segunda-feira, janeiro 22, 2018

Eu sempre soube que me daria muito mal se estivesse preso dentro de um filme de terror. Seria um daqueles personagens que fazem quem assiste gritar "DEIXA DE SER BURRO, CARAMBA. POR QUE VOCÊ TÁ FAZENDO ISSO?" e certamente teria uma morte horrível causada por minha própria burrice. O assassino/fantasma/monstro não teria trabalho algum. Tipo, eu sempre soube, né, mas nunca tinha tido a oportunidade de comprovar na prática.

Até que tive.



Eis que numa noite chego em casa, na minha linda nova casa de paz e alegria, e sinto que ela está estranha. Tô lendo um livro que diz que introvertidos sentem demais em todos os sentidos, então estou me sentindo meio paranormal em vários aspectos. Eu senti a casa estranha. Com o sexto sentido que esse livro está me fazendo acreditar que eu tenho.

Da porta, já chamei pela Ju, minha roommate, pra ver se ela estava em casa e tal. Não respondeu. Dei uma olhada no lugar onde a gente deixa nossas chaves e vi que a dela não estava lá. Beleza, deve ter saído.

Encontro a porta da cozinha fechada. Humn, estranho. A gente NUNCA fecha essa porta da cozinha. Antes de entrar na cozinha achando tudo meio suspeito, vejo que a chave da cozinha está jogada no chão. Quando de fato entro no cômodo, SOCORRO, vários ímãs da geladeira estão caídos no chão, há uma vassoura abandonada fora do lugar, há papéis suspeitos manchados de óleo no chão! O QUE HOUVE AQUI???

Dou um pulo na sala, vejo que a gata está viva, MAS: a porta que dá para os quartos está fechada. ESSA PORTA REALMENTE NUNCA FICA FECHADA. E, gente, nunca mesmo. Estava um calor danado, por que roommate fecharia essa porta? E a da cozinha? E A CHAVE CAÍDA NO CHÃO? Com toda uma inteligência que desenvolvi naquele instante, meus super poderes de introvertido, saco na hora: HÁ ALGUMA COISA NESSA CASA. Ou talvez não. MAS SEI QUE HÁ. Ou talvez só tenha ACONTECIDO uma coisa nesta casa, eu não sei. Só sei que corro de volta para a cozinha apavorado sabendo que a vida de Juliana Fina Flor está em minhas mãos.

Mas sou incapaz de guardar minhas paranoias e jogo no grupo do zap. Todo mundo tem esse grupo no zap pra onde você pode mandar mensagem quando acha que está prestes a morrer.


Rapidamente repasso os fatos do assassinato, sequestro, evento sobrenatural ou luta corporal que aconteceu na casa, mas todo mundo parece estar de boas DEMAIS. Mando uma mensagem para Ju pelo whatsapp e, A-RÁ, ela nem recebe. "JU, VOCÊ ESTÁ VIVA E BEM?", dizia a mensagem, mas claro que ela não respondeu pois está morta. Talvez ela tenha lutado com alguém na cozinha, alguém caiu em cima da geladeira e derrubou tudo. A panela de óleo que estava no fogão deve ter virado e manchou os papéis que estavam colados na geladeira. Juliana estava no meio de uma faxina e, por isso, a vassoura ficou lá. Mais luta e a chave foi derrubada! Será que levaram a Juliana embora ou seja lá o que for AINDA está nessa casa?

Nisso eu já tava meia hora agachado no chão da cozinha sem fazer nenhum barulho para o assassino não sacar meus movimentos. Claro que ele sabia que eu estava na casa, ainda mais se fosse um espírito ou demônio, mas não tinha como saber quando eu ia agir. Aí Bells me manda essa no grupo.



Juliana diz que se sente mais protegida com essa gata, pois eu sou justamente o contrário. Vou verificar a gata na sala e CLARO que ela está miando para a porta trancada que dá para os quartos, onde o monstro e/ou o corpo da Ju certamente está. PUTA MERDA, ESSA GATA. A gata sabe.



Ligo para Ju umas 200 vezes sem sucesso, nada da mensagem ser recebida e eu fazendo mil teorias na minha cabeça. Penso em fugir da casa, ligar para a polícia, mas... parece meio drástico demais. Então ao mesmo tempo que acho que Ju está bem, também sei que há um serial killer na casa e sou a vítima nº 2.

Me perguntam no grupo se já abri a porta, porque é claro que a essa altura do campeonato já era pra eu ter aberto a porta, mas não abri pois em posição fetal na cozinha.



Bells fala que, se Ju estivesse caída precisando da minha ajuda, certamente já estaria morta agora pelo tanto que eu enrolo, então me ENCHO DE CORAGEM e me excedo no zap.



EU NÃO SEI DE ONDE ESSE PALAVRÃO VEIO. FOI O CORRETOR. Ninguém acredita. Ou dizem que, se o corretor corrigiu, é porque eu ando usando, MAS EU JURO QUE NÃO. Fico me justificando, até que ninguém aguenta mais o suspense da porta e eu faço a única coisa possível.

Pesquisar "PORRA" no whatsapp pra ver se realmente já usei um dia (não usei).

E nisso está Juliana caída no chão após uma possessão demoníaca ou sei lá.



O tanto que eu ri, gente (Carol <3). O assassino devia estar muito confuso atrás da porta.

Claro que não peguei faca nenhuma pois Deus me livre de esfaquear gente (e eu ainda tinha certa esperança de ser uma festa surpresa pra mim, mesmo meu aniversário sendo em julho, imagina eu esfaqueando minha mãe ou um amigo no susto), mas ABRI A PORTA. Abri bruscamente, dei três pulos pra trás e mandei a gata ir como se fosse um Pokémon.

E ela foi. Isso nem é gata, é um anjo. Fiquei só de longe vendo a gata entrar no corredor mal assombrado, ir cheirando cada canto, entrando em alguns cômodos, nada aconteceu. Ainda aguardei uns minutos pra ter certeza, mas depois fui (engraçado que agora tô vendo os horários dos prints, mas na minha cabeça tudo durou 2,5 eternidades)

NOSSA, mas vasculhei tudo. Banheiro, dentro do box, atrás das portas, dentro do guarda-roupa, nas gavetas, acendi todas as luzes, cantei uma canção de louvor a Jesus e NADA de assassino ou corpos.

Juliana respondeu a mensagem dizendo que estava bem.

Aparentemente, apesar de TODOS os indícios que qualquer introvertido SAGAZ poderia facilmente notar, não tinha nada de errado.

Quem diria, né? ¯\_(ツ)_/¯



Juliana disse que era normal o vento causar esse caos todo na casa de vez em quando. Essas horas todas de agonia e eu me cagando por causa de vento. Mas, beleza, vida que segue.

Até que rendeu mesmo uma história.



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Posted on segunda-feira, janeiro 22, 2018 by Felipe Fagundes

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terça-feira, janeiro 16, 2018

Eu sempre fui uma pessoa distante, mas não no sentido afetivo da coisa. Eu tento responder todas as mensagens que quero responder, dou atenção quando posso e me faço presente nas coisas que são importantes para os meus amigos. Eu acho que sou uma pessoa com a qual os outros podem contar se eu digo que podem. Mas sempre fui distante no sentido físico. Digo, de encostar nas pessoas e ter pessoas encostando em mim.

Já observei que, enquanto para algumas pessoas ficar abraçado com alguém é super comum, para mim é um grande acontecimento. Nunca fui de ficar agarrado com ninguém. Nas raras vezes em que isso aconteceu, pode ter certeza de que a iniciativa não foi minha, e a cena foi tão marcante pra mim que lembro até hoje.



Na adolescência, eu fazia o tipo que não gostava de contatos físicos. Recusava abraços, fugia daqueles momentos que fica todo mundo pulando, abraçados, comemorando alguma coisa, evitava encostar em todo mundo sei lá por que, mas depois eu reparei que gostava, sim! Mas eles pedem uma naturalidade que eu não sei lidar (ainda fico perdido nesse da galera pulando e evito). Fico meio constrangido, que nem quando pessoas me abraçam e às vezes saem uns abraços estranhos. É como se me faltasse prática.

No começo, parecia mais uma "coisa de homem". Se você reparar, melhores amigas tendem a andar grudadas uma com a outra. Se abraçam, se beijam, deitam uma na outra, andam de braços dados, seguram as mãos. Homens geralmente não fazem isso. Eu pelo menos nunca vi dois amigos andando de mãos dadas. Só que, depois, reparei que até homens tem lá seu jeito de se encostarem, principalmente em dia de jogo de futebol. Os beijos no rosto, os tapas nas costas, os abraços violentos. Gays inclusive tendem a ser bem mais de boas com isso. Eu, como sempre, fiquei de avulso aí no rolê.

O contato físico também tem uma coisa meio romântica, não tem? Não é à toa que ele é uma das cinco linguagens do amor, e eu custei para achar uma imagem decente sobre toque que não fosse a de um casal se pegando para pôr nesse post. Sempre rola na ficção aquele momento em que os mocinhos se encostam casualmente e, mais tarde, eles já estão enroscados. Casais ficam agarradinhos, e o próprio sexo é todo sobre contato. Daí fico achando que minha assexualidade tem algum papel nisso. Eu não tenho vontade de me relacionar sexualmente com ninguém, então por isso eu não invisto tanto em contato físico. Não sei, é só uma hipótese furada.

Eu nunca, e vocês?
Acho essa jogada de braço por cima dos ombros e por trás do pescoço particularmente difícil

O que eu sei é que agora que percebi que existe toda uma experiência sensorial da qual nunca fiz parte, fico meio curioso com as formas de contato físico. Tipo, logo eu que amo uma experiência doida! Semanas atrás, a Bells perguntou se podia morder meu braço, e eu fiquei "Oi???". Mas deixei. Teve um dia que fui visitar uns amigos meus, daí sentei no chão com a cabeça encostada no sofá e eles começaram a fazer cafuné em mim. Eu adoro cafuné. Às vezes, crianças aparecem do nada e me abraçam, se jogam em mim e tal. Eu fico sem graça de não retribuir, porque abraço de criança é uma coisa tão pura. Eu adoro abraçar pessoas mais baixas do que eu, porque meu queixo encosta na cabeça delas. Também amo ser abraçado por pessoas maiores e mais gordas, me sinto protegido. Agora tô lembrando que, na Bravus Race, um amigo teve que literalmente me carregar no colo. Também teve o dia que, pra vocês verem como a coisa toda é muito básica, eu estava sentado no chão assistindo um jogo, e um menino que eu nem conhecia direito estava sentado perto de mim e o joelho dele encostou no meu. Ele estava, tipo, cagando para aquele contato, mas eu até deixei de prestar atenção no jogo para sentir aquele joelho. O meu primeiro impulso foi mover minha perna, mas depois eu refleti e deixei lá. Aliás, meu primeiro impulso sempre é desencostar. Eu na hora peço desculpas se encosto em alguém sem querer.

Tem gente que acha fofo. Contei essa história do joelho para algumas pessoas e ficou todo mundo NOSSA, VOCÊS SE AMAM TANTO. Um menino que eu nem conhecia e nunca mais vi. Eu mal lembro da cara dele, MAS O JOELHO. Eu, por exemplo, nunca fiquei abraçado no sofá com alguém que não fosse minha mãe assistindo alguma coisa. NÃO TEM COMO eu não dar importância a isso quando acontecer.

Acho o máximo quando alguém diz pra eu deitar a cabeça em seu colo ou vice-versa. Às vezes eu calculo demais se posso ou não encostar a cabeça no ombro de alguém. Eu nem preciso, mas vou lá e faço só porque quero. Acho que eu vou ser obrigado a me apaixonar pela primeira pessoa que me beijar no pescoço, independentemente de gênero. Gosto de fazer carinho no braço das pessoas quando peço pra elas se acalmarem, porque li sei lá onde que isso de fato acalma. Às vezes eu uso meus amigos como experiências científicas do tipo "Posso encostar nessa parte mole da sua orelha?" e "Posso encostar no seu rosto enquanto você franze a sobrancelha?". Ninguém nunca recusou. Nem no dia que acho que fui longe demais, mas isso eu não vou contar, pra não chocar vocês.

Será que um dia eu irei me acostumar e achar banal?



OUTROS TEXTOS


Posted on terça-feira, janeiro 16, 2018 by Felipe Fagundes

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terça-feira, janeiro 09, 2018

Todo começo de ano eu sou iluminado misteriosamente por um guia espiritual da cultura pop, e, se 2018 parece que é o ano da dark!Taylor, 2017 com certeza foi o ano da Moana. Sim, a da Disney. Você lembra? De repente, eu descobri dentro de mim toda essa vontade de conhecer lugares e gente nova, de sair da minha bolha de amizades e rotina. Chutei o pau da barraca em alguns sentidos e perto do final do ano eu já estava todo AGORA SOU UM SER LIVRE, mas foi em dezembro, aos 45 do segundo tempo, que fiz a maior moanice de todas: Saí da casa da minha mãe e fui atrás do meu próprio lugar. E veio do nada, eu nem estava exatamente esperando.

Eu me dou super bem com minha mãe, somos carinhosos um com o outro, ela sempre me apoiou em tudo e trabalhou até mais do que deveria para me dar as condições que tenho hoje. Se eu fosse esperar por uma real necessidade de sair de casa, era capaz de eu nunca sair. Morar com ela era até bem confortável. Só que, SEI LÁ, a Moana bateu. Eu simplesmente quis. Num dia, a ideia me pareceu possível; no outro, eu já estava fazendo contas para saber se era realmente viável e, um mês depois, tchau, mãe, vou morar no Rio!



Minha família ficou meio chocada. Até eu achava que ia viver e morrer naquela casa, então foi meio que OI??? Como assim você vai sair de casa? Você vai casar? Mas com quem? Você vai abandonar sua mãe? O que ela te fez??? Ainda teve tia crente dizendo que primeiro eu larguei a igreja e agora estava indo atrás dos prazeres do mundo. QUE PRAZERES, GENTE? Eu só queria me mudar! Mas essas e outras reações foram o que me deu mais força para prosseguir, porque o lance todo da Moana querer sair da ilha dela é que 1) o mundo parece tão cheio de possibilidades! e 2) eu não tenho nada a ver com essa galera da ilha. Por um momento a minha bolha havia sido muito legal, mas agora não era mais e eu precisava sair. Às vezes a gente acha que nossa realidade é pra sempre, mas, ei, você não tem ideia do TANTO de possibilidade que existe. Fora isso, chega a ser engraçado como minha mãe foi a que mais me apoiou em todas as etapas da mudança.

Um dia peguei minha mochila e fui.

Eu sempre achei maravilhoso o apartamento da Ju Fina Flor, e os planetas se alinharam para que ela estivesse procurando por um novo roommate ao mesmo tempo em que eu estava querendo um lugar para começar minha vida 100% independente. FECHOU. Hoje faz quase dois meses que saí de Nova Iguaçu e moro num bairro gostosinho do Rio de Janeiro. EU TÔ TÃO EM PAZ.


Ok, a vida espiritual não está tão boa quanto eu gostaria e nem ligo para restaurante caro, mas, gente, como é precioso morar num lugar SEU. Como aumenta a qualidade de vida! Como é maravilhoso fazer as coisas na hora que você quiser, sem ter obrigação nenhuma com ninguém!

Eu me sinto rico morando nesse apartamento com a Ju. Ela vai falar que é bobagem, e eu sei que não somos ricos, mas também sei de onde vim e ela não tem noção.

O Rio de Janeiro é lindo e vou protegê-lo.

Eu na verdade fiquei mais pobre agora por ter que pagar aluguel, mas, sinceramente, não vejo problema nenhum nisso. Tudo compensa.

Antes eu levava 2h30 para ir de casa para o trabalho (repetindo: DUAS HORAS E MEIA), agora eu chego em 40 minutos ou menos. Moro perto de shopping. Eu nunca morei perto de shopping, gente! Antes, se eu quisesse ir ao cinema, comprar roupas, usar bancos, dar rolês nas praças de alimentação etc, eu tinha que pegar um ônibus que levava meia hora para chegar no shopping mais próximo. Agora eu vou andando e chego no shopping em menos de 10 min. Agora eu tenho Farmácias! Supermercados! Padaria que aceita VR! Caixas eletrônicos! Tudo perto de mim e isso me economiza um tempo e paz de espírito que graças a Deus o dinheiro comprou. Aqui passa ônibus TODA HORA, antes eu sofria com aquele 1 ônibus com intervalo de mais de meia hora. O tanto que já mofei em ponto pra pegar ônibus lotadaço. Até os ônibus lotados daqui são ridículos se comparados aos lotados da onde eu morava. Eu até dou uma risada quando escuto gente aqui no RJ reclamando como o ônibus tá cheio. Meu anjo, você não sabe de nada. Eu acordo de manhã e faço várias coisas antes de ir para o trabalho. Esse post mesmo está sendo escrito antes de eu chegar na Firma de manhã. Eu chego em casa e, se quiser, ainda posso passar no mercado, ir ao shopping, sair com meus amigos e fazer mil coisas em casa antes de eu ter que dormir, porque agora tenho tempo e não estou morto com farofa e cansaço. Sempre tem um ônibus que me pega aqui na porta e me leva até a porta do outrao lugar que preciso ir. Eu já fazia de tudo no RJ, minha vida era mais aqui do que em NI, então agora eu cortei 200 horas perdidas de deslocamento. Sou o primeiro a chegar em casa após os rolês, sempre fui o último que deixava todo mundo preocupado porque nunca que avisava que estava seguro no conforto do lar. O Rio de Janeiro é perigoso e tem violência? Sim, mas, se você não mora numa comunidade dominada pelo tráfico ou sei lá, é tão perigoso e violento quanto qualquer outra cidade. Eu ando pelas ruas muito tranquilo e morro de rir de quem vem de fora e acha que o Rio está em guerra.

***

Tenho vergonha de admitir isso, mas agora na era vilanesca eu posso: sempre deixei minha mãe fazer todas as tarefas domésticas em casa. Nunca movi um dedo. Eu meio que pagava minha mãe para fazer isso, mas foi assim que eu me tornei, no jargão da internet, um desses machos escrotos que todo mundo odeia. E um ser de 26 anos que não sabe FAZER NADA em casa. Nem minhas cuecas eu lavava, puta merda, gente. Tinham que ter me interditado. MÃE, EU TE PEÇO PERDÃO. Acho que eu devia cuidar da casa dela pelos próximos 26 anos para compensar.

Agora quem faz tudo pra mim é a Ju.

MENTIRA KKKKKKKKK

Por mais folgado e deitado que eu fosse, eu sempre tive a consciência de que o dia que eu precisasse fazer tarefas domésticas, eu iria aprender. Nunca foi um problema ou algo que eu achasse um absurdo de homem fazer. Só que nunca precisei, né. Mas saí de casa disposto a aprender tudo. Juliana tava meio ressabiada, eu acho, achando que eu ia deitar dela ou que eu ia sofrer para pegar o jeito, mas, rá, quando eu quero eu consigo. E, convenhamos, não é nenhum bicho de 7 cabeças.

Eu varro minha casa dia sim dia não, e adoro ver a sujeira sendo carregada pela vassoura. Sempre amei lavar louça, mas amo principalmente agora que uso um detergente que eu mesmo fui no supermercado comprar. E lavar roupa, gente? Seria magia? A gente põe na máquina, e a roupa já sai praticamente seca com cheirinho gostoso. Adoro produtos de limpeza e coisas práticas tipo aquele varal portátil que fica preso no teto e aquele produto Pato de passar no vaso. Não curti lavar o banheiro, confesso. Mas amei fazer café. Me sinto muito alquimista passando café. E arroz! Que é a única coisa que sei cozinhar no momento, mas tô aprendendo aos pouquinhos. Eu tiro pó, eu troco o lixo, eu encho as garrafas d'água, eu arrumo minha cama. Nada mais que minha obrigação, eu sei. E nada me dói. Não é custoso, não é difícil de aprender, não há nesse mundo desculpa para uma pessoa saudável e capaz de pegar numa vassoura que não faz as tarefas domésticas. Se você não faz, é porque você não quer e tem quem faça. Simples assim.

***

O fato é que agora estou muito de boas e feliz. Final de ano foi muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, tanto que nem no blog escrevi, mas agora voltou tudo ao normal, só que melhor. Estou podendo curtir minha casa e retomar meu ritmo de escrita aos poucos. Se tudo der certo, vai ter livro novo em 2018! E ele vai ter sido majoritariamente escrito do meu quarto no Rio de Janeiro, enquanto curto o silêncio e minha janela maravilhosa.

Eu AMO uma janela



OUTROS TEXTOS


Posted on terça-feira, janeiro 09, 2018 by Felipe Fagundes

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terça-feira, janeiro 02, 2018

Se você que nunca leu este blog fizesse uma busca profunda nas minhas redes sociais para entender quem eu sou, você encontraria eu compartilhando mensagens cafonas com coração no final, ia ver eu dizendo que amo gente, ia ver eu falando de vulnerabilidade, amizades e rindo de tudo. Você custaria muito para achar eu reclamando. Você iria encontrar pessoas dizendo o quão good vibes eu sou, e talvez uma inspiração para ser feliz e correr atrás dos próprios sonhos e da vida boa, ia ter gente falando que sou um amorzinho puro demais para este mundo, ia ter muita gente falando do quão sou bonzinho e inocente, aquele raiozinho de sol e luz da esperança e até príncipe ícone da paz.

É quase tudo mentira.

E eu contribuí com metade delas. Eu acreditei em metade delas.



A minha autoestima, de uns anos para cá, ficou misteriosamente imbatível. Acho que essa bolha de blog e Twitter, com todo mundo me mandando elogios e declarações de amor palavras fofas, encheu muito a minha bola. Eu brinco com isso de ser um personagem de uma sitcom (aí o slogan do blog), mas, na minha cabeça, eu realmente criei uma narrativa coerente e me fiz personagem. Eu acreditei ser esse ser de paz e de luz amado por todos. De 10 pessoas que eu conhecia, se 7 me amassem e 3 me odiassem, eu apagava da memória essas 3. Se fosse 6 x 4 também, 5 x 5 também. Se 9 pessoas me ignorassem e aquela 1 alma misericordiosa me estendesse a mão, ela virava meu mundo e eu ficava "Nossa, eu devo ser muito legal mesmo, todos me querem". ERA SÓ UMA PESSOA. Era inconsciente da minha parte (eu acho), mas eu consegui levar 2017 todinho nesse ritmo, até que no finalzinho as coisas não ficaram tão bem.

Eu ainda acho muito bom e às vezes necessário se achar incrível e maravilhoso (se você não acha, guarda pra você, obrigado), mas há o risco de você colocar pessoas que minam sua autoestima no mesmo saco das que fazem críticas construtivas. Eu acabei ignorando um monte de críticas, mas não é possível fazer isso pra sempre, então elas começaram a GRITAR e me incomodar.

Ouvi de uma pessoa que eu nem pareço gente, pareço um robô. Outras duas disseram que sou "muito venenoso" e que "falo demais sobre mim mesmo". Teve um que disse que sou muito apagado e que não confia em gente assim. Teve uma meia dúzia de momentos no ano em que eu simplesmente travei num ambiente cheio de pessoas desconhecidas e entrei meio que em pânico. Entrei mudo e saí calado. Tem gente que reclama que não gosto de nada, alguns acham que minha vida é um tédio. Em mais de um lugar que frequentei neste ano, pessoas que não se conheciam entre si me taxaram de psicopata, pelo jeito que falo as coisas e minha falta de traquejo social. Já chegaram pra mim e disseram "Isso que você acabou de falar não foi legal". "Você é tão ruim!", já ouvi da boca de mais de duas pessoas. Isso é um pouco além de um Good Vibes Gate.

Tem coisa que, caguei, eu sou introvertido, só com muito esforço consciente que ia ser diferente. Eu nunca vou ser a alma do rolê. Eu sou mais o fantasma da foto.




Vou ser apagado, mudo, sombrio, vou ser aquela pessoa quieta no canto e que todo mundo tem certeza de que é a que tem mais chances de endoidar e entrar na sala atirando se mexerem muito com ela. Também tem o fato de que ninguém disse por mal. Eu sei que algumas parecem duras, mas a maioria foi dita em contexto de brincadeira, outras foram mais uma constatação do que um ataque. Na época, nem doeu.

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Meu plano era passar a virada dormindo na santa paz do menino Cristo, mas não deu. Não consegui dormir. Parece que essas críticas todas que joguei para baixo do tapete esperaram eu dar mole para chamar minha atenção. Fiquei literalmente SEIS HORAS rolando na cama pensando em cada uma dessas palavras difíceis de digerir. Tipo, COMO ASSIM eu sou muito venenoso se todo mundo diz que sou um amor de pessoa? Eu já ganhei um prêmio por ser um amor de pessoa. E que história é essa de psicopatia, robô e falta de traquejo social se eu tenho um monte de amigos e eles me amam? As peças não encaixavam. Eu estava querendo acreditar nas críticas, mas elas não batiam em nada com o que vivi o ano todo, com o que as pessoas na internet falam, com a bolha na qual sempre vivi. Eu mudei? As pessoas mudaram? Será que eu regredi e virei uma pessoa pior? Eu posso apontar fatos que me deixaram menos bobo, mas será que o Felipe Good Vibes morreu? Ele sequer existiu? Daí no meio da noite, sozinho nas primeiras horas de 2018, eu disse a verdade em voz baixa.

- Puta merda, sou a Taylor Swift da Era Reputation.

Para leigos em Taylor Swift,  tem uma análise maneira e enorme aqui. Resumindo, é esse negócio de indivíduo bonzinho que se transforma em vilão após eventos complicados. Sem resumir tanto assim, é sobre uma pessoa, que sempre teve uma imagem de boas, se permitir ter defeitos, não fazer tudo certo e até ser ruim. É sobre abraçar a vilania da própria natureza humana e, mais do que isso, não ter mais o controle da própria história e imagem.

A crise e a dor, aparentemente, eram porque eu não estava tendo coragem para deixar para trás essa  fase good vibes. É tão BOM ser amado por todos! Mas o único jeito de ser amado de verdade é sendo vulnerável, e ser vulnerável significa mostrar ao mundo quem a gente realmente é.

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Eu quero enterrar de vez essa imagem de Felipe bonzinho, puro e anjo. Não que eu vá sair socando gente na rua, chutando cachorros e virar nazista, mas eu vou ser o que eu sou. Tipo, de verdade. Eu realmente gosto muito de falar de mim mesmo (olha o tamanho desse texto). Eu tenho um social bem precário. Eu tento ser educado, mas do nada falo umas verdades sem sutileza nenhuma. Gosto de um veneninho mesmo, com moderação. Eu fico desconfortável perto de muita gente e acabo me movendo e falando de um jeito estranho que ninguém entende. Eu me policio demais nas redes sociais para não tretar com ninguém, mas leio os tweets todos pensando "Nossa, cala a boca", "Deixa de ser mala", "Não gosta, não faz, ué", "Deixa as pessoa em paz". O que eu quero é ter a liberdade de acreditar em mensagens cafonas e também de reclamar da vida. Quero poder dizer NÃO pra gente abusada e dizer que a vida é uma delícia. Quero ser incoerente às vezes. Não, eu não sou um robô programado do jeito X. Eu sou uma pessoa. E uma das complicadas.

Eu tô pronto pra abandonar essa patacoada de 100% paz e luz. Vocês estão? Funcionou pra Taylor Swift.




OUTROS TEXTOS


Posted on terça-feira, janeiro 02, 2018 by Felipe Fagundes

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