Ou: Aquele em que eu deixo um filme da Disney reger minha vida.



Estava eu falando pra Juliana Fina Flower que tinha visto Moana e achado apenas ok. Tinha umas cenas bonitas, músicas legais, a mensagem falava com todo mundo, mas, sei lá, tanto tempo que não assisto Disney nos cinemas, todo filme é esburacado assim? Achei a história toda meio pobrinha. A Ju ficou toda:

- Nossa, eu AMEI. Moana segue os padrões clássicos da jornada do herói, além de conter o Mar Mítico no sentido literal, Felipe.
- QUÊ?
- Sim, várias histórias usam do conceito do Mar Mítico, que é o que leva o herói rumo ao desconhecido por uma jornada de autoconhecimento.
- Oi???

Inventei esse diálogo, porque não lembro exatamente das palavras dela, mas foi mais ou menos isso aí. Eu reclamando que o porquinho da Moana não foi na aventura e Ju falando coisas como Mar Mítico. Eu disse que ia procurar por essas referências todas depois, mas isso nunca aconteceu.

"Bem" não era exatamente uma palavra que eu poderia usar para descrever meu eu interior naquele dia, porque, apesar de Ju ser uma das melhores pessoas no meio de uma crise, eu estava lidando com uma crise gigante, aquela de perceber de repente que toda minha rapeize estava MORTA.

Meus amigos se foram. Todas as pessoas que se importam comigo estão deixando de se importar porque têm mais o que fazer. Todos estão sumindo. Estou ficando mais sozinho do que gostaria. O FIM ESTÁ PRÓXIMO. Vou morrer sem ninguém. Gente, o desgraçamento foi tão grande que eu comecei a pesquisar no Google coisas como "Vida social pós 30" (tenho 25), "Como não ficar sozinho na terceira idade", "Pessoas que nunca se casaram mas são felizes", "Estilos de vida doidos que não dependem de pessoas". Juro pra vocês.

Coitada da Ju que teve que ouvir essa ladainha toda sendo repetida sem parar, mas foi numa mesa de uma pizzaria que ela me disse VERDADES, e acho que não há lugar melhor que uma mesa de pizzaria para VERDADES serem ditas, e tudo mudou.

- MEU DEUS DO CÉU, FELIPE. O MUNDO É MAIS DO QUE ISSO. Mais do que essas pessoas aí que você chama de rapeize. Elas não são sua vida. Existem várias outras pessoas. Dizer que não tem mais ninguém chega até ofender as outras pessoas que se importam com você.

Eu fiquei lá perplexo e impactado, mas disse que só ia digerir aquelas revelações 17 horas depois, preferi digerir só pizza naquela hora mesmo.

***

Ela tinha razão. Além da minha rapeize, que são pessoas que vejo com frequência e que moram a 15 minutos de distância de mim, eu fiz excelentes amigos. No Ensino Médio, na faculdade, no blog, no Twitter/Facebook, no curso de inglês e até no trabalho. Muitas pessoas! Mas, de alguma forma, eu estava olhando apenas para os de perto. Vou culpar Friends por me fazer querer viver essa utopia de amigos íntimos que moram no mesmo prédio e se vêem TODOS OS DIAS após o trabalho num Café confortável. Isso não existe. Quer dizer, pra mim. Minha rapeize nem toma café. O que acontece é que os amigos de longe são tão amigos quanto os de perto. Não são apenas "pessoas especiais" que eu entro em contato quando quero fazer alguma coisa aventureira. Não! São amigos. De chamar pra sair, sim, mas também de jogar conversa fora, falar sobre a vida, dividir segredos e crises, compartilhar vitórias e derrotas e tudo que envolve estar vivo. Eu criei essa barreira mental geográfica sei lá por que. E daí que tenho que pegar 1 ou 2 conduções para vê-los? E daí se eles moram em outro estado? E daí se não posso vê-los todos os dias?

O que estava me matando nessa história de rapeize morta é que eu ficava vendo a vida da rapeize se desenvolver e eu ficando pra trás. Está cada vez mais difícil de eu me encaixar. Agorinha mesmo eles se marcaram todos numa imagem no Facebook sobre um congresso para noivos e estão me perguntando como fazer para comprar ingressos pela internet (eles nunca sabem de NADA que envolva internet além do Facebook). Eu provavelmente jamais irei num congresso desses e isso me deixa pra baixo DE UM JEITO...

Acontece que eu não quero ir num congresso desses. Moramos no mesmo bairro, somos da mesma igreja, conhecemos as mesmas pessoas. Eles seguem aquele comportamento padrão de namorar, casar, ter filhos, sair com casais, trabalhar pra sustentar a família, frequentar cultos na igreja e só. A vida deles é toda essa e não há nada de errado nisso. Mas eu não quero isso pra mim. Não é a minha vida. Eu fico triste por não dar os mesmos passos que eles, sendo que eu NEM QUERO MESMO, mas dá aquela impressão de que estou preso nesse lugar e ficando cada vez mais pra trás.

NÃO É VERDADE.

Posto essa e outras cafonices do bem 

O que eu quero é viver novas experiências, tipo Escalar! Ir numa praia de nudismo! Ver neve! Mergulhar! Riscar A Lista toda! Eu quero ser fluente em inglês, quero escrever boas histórias, quero compor boas músicas. Quero poder explorar minha sexualidade de uma forma que faça sentido pra mim. Quero me engajar em projetos sociais, quem sabe viajar, quero conhecer novas realidades, vidas diferentes das minhas, tipo a Moana que vive numa tribo da Polinésia. E em muitas dessas coisas eu já dei meus passinhos, e acho tudo maravilhoso. Essa é a minha vida!

Aí o filme e a conversa com a Ju encaixaram certinho e faz DIAS que não paro de cantar a música tema (O HORIZONTE ME CHAMA PRA IR TÃO LONGE, SERÁ QUE EU VOU?), porque é claro que EU VOU. A vida na ilha é legal, eu amo a ilha, tem gente boa, galera consegue ser feliz, mas fazer o quê se quero mais? EU QUERO O MAR. Eu vou pra longe ver meus amigos, sim, vou com quem quer ir comigo, vou fazer o que quero com quem também quer, e essas pessoas farão parte da minha vida. Os estilos de vida doidos são mesmo reais, eu achei no Google Hahahahah EU QUERO SAIR DA ILHA.

EU SOU MOANA. DE NOVA IGUAÇU. EU QUERO VIVER.


Estou me sentindo livre & leve. Nossa, gente, um mundo de possibilidades se abriu. Vamos acompanhar.