"A Patrulha da Fraude são as forças imaginárias e aterrorizantes dos adultos "reais" que você acredita - em algum nível subconsciente - que virão bater à sua porta no meio da noite para dizer: Estamos de olho e temos provas de que você não tem A MENOR IDEIA DO QUE ESTÁ FAZENDO. Você é acusado do crime de dar um jeitinho, culpado de só inventar merda, e na verdade você nem merece seu emprego, vamos levar tudo embora e CONTAR PARA TODO MUNDO" 
(A Arte de Pedir, pág 46, 47)

Gente, eu sou muito culpado. A Patrulha da Fraude nem ia ter muito trabalho em juntar provas contra minha pessoa, porque eu dou tudo de bandeja mesmo. Eles iam ver as discussões infantis que ainda tenho com a minha mãe, iam vasculhar meu celular todinho e achar os episódios de My Mad Fat Diary e Skins nele. Iam achar as meias coloridas que eu gosto de usar na minha gaveta e descobrir como eu ajo dramaticamente quando fico doente. Eles COM CERTEZA iam tirar meu emprego de mim, porque, gente, quem emprega pessoas que escrevem blogs pessoais? Eu posto coração na internet, onde que um adulto com um diploma em seu nome faz isso? Eu ia estar no meio de uma reunião com meu chefe, e a Patrulha da Fraude chegaria gritando SABIA QUE ELE GOSTA DE LIVROS PARA ADOLESCENTES? SABIA QUE ELE GOSTA DE TODDYNHO?


Numa conversa com a Anna Vitória, eu disse que gosto quando as pessoas conseguem ver quem eu realmente sou, whole-hearted total (como Brené Brown diz), e ela me respondeu: "Felipe, só agora me ocorreu que eu não tenho a MENOR IDEIA do que você faz da vida, que tipo de whole-hearted cê tá pensando que é? #misterioso #felipemente" Hahahahahah Eu sou de Exatas, gente. Analista desenvolvedor. Eu faço sites,  desenvolvo serviços online, conserto erros em sistemas, essas coisas todas. Tudo a ver com escrever livros e ser compositor, não é mesmo? Risos. Eu sou a pessoa de Exatas mais de Humanas que conheço. Imaginem como a Patrulha da Fraude fica atiçada.

Teve uma vez em que eu estava procurando emprego e tinha encontrado uma vaga numa empresa que me parecia maravilhosa. Me inscrevi, torci e finalmente aconteceu de me chamarem para uma entrevista. E, nossa, foi uma entrevista mesmo. Me perguntaram de tudo, e eu só ali sentindo a ~falsidade~. Vocês já sentiram isso? Principalmente em entrevista de emprego, eu sinto demais aquela sensação de que você está tentando se passar por alguém que você definitivamente não é. A gente soa mais organizado, mais apaixonado pelo que faz, usa palavras como "pró-ativo" e "perfeccionismo" e diz frases do naipe de "trabalho em equipe é essencial". Nem é exatamente contar uma mentira, sabe? É mais como omitir todos os seus defeitos e varrer a poeira pra baixo do tapete. Ah, qual é, vocês sabem.

Daí que o cara me perguntou o que eu gostava de fazer no meu tempo livre.

- Bom, eu... gosto de ficar na internet.
- Mas fazendo o quê exatamente?

Gente. VENDO PORNOGRAFIA, CARAMBA. Quis responder só pra causar um choque. Naquele momento, a Patrulha da Fraude estava na porta da sala só esperando eu falar algo como "Pesquisando novas tecnologias" ou "Me atualizando sobre o mercado da Informática" ou "Lendo notícias do mundo digital", mas cansei, sabe.

- Ah, eu gosto de ler e escrever. Blogs, sites, redes sociais em geral, e-mails... Eu amo e-mails.
- Humn... Mas blogs e sites de quê? Tecnologia?

Risos.

- Não, pessoais mesmo. Ou de entretenimento.
- Ah... Mas, assim, Felipe, ontem por exemplo (tinha sido feriado), o que você fez?
- Ontem? Eu...

Confesso que fiquei uns segundos pensando em como responder, e ele se adiantou.

- Porque você sabe, né? Nós geeks gostamos de programar, de trabalhar. Ontem eu fiquei em casa codificando.


Eu quase gargalhei. De alguma forma, a entrevista desviou do foco e eu nem tive que dar essa resposta, mas sabem o que eu tinha feito no dia anterior? Isso mesmo, IDO PARA A PRAIA COM OS AMIGOS. Gente, pelo amor de Deus, né? Era feriado. FERIADO!!! Meu amigo, o que você estava fazendo trabalhando? Não existe um Nós Geeks, só vocês mesmo, me deixa fora disso.

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De vez em quando, eu tomo esses choques de realidade, principalmente quando estou na Firma atuando com outros adultos. As roupas, as conversas, os assuntos, a seriedade dos e-mails profissionais, o objetivo de gerar um bom produto que vai impactar diretamente na vida de outras pessoas... Aquele baile de máscaras todo. A gente é tão A GENTE ao mesmo tempo que tem várias responsabilidades. Diz Amanda Palmer que todo mundo ali está dando um jeitinho também. Diz ela que essa "síndrome do impostor" é um sentimento universal. Acontece até com policiais. E com a Amelia operando aquele tumor gigante da Herman em Grey's Anatomy neurocirurgiões. E com o seu chefe. E com o presidente dos EUA. Gente, imagina a Patrulha da Fraude intensa que não deve estar apitando no ouvido do presidente dos EUA. Pode ferrar nossa cabeça às vezes, mas eu tento não deixar isso acontecer. Primeiro porque eu ando gostando muito de quem eu sou e me RECUSO a sentir vergonha a ponto de negar minha personalidade e meus gostos. Segundo porque, bom, se a síndrome pega todo mundo, mas todo mundo MESMO, estamos no mesmo barco. O mundo seria um lugar melhor se todos reconhecessem isso e parassem de "Noooossa, fulana é advogada e faz isso?" ou "Não acredito que ele, sendo um PROFESSOR, gosta daquilo". Somos só pessoas, gente. Ninguém aqui é robô não (perdão pelos robôs que acompanham o blog). Não somos o nosso trabalho. A gente tenta dar o nosso melhor, mesmo sendo do jeito que somos, e isso é o suficiente. Tem que ser.

Confesso que não consegui aquele emprego da entrevista. Mas também confesso que já dispensei outros que me queriam porque eu teria que ser outra pessoa pra lidar com eles. Mas deve haver um equilíbrio entre ser você mesmo e conseguir pagar as suas contas, eu acredito. O mais importante é não deixar a Patrulha da Fraude te derrubar. Eles vão te apontar sempre, mas, ah, manda ir cagar no mato, todo mundo tem que sair da cama pra ganhar a vida e há coisas mais importantes para se preocupar do que descobrirem seu grande segredo: você é uma pessoa.

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Só se você quiser, tem 2 coisas que você pode fazer por mim caso tenha lido e gostado desse texto. A primeira é ler esta lista maravilhosa do Buzzfeed com 17 dicas úteis para lidar com a síndrome do impostor (sério, vocês merecem ter esta lista na vida de vocês). A segunda é compartilhar este post nas suas redes sociais para espalhar a palavra da sábia Amanda Palmer que outras pessoas se toquem de que a Patrulha da Fraude é uma bostinha e cheguem aqui no blog para, quem sabe, bater papo comigo. Agradeço demais :)