Quando eu decidi que já não dava mais para continuar frequentando uma igreja, eu senti que estava tomando uma decisão completamente inédita. Como assim você quer continuar sendo cristão, mas sem pisar numa igreja? Eu não tinha nenhuma referência. Eu não conhecia nenhuma pessoa nessa posição. Eu li e ouvi muitos críticos apontando que a igreja não era mesmo um mundo cor-de-rosa, porém, eles persistiam firmes nela. Foi assustador pra mim notar que, no meu caso, não havia essa opção. Eu me senti como o primeiro ser humano diferentão a desistir.

E, no começo, foi horroroso mesmo, porque todas as pessoas que eu conhecia que haviam abandonado a igreja tinham caído numa pobreza espiritual. Sem contar as que largavam completamente a fé e diziam que Jesus era uma invenção para manipular os mais fracos. Eu não queria ser um desses. Eu não era um desses. Fiquei meses sem saber como lidar, muito confuso. É o diabo agindo? É eu sendo dramático como sempre? Será que a igreja nem é tão ruim assim e eu estou de mimimi? Sera que eu sou um crente fraco e daqui a algumas semanas estarei me drogando e, sei lá, me prostituindo? Juro que pensei tudo isso.

Não tinha um caminho traçado pra mim, entende? Não tinha um "Ah, você saiu da igreja? Não tem problema! Siga Jesus por aqui". Não tinha, gente. O que tinha era essa ideia de que Deus e igreja-templo são a mesma coisa, você não pode ter um sem o outro. Sair da igreja foi tipo abandonar Jesus.

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Eu fico besta em como as coisas acontecem da forma que precisam acontecer. Se não fosse por essa situação toda, acho que o livro do Philip Yancey não teria brilhado TANTO pra mim. Quer dizer, foi mais que brilhar. O livro praticamente deu dois tapas na minha cara e gritou VAI ME LER OU NÃO? Gente, juro, eu por acaso estava olhando aquelas atualizações do Skoob e vi que a Aline estava lendo esse tal de Soul Survivor. Me pareceu só mais um livro crente no mundo, crente adora esse trem de exaltação e vitória, mas o subtítulo me tirou o ar: How my faith survived de church ("Como minha fé sobreviveu à igreja").

HOW MY FAITH SURVIVED THE CHURCH!!!
HOW MY FAITH!
SURVIVED!
THE CHURCH!
THE CHURCH!!!
THE FREAKING CHURCH!!!!!!!

Eu fiquei todo MEU DEUS DO CÉU, O QUE É ISSO NA TELA DO MEU COMPUTADOR? Foi daquelas situações em que a gente fala duas vezes antes de pensar, sabe? Porque eu falei pra todo mundo EU QUERO ESSE LIVRO. Nunca tinha ouvido falar, não conhecia o autor, era um livro em inglês que sabe Deus como eu ia fazer pra conseguir, mas eu sabia que precisava dele. Não demorou muito para as pessoas maravilhosas da minha vida (Rute <3) não apenas me contarem que o livro já havia sido lançado em português como também me mandarem um link com ele em PDF. Deus sabe como eu tenho agonia de livro pirata, mas, no mesmo instante que vi aquele link, cliquei e li os primeiros parágrafos. Não, eu devorei. Eu mergulhei neles. Eu chorei abraçado com eles. Eu casei com aquelas linhas e mudei meu nome pra Felipe Primeiros Parágrafos de Soul Survivor Fagundes. Gente, ELE SABIA. O PHILIP YANCEY SABIA. Tá aqui as primeiras linhas do meu histórico do Skoob, depois de eu ter comprado o livro (ninguém merece PDF, gente), que não me deixam mentir:

"PHILIP YANCEY, DEIXA EU SER SEU BFF, ME ADOTA, POR FAVOR, NUNCA TE PEDI NADA. Nossa, já na apresentação eu fiquei MUITO maravilhado com o quão certeiro o livro foi. No primeiro capítulo, eu já quis marcar umas 345387 frases. Que identificação! ELE SABE COMO É. Tipo, ele REALMENTE sabe"

Porque ele foi a primeira pessoa EM TODA MINHA VIDA ATÉ AQUELE MOMENTO que havia declarado sentir a mesma coisa que eu estava sentindo. Eu não estava sozinho! "Sou cristão, apesar da igreja", foi como o subtítulo ficou em português. APESAR DA IGREJA. Eu li o primeiro capítulo num misto de alegria e vontade de chorar, era como se falasse diretamente comigo. Eu ficava É EXATAMENTE ISSO! SIM! ASSIM MESMO! Alguém finalmente me entendia. Eu não estava maluco ou, sei lá, movido por Satã. E, agora, alguém ia me contar como uma fé faz pra sobreviver à igreja.

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Novidade nenhuma que achei o livro um amor pra vida toda. A abordagem do Philip Yancey foi não se colocar no pedestal da Verdade Absoluta e nem ditar fórmulas e regras para o sucesso. Ele apenas caminha com o leitor, do ladinho mesmo. No Alma Sobrevivente (título que ficou no Brasil), o autor conta em cada capítulo a história de uma pessoa que mudou a visão dele com relação ao evangelho, independentemente de igreja. Alguns dos nomes que encabeçam os capítulos nem cristãos são. Temos Martin Luther King, Gandhi, Tolstoi e Dostoiévski, para citar os nomes mais famosos, mas também temos pessoas das quais eu nunca tinha ouvido falar, personalidades contemporâneas e de séculos atrás, pessoas que o autor conheceu em vida e outras que ele apenas teve acesso aos seus escritos. Além de interessantes pra caramba (eternamente chocado com o que Martin Luther King viveu e pra sempre fascinado com o poder de Gandhi), cada capítulo trata de uma lição MARAVILHOSA, uma lição que a igreja aparentemente esqueceu. O que eu senti em cada página foi Essas pessoas sacaram do que realmente trata o evangelho de Jesus, tendo uma igreja ou não. Nossa, gente, foi aqui que eu aprendi sobre o poder destruidor e circular do ódio, sobre vulnerabilidade (a Amanda Palmer total poderia ter um capítulo nesse livro), sobre as bases do amor, cristãos na política, sobre graça, Deus na natureza, fazer o bem às pessoas, enfim, o livro me marcou de várias formas.

Verdade que no livro há altos e baixos, alguns capítulos são muito mais interessantes que outros. Também queria que houvesse mais mulheres (há apenas uma, mas, pelo menos, tratando de assuntos que não são exclusivamente femininos), apesar do leque de diversidade ser até bem interessante, com pessoas de várias nacionalidades, classe social e, quem diria, um homem gay entre os mentores do Philip Yancey. Tirando uma parte arrastada aqui e ali, foram 13 capítulos para aplaudir de pé.

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Mas, Felipe, ele te deu alguma resposta no final? Não apenas uma, não apenas a que eu queria, mas também umas que eu nem sabia que precisava, como tratar a igreja com mais compaixão, mesmo quando ela parece muito louca das ideias. Congregar numa igreja tem seu lado positivo e nós realmente precisamos de conexão com outras pessoas, mas existem tantas formas de alcançar isso! Viver Jesus é tão mais do que apenas ir todo domingo no mesmo lugar! No livro há exemplos de pessoas que abriram mão de suas vidas "normais" para se dedicar a ajudar os necessitados em outros países, a emprestar suas habilidades para uma causa nobre, a de fato agir de uma forma saudável, com amor e foco em Cristo. Outros continuaram em suas igrejas, mas agindo da mesma forma, dando vida às palavras que a igreja parece ter esquecido.

A experiência foi incrível pra mim. Todo dia que eu pegava o livro pra ler era uma alegria, um tapa na cara, uma voz dizendo TÁ TUDO BEM, CONTINUE A NADAR. Eu só tenho a agradecer pela existência desse livro que, por alguns dias, foi praticamente tudo que eu tive pra me segurar e não cair no abismo. Se você caiu nesse blog com o mesmo dilema que eu estava na época, como lidar com a igreja, eu recomendo esse livro DEMAIS.