(Ou: Maggies do mundo)

Eu nem estava dando muita bola para a personagem, mas tem uma cena em que Maggie Pierce está super triste com uma notícia que ela recebeu no começo do episódio. Ela não conta para ninguém, nem para quem está assistindo o final dessa temporada de Grey's Anatomy cheia de dramas, tragédias e mortes injustas, embora a gente veja ela sofrendo com isso o episódio todinho. Só no final que ela desiste de guardar a dor e dá uma chorada básica na frente da Meredith, nossa amada e odiada PhD em DESGRAÇAS, e conta o causo todo. Era um problema no casamento dos pais dela. E a Meredith fica "Mas, gente, por que você não me contou antes?".

A resposta da Maggie não poderia ser diferente da que ela deu. "Como falar com você de problemas triviais, SE SUA VIDA É TÃO DESGRAÇADA E TODO MUNDO AO SEU REDOR MORRE?". Ok, ela não disse exatamente isso mas deveria ter dito, pois é a verdade.


"Não cresci como você. Nunca perdi alguém. Nunca nem um gato meu morreu, ainda tenho todos os meus avós. Nunca houve escuridão em minha vida, nada aconteceu na minha vida, então não posso falar disso com você"

MAGGIE, ME ABRAÇA, VEM FALAR COMIGO. Posso dizer com segurança que nunca vi esse discurso na ficção, porque, ouvindo a Maggie desabafar, eu senti aquele >>>EXATAMENTE ISSO<<< que só acontece na primeira vez que alguém realmente te entende. E, nessa cena, eu entendi a Maggie e sei que ela me entenderia se pudesse me ouvir. Talvez um de vocês lendo esse post saiba do que estou falando e se sinta representado também.

Se vocês perguntarem o motivo, eu não saberei responder, mas, gente, é bem isso aí, "nunca houve escuridão na minha vida". Não tem Hello Darkness My Old Friend e nem Queria Estar Morta do lado de cá. Eu sempre me senti amado por alguém. Pessoas em geral sempre me elogiaram por uma coisa ou outra. Tudo bem que tenho ambições baixíssimas na vida, mas sempre pude ter o que eu queria ter naquele momento. Eu nunca passei por uma dificuldade financeira. Nunca fiquei com fome ou frio, e nem desesperado, por não ter dinheiro. Eu nunca perdi um ente querido. Eu ainda não sei o que é lidar com o luto, eu não sei o que é sofrer com a ausência de uma pessoa que nunca mais estará ali de volta. Eu fico até com vergonha de falar nas conversas sobre perdas difíceis, porque o mais próximo que tenho de uma referência é a morte do meu primeiro cachorro. Eu posso contar nos dedos de uma mão só as pessoas muito horríveis que já apareceram no meu caminho (talvez zero). Eu nunca passei por nenhum trauma, não tenho nenhum transtorno psicológico, não me considero triste. Não tenho problemas com a minha aparência, nunca sofri uma desilusão amorosa. Não faço parte de nenhuma minoria que é alvo de preconceito, de forma que nunca me senti prejudicado/injustiçado por ser quem eu sou. Nunca sofri violência por conta disso. Eu muito raramente passo por essas emoções negativas fortes de sentir muita raiva, chorar escondido, entrar em pânico. Os meus dramas são facilmente transformados em piadas por mim mesmo, porque de fato dá para rir de tudo. Parece OSTENTAR felicidade, mas são apenas fatos. Às vezes, eu me sinto até culpado de estar feliz com a minha vida quando outros penam tanto. Então, Maggie, eu te entendo demais.

 (Aparentemente, poucos podem dizer isso)

Veja bem, eu não estou reclamando, pois não sou idiota. Deus, se você estiver lendo esse post, favor não entender que quero ter um câncer. É só que é desconfortável falar em qualquer lugar com qualquer pessoa, porque todo mundo JÁ SOFREU TANTO. Na internet em geral, eu mal consigo me identificar. É tanta evidência de depressão, de família bosta, de racismo, machismo, homofobia, desemprego, gente tomando altas bandas da vida. É até complicado chegar numa pessoa dessa e dizer PENSE POSITIVO! PARE DE RECLAMAR! Não fale de crise, trabalhe! Por que o que eu sei da vida, né? Mas também Deus me livre ser inconveniente assim. O problema é que nem de consolo eu sirvo. Eu não entendo aquela dor. Nem a pontezinha da vulnerabilidade e da empatia que surge com o "Já estive no seu lugar, sei como é" eu consigo erguer.

E eu até tenho alguns problemas, sabe? Rola umas crises doidonas de vez em quando. Mas... como você que é magro reclama de estar engordando para pessoas que estão há séculos com dificuldade para emagrecer? Como você reclama do seu salário pra gente que nem emprego tem? Como você vai chorar que perdeu seu cachorro pra alguém que acabou de perder os pais num acidente de carro? Como reclamar de um dia chatinho pra alguém que odeia a própria vida? Eu prefiro nem falar, né, porque tudo soa como classe média sofre, male tears, reclamar de barriga cheia etc, então apenas... fico quietinho.

Diz a Meredith que o bom é justamente você se abrir, porque essas pessoas vão poder te dizer que dá para sobreviver, que existe luz no fim do nosso túnel, já que eles passaram por coisa pior. Eu nem sei dizer se ela está realmente certa, mas gostaria que estivesse. Não estamos competindo pra ver quem sofre mais. Eu fico perplexo quando vejo gente fazendo chacota dos problemas alheios, sem demonstrar nenhuma empatia, ou ainda passa por cima da pessoa. "Ah, você tomou um tiro? Grande coisa. E eu que já tomei TRÊS TIROS?". E olha que até eu caio nisso às vezes. Acho que a gente tinha que repensar isso aí.

Até porque eu adoro uma ceninha assim.