Estou dando uma de besta e rabiscando uma coisa chamada Projeto Moana, que vocês podem ter uma ideia do que se trata lendo aquele outro texto que publiquei sobre a lição transformadora de vidas que tirei do filme. Daí que, enquanto eu estava pensando em SAIR DA MINHA ILHA, fiz uma coisa totalmente na contramão neste Carnaval: fiquei 5 dias confinado com minha rapeize num retiro da igreja.

Gente, 5 dias offline, com mais ninguém no mundo além deles. SOCORRO.

Verdade seja dita, eu gostei bastante, mas outro dia entro em detalhes. O fato é que, com CINCO DIAS trancafiado dentro da ilha, eu tive que me defender o tempo todo. Foi meio desgastante.

Era impossível fugir das conversas de "e as namoradinhas?" e "Quantos anos você tem que ainda não casou?" quando os casais estavam todos ali ajeitadinhos. Também não tinha como impedir que todos apontassem pra mim como a alma solitária, triste e doente quando todo mundo resolvia se juntar para virar a noite numa farra e eu preferia ir dormir ou ver série.

Talvez você pense: Mas, ai, Felipe, foi para o retiro ver série podendo conversar com as pessoas ao redor, fazer amizades e se entrosar mais?

Sim. Risos.

Gente, que conversas CHATAS. Sou uma pessoa totalmente diurna, mas, se o evento noturno vale a pena, eu até faço um esforço. Esses não valiam. As conversas bestíssimas girando em torno de quem gostava de quem, quem ia ficar com quem (amo crente), brincadeiras infantis... Me sinto um idoso de 72 anos falando isso, mas, sério, Deus me livre. Eu me sinto muito deslocado no meio de mais de 10 pessoas, ainda mais quando elas parecem falar outra língua. Não dá pra falar de livros, de seriados, de experiências da vida (todo mundo mais novo que eu, ninguém saiu da ilha), de cultura pop, ninguém sabe o que é Twitter, acham que a internet é o Facebook, que Jesus é igreja, é uma morte horrível às vezes.

Tava lembrando da última vez que fui dormir antes de todo mundo porque não queria participar de uma brincadeira projetada para arrumar par para todo mundo no retiro, e uma pessoa veio falar comigo.

- Mas, Felipe, o que você vai contar para os seus netos?

Antes de tudo, nem netos eu acho que terei. Risos. Mas apenas desconversei, sabe? Eu poderia responder que, bom, talvez eu possa contar daquela vez que saltei de um tronco de 12 metros e me agarrei num trapézio. Ou sobre quando eu entrei num barco que passou embaixo de uma cachoeira ou quando enfiei mais de 20 pessoas dentro de um ônibus chique para doar sangue. DUAS VEZES. Também poderia contar que vi Lázaro Ramos e Taís Araújo glorificados em cima de um palco e que patinei no gelo, andei de Kart, escrevi um livro, participei de uma corrida de obstáculos, fiz trilhas, fiz rapel, visitei lugares, experimentei comidas diferentes, virei compositor, fiz um monte de amigos e sabe lá mais o que farei até de fato ter meus netos hipotéticos. Eu honestamente acho que é um currículo de avô bastante interessante. Eu ia querer ser meu neto.

O problema de estar na ilha é esse. Você não quer fazer as mesmas coisas que todo mundo faz, então a impressão que fica é que você não faz NADA, que você tem NADA, que sua vida é um NADA. Mas não é verdade, a gente tem sempre que ter isso em mente. As pessoas não fazem mesmo por mal, pelo menos as daqui gostam muito de mim, mas o tempo todo vão vir as alfinetadas, as perguntas para nos deixar desgraçados da cabeça, a realidade para nos deixar miseráveis desejando coisas que nem queremos de verdade...

Não tenho paciência para ficar me justificando o tempo todo, às vezes a melhor resposta é um "ata" da Mônica, mas acho que vou literalmente imprimir minhas realizações pessoais pra distribuir quando a banca avaliadora da minha vida aparecer no retiro da igreja do ano que vem. Ou isso ou já ser Moana o suficiente para passar o Carnaval num lugar totalmente diferente com gente que realmente me entende, com quem eu passaria noite adentro gargalhando e conversando.