, mudo, sombrio, vou ser aquela pessoa quieta no canto e que todo mundo tem certeza de que é a que tem mais chances de endoidar e entrar na sala atirando se mexerem muito com ela. Também tem o fato de que ninguém disse por mal. Eu sei que algumas parecem duras, mas a maioria foi dita em contexto de brincadeira, outras foram mais uma constatação do que um ataque. Na época, nem doeu.

***

Meu plano era passar a virada dormindo na santa paz do menino Cristo, mas não deu. Não consegui dormir. Parece que essas críticas todas que joguei para baixo do tapete esperaram eu dar mole para chamar minha atenção. Fiquei literalmente SEIS HORAS rolando na cama pensando em cada uma dessas palavras difíceis de digerir. Tipo, COMO ASSIM eu sou muito venenoso se todo mundo diz que sou um amor de pessoa? Eu já ganhei um prêmio por ser um amor de pessoa. E que história é essa de psicopatia, robô e falta de traquejo social se eu tenho um monte de amigos e eles me amam? As peças não encaixavam. Eu estava querendo acreditar nas críticas, mas elas não batiam em nada com o que vivi o ano todo, com o que as pessoas na internet falam, com a bolha na qual sempre vivi. Eu mudei? As pessoas mudaram? Será que eu regredi e virei uma pessoa pior? Eu posso apontar fatos que me deixaram menos bobo, mas será que o Felipe Good Vibes morreu? Ele sequer existiu? Daí no meio da noite, sozinho nas primeiras horas de 2018, eu disse a verdade em voz baixa.

- Puta merda, sou a Taylor Swift da Era Reputation.

Para leigos em Taylor Swift,  tem uma análise maneira e enorme aqui. Resumindo, é esse negócio de indivíduo bonzinho que se transforma em vilão após eventos complicados. Sem resumir tanto assim, é sobre uma pessoa, que sempre teve uma imagem de boas, se permitir ter defeitos, não fazer tudo certo e até ser ruim. É sobre abraçar a vilania da própria natureza humana e, mais do que isso, não ter mais o controle da própria história e imagem.

A crise e a dor, aparentemente, eram porque eu não estava tendo coragem para deixar para trás essa  fase good vibes. É tão BOM ser amado por todos! Mas o único jeito de ser amado de verdade é sendo vulnerável, e ser vulnerável significa mostrar ao mundo quem a gente realmente é.

***

Eu quero enterrar de vez essa imagem de Felipe bonzinho, puro e anjo. Não que eu vá sair socando gente na rua, chutando cachorros e virar nazista, mas eu vou ser o que eu sou. Tipo, de verdade. Eu realmente gosto muito de falar de mim mesmo (olha o tamanho desse texto). Eu tenho um social bem precário. Eu tento ser educado, mas do nada falo umas verdades sem sutileza nenhuma. Gosto de um veneninho mesmo, com moderação. Eu fico desconfortável perto de muita gente e acabo me movendo e falando de um jeito estranho que ninguém entende. Eu me policio demais nas redes sociais para não tretar com ninguém, mas leio os tweets todos pensando "Nossa, cala a boca", "Deixa de ser mala", "Não gosta, não faz, ué", "Deixa as pessoa em paz". O que eu quero é ter a liberdade de acreditar em mensagens cafonas e também de reclamar da vida. Quero poder dizer NÃO pra gente abusada e dizer que a vida é uma delícia. Quero ser incoerente às vezes. Não, eu não sou um robô programado do jeito X. Eu sou uma pessoa. E uma das complicadas.

Eu tô pronto pra abandonar essa patacoada de 100% paz e luz. Vocês estão? Funcionou pra Taylor Swift.




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