Tava aqui lendo e gargalhando com o relato da minha primeira doação de sangue (sim, me aprecio), e ele termina assim:

"A experiência pra mim foi muito positiva, recomendo a todos. Vá para ajudar alguém, vá por diversão, vá pelo lanche, apenas vá. Eu pretendo continuar e, da próxima vez, levar mais gente."

Quando escrevi isso, eu não tinha ideia que o meu "levar mais gente" seria UM PLANO AMBICIOSO DE ARRASTAR CINQUENTA E QUATRO PESSOAS PRA DOAR SANGUE. A vida é uma caixinha de surpresas, não é mesmo?



Mas, Felipe, de onde veio isso?

 daqui.

Vocês lembram que eu voltei pra igreja com fogo nos olhos e no coração e disposto a FAZER alguma coisa? E que tinha uma lista com trocentos projetos e tal? Então. O primeiro projeto que brilhou na lista foi fazer essa doação de sangue em grupo. É uma necessidade constante dos bancos de sangue (sério, gente, eles realmente precisam de mais doadores), é gratuito, é amor e o esforço pra realizar essa ação é mínimo. Se a igreja se recusasse a participar disso, olha, eu mandava enterrar porque já tava morta mesmo.

O ÔNIBUS

O que eu não sabia era que o banco de sangue do INCA (Instituto Nacional do Câncer) aqui no Rio de Janeiro manda um ônibus gratuitamente para levar e trazer pessoas para doação de sangue se você garantir, pelo menos, 30 doadores. No ônibus, tem lugar para cinquenta e quatro pessoas. Nisso, você já percebe que, repetindo, os bancos de sangue estão MESMO necessitados. Eu só descobri essa informação porque o amigo de um amigo trabalha no INCA e uma igreja perto da minha já tinha conseguido esse tal ônibus. Daí entrei em contato com eles para saber como funcionava (não tem nada no site do INCA sobre isso, é meio desatualizado) e a coisa toda se desenrolou. Mas, caso você que está lendo tenha interesse, basta ligar para o INCA e conversar sobre agendamento de grupos e sobre o ônibus. Eles são bem simpáticos ao telefone (da última vez que verifiquei, os números eram esses (21) 3207-1580 / 3207-1021 / 3207-1058).



AS PESSOAS

Então, PLAH, eu já tinha um ônibus. Precisava dar um jeito de socar gente nele. Na minha igreja, tem por volta de 100 membros, mas, desde o começo, meu plano nunca foi preencher as 54 vagas com essas cabeças. Eu queria outras pessoas. Pessoas dos arredores da igreja, qualquer pessoa, independentemente de religião. Daí seria uma porta aberta da igreja para a comunidade, todos juntos por uma boa ação, geraria interação, igreja conhecendo a comunidade e vice-versa. Então separei metade das vagas pra igreja e a outra metade para outros interessados.

Eu não tinha as 27 pessoas da rua, então fui caçar. Juntei um grupo e fomos de portão em portão nas ruas ao redor da igreja explicando a situação e perguntando quem teria interesse de doar. Deus sabe o quanto eu tenho pavor de forçar as pessoas e incomodá-las, mas era por uma boa causa e, para minha surpresa, as pessoas foram muito solícitas. Teve muita gente com impedimentos (principalmente doenças), mas conseguimos mais de 20 nomes. Com todas elas, deixamos um papel informativo que eu mesmo fiz com informações retiradas dos sites do INCA e do Hemorio, dizendo quais eram os impeditivos. Há coisas básicas como peso (tem que ter mais de 50 kg) e idade (entre 16 e 70 anos), mas há coisas pessoais demais que não tem como perguntar assim na cara dura, nem é mesmo da nossa conta (Já usou drogas alguma vez? Fez sexo sem camisinha recentemente? Tem AIDS?). Então, deixei esse papel com elas (vocês podem ler as informações aqui).

Depois, mais próximo do dia da doação, ligamos para todos que aceitaram doar sangue, e alguns, após lerem as informações do papel, disseram que não poderiam doar. Achei que foi uma boa estratégia, acredito que ninguém tenha sido constrangido.

COMIDAS

Eu achei legal fazer um café da manhã e almoço gratuito pra todo mundo. O ônibus ia sair da igreja 7h da manhã (!!!) (não fui eu quem escolheu esse horário) e traria o pessoal de volta 13h/14h. Imagina você chegar em casa e ainda ter que fazer almoço. Achei puxado. E era bom garantir que ninguém fosse em jejum ou comesse coisas gordurosas demais, então reuni um grupo e ajeitamos tudo. Achei sucesso também, fica aí a dica.



GENTE FURONA

Partiu meu coração e acho que eu ainda não superei, mas não cheguei nem perto das 54 pessoas que caberiam no ônibus. Na verdade, nem as 30 que o INCA pediu eu consegui. Fuén. Depois de algumas desistências e imprevistos de última hora, eu ainda tinha umas 40 pessoas que confirmaram NO DIA ANTERIOR, mas cadê que apareceram? Tanto gente da igreja (amo crente) quanto de fora. Só metade do que eu esperava no dia deu as caras e fui no ônibus com mais 20 pessoas. Depois, um monte de gente veio me dizer que perdeu a hora, que não ouviu o despertador, que esqueceu etc etc etc. Humpf.

 "Felipe! Me perdoa! Acredita que eu esqueci? kkkkk"



MAS COMO FOI?

Depois que eu desisti das pessoas que não iam mesmo aparecer, resolvi simplesmente curtir a ação. Foi um clima muito legal! O café da manhã cheio de frutas, biscoito, suco, a mesa bonita, as pessoas sentadinhas conversando. Eu fiquei todo HIHIHIHI vendo algumas pessoas das quais eu mesmo bati no portão aparecendo.

(E, gente, o ônibus! Não sei vocês, mas sou pobre e estou acostumados com ônibus bem... comuns. Como era um ônibus gratuito, pra doação de sangue e tal, eu não estava esperando grandes coisas (até de carroça a gente ia, sinceramente). Mas o INCA foi maravilhoso e mandou um ônibus de viagem que me deixou até com vergonha de não preencher todos os assentos. Poltrona delícia, reclinável, ar-condicionado, televisão. Só eu mesmo pra me sentir rico dentro de um ônibus, mas enfim. FOI EXCELENTE. INCA pra sempre no meu coração)

Achei rico

Lá na hora de doar mesmo só tinha o meu grupo. Não teve fila, horas de espera, nada disso ninguém quer doar sangue. Preenchemos o formulário e fiquei fascinado com a pergunta inédita "Você costuma frequentar casas de banho?", que eu acho que pode ser entendida como "Você já fez a alegria da moçada em sauna gay?". Enfim. Teve o lanche, que eu particularmente achei meio pobrinho (INCA, desculpa, você ainda é maravilhoso, mas o Hemorio venceu nesse quesito), e tudo foi ok na doação propriamente dita. Ninguém do meu grupo passou mal ou desmaiou. Até quem tinha medo de agulha encarou o desafio e disse que quer voltar.

Doar sangue é amor!


LIÇÕES APRENDIDAS

Acho que a principal lição foi MEU DEUS DO CÉU, PODEMOS SER TÃO INCRÍVEIS. Força de vontade e propósito é tudo na vida. A segunda, também tão importante quanto a primeira, é que só metade das pessoas vai aparecer, então você precisa do dobro de gente necessária se quiser ter 100% de sucesso.

(Eu já sei que vou precisar de mais do que 20 nomes do pessoal da rua, que esse ônibus tem que aparecer um pouco mais tarde porque 7h da manhã é considerada uma hora ingrata e que eu preciso de, sei lá, um grupo disposto a acordar os demais no dia da doação)

Honestamente, eu não sei se o INCA ainda quer papo comigo, risos. Eu prometi pelo menos 30 pessoas e só apareci com 21. Mas, se tudo der certo, pretendo voltar em dezembro!

***

Essa foi uma experiência PORRETA pra mim. Nem muito pela doação de sangue, que já me acostumei, mas por fazer algo no mundo real, sabe? Sair um pouco da internet, olhar na cara das pessoas e agir. Eu me surpreendi comigo mesmo por ter feitos coisas que não imaginei que fosse capaz. E fiquei ainda mais feliz que tive ajuda. Confesso que ainda lembro desse dia com um sentimento agridoce por conta do número baixo de pessoas. Foi uma vitória derrotada? Uma derrota vitoriosa? Mas sei que o que foi feito já está feito, o sangue chegou onde devia e a única coisa que posso fazer, se for possível, é encarar o desafio de novo e trabalhar para ser excelente, incrível e FLAWLESS dessa vez.

(Se você tem sugestões de como melhorar esse processo ou tem alguma informação valiosa sobre doação de sangue, ME CONTA)

Vamos acompanhar!