Mesmo antes de terminar de escrever Não Somos Um, eu sabia que teria dificuldade em encaixá-lo em alguma categoria literária. É romance? É comédia? Tem coisa mais genérica que ficção geral? Essa ainda é a parte fácil. Por mais que eu tenha esbarrado nessa dificuldade no meu primeiro livro, aparentemente não aprendi a lição e segui o mesmo caminho nas histórias que vieram depois. Agora mesmo estou escrevendo meu livro novo e JÁ SEI que a fruta não vai cair longe da árvore. Cuidado com a burra, mas não consigo parar. Eu não aprendo.


Na segunda agência literária que tentei, NS1 foi rejeitado por, entre outros motivos que até concordei, "a narrativa religiosa ser de difícil encaixe no mercado" e "Se a religião for usada para humor, pode funcionar, mas se não for o caso...". Aí fica até parecendo que escrevi o novo A Cabana ou o substituto daquele livro do Padre Marcelo Rossi para senhorinhas católicas.

"Não Somos Um" não é um livro religioso, não é uma ficção cristã.

Ou é? Fica aí o suspense.

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Apesar de ter lá meus problemas com igrejas em geral, eu sou cristão. Eu creio em Jesus, amo a mensagem e a revolução que ele traz, posso até dizer que os princípios dele transformaram minha vida para melhor. Eu hesito um pouco em dizer que sou religioso, porque a palavra me passa a ideia de hábitos vazios, e Jesus pra mim é uma pessoa viva. É muito difícil pra mim separar religião e vida pessoal, porque é quem eu já sou. Quer dizer, muita coisa que eu faço ou deixo de fazer não é porque está ou não escrito na Bíblia, é porque eu aprendi, pratiquei e experimentei alguma coisa que Jesus falou. É aquele hábito que você pega de alguém depois de conviver muito com a pessoa.

Daí que eu amo personagens cristãos na ficção, porque eles, na maioria das vezes, falam diretamente comigo. Ok, talvez vocês pensem que cristãos na ficção aparecem o tempo todo, porque é uma religião dominante, digamos assim, e quase todo mundo, no mínimo, acredita em Deus, tanto em produções nacionais quanto americanas. O problema é que todos eles parecem cristãos não-praticantes. Que, a nível de representatividade, é a mesma coisa que nada pra mim.

Quais personagens aparecem lendo a Bíblia? E indo à igreja? E participando de viagens missionárias? Quantos deles comentam sobre dúvidas bíblicas ou contam casos que aconteceram nos cultos? E críticas, eles fazem críticas? Eles concordam com tudo o que os pastores falam? Eles possuem conflitos entre fé e sociedade, fé e ciência? Como a religião deles moldou a personalidade, a infância e a adolescência deles? Isso passa pelo menos no Globo Repórter?

Eu raramente vejo coisas desse tipo fora das ficções cristãs. Por um lado, até entendo. Religião é uma coisa de nicho, digamos assim, mas, sei lá, é um aspecto tão grande e fundamental na vida de algumas pessoas! E não são poucas! E aqui eu digo sobre todas as religiões. Se é difícil pra quem é cristão, sei nem o que dizer sobre religiões africanas, budismo, entre outras. Acho que nunca vi um personagem budista na ficção.

Eu procurando representatividade religiosa decente na ficção

Então eu conto histórias sobre eles. Os protagonistas e boa parte dos personagens de NS1 são cristãos. Há cenas que se passam na igreja e até uma versão bem doida de Jesus aparece. A mãe da Lídia de "Não Sei Lidar com Gênios" é católica, a protagonista de "Não Sei Lidar com Malas" também é cristã. Eu soco crente em todos os lugares. ME SALVEM.

Mas, assim, não são histórias sobre a Bíblia ou sei lá. Não estou evangelizando ou pregando para ninguém. Os personagens fazem parte de uma religião e é isso aí. É como se eles fossem fãs de esporte ou roqueiros ou amassem moda ou, sei lá, fossem bissexuais. É uma característica que molda o personagem, mas não dita quem ele é por inteiro nem o gênero da história. NS1 é sobre cada pessoa ser um universo de possibilidades, Gênios é sobre acreditar em si mesmo e Malas é uma história sobre relacionamentos abusivos. Em todos eles, inclusive, eu faço críticas diretas e indiretas sobre o modo como igrejas e crentes em geral simplesmente cagam tudo.

No livro que estou escrevendo agora, um dos protagonistas é (adivinhem) cristão e o outro é gay. Será ficção cristã ou literatura LGBT?

COMO SE VENDE ISSO?

Sabe, eu escrevo o que eu gostaria de ler. Eu não quero ser obrigado a ler aqueles dramas chatos, histórias de superação através da fé e sei lá mais o quê pra conseguir me ver. Eu quero ler comédias, histórias de ação e aventura, suspenses, histórias sobre adolescência que tratam de temas diversos, eu quero tudo isso com personagens crentes. Então, eu escrevo.

Eu não sei se eu faço bem, isso já são outros 500, mas eu tento. Talvez eu ainda soe muito proselitista ou as pessoas ficam perdidas com as referências religiosas, estou analisando isso e vendo como posso melhorar. Parar eu não consigo mesmo. Eu me seguro, mas, quando vejo, já estou fazendo piada com Jesus, vida após a morte e voto de castidade. Um caso perdidíssimo mesmo.