Já faz um tempinho que eu queria falar desse assunto, mas sempre vinha adiando, adiando, adiando... Porque adiar é mais fácil que abrir a caixinha de surpresas que é tocar nesse assunto com qualquer pessoa. Dificilmente eu acho gente para concordar comigo, mesmo quem está mais próximo. O mais provável é gente ofendida, surpresa e com pena de mim. E uma boa parcela de gente curiosa pra ver onde a coisa toda vai dar. Tô enrolando demais...

MAS VAMOS AOS FATOS: 

1) Eu parei de frequentar igreja em julho do ano passado.
2) Eu continuo amando a Jesus da mesma forma.


Praticamente cresci dentro de igrejas. Eu nem tenho lembranças de quando eu não era cristão, a "cultura crente" sempre foi uma presença constante pra mim. Podem colocar mais de 15 anos de evangelho nas minhas costas. E eu sempre fui um cristão sério, sabe? Tipo, nunca levei na brincadeira. Eu realmente acredito em Jesus, na cruz e no poder do amor, por mais que minha visão tenha mudado (e ainda muda) nos últimos anos. O que eu estou querendo dizer é que igreja sempre foi importante pra mim.

E olha que eu era muito bom nisso. Quando eu gosto, eu gosto pra valer. Essa minha fé inabalável mais o meu senso de comprometimento e a minha personalidade meio nerd, meio cafona, me fizeram prosperar na carreira cristã. Eu mantinha o costume de ler a Bíblia (e gostava!), eu era assíduo nos cultos e reuniões, amo/sou Escola Bíblica Dominical, eu gostava de ajudar em tudo, eu dava bom exemplo. Eu virei basicamente um cristão prodígio.

Um cristão prodígio esquisito, preciso admitir, porque minhas ideias "subversivas", "liberais" e pouco ortodoxas sempre batiam de frente com as autoridades vigentes. Mas eram apenas divergências de pensamento, nada que me fosse de fato condenável. Eu deveria ter notado que alguma já não se encaixava aí.

Nos meus últimos meses dentro de uma igreja, eu estava no auge. Eu peguei a secretaria para arrumar porque, Jesus, estava uma bagunça. E nem era funcional, muita coisa feita nas coxas que me deixava louco. Era só questão de organizar com um pouco de dedicação. Não sei se vocês sabem, mas eu também gosto de cantar e, de alguma forma, haviam me colocado no posto de líder do Ministério de Louvor. Eu amo estar no ministério de louvor, ministrando as canções, sentindo que posso fazer a diferença num culto, levando uma mensagem que marque as pessoas. Tudo prosperando de boa na minha mão.

PORÉM, sempre tem um porém, eu não sei se vocês imaginam o trabalho necessário pra manter essas coisas de pé. Dica: Não era pouco. Eu passava as semanas organizando coisas, pesquisando, montando listas e mais listas, delegando tarefas, preocupado com as pessoas, com o andamento dos cultos, se estavam rendendo, se estavam dignos, se as pessoas estavam se sentindo bem e tal. Era compromisso de segunda a segunda, eu não sabia o que era sentir o tédio de domingo, porque domingo era o dia mais corrido da minha vida. Mas, veja bem, eu não reclamava. Na verdade, eu nem achava ruim, porque eu gostava de fazer aquilo tudo, gostava de me envolver, era amor. É ótimo você se empenhar numa coisa na qual você realmente acredita e ver crescer, dar retorno, independentemente do trabalho que dê.

Foi aí que a equação desandou: a igreja não dava retorno. Por mais que eu me esforçasse, a igreja não mudava. A igreja não era mais legal. Me ajuda a te ajudar, igreja, mas não rolava. Parecia que eu queria A e a igreja queria B. Em algum momento dessa caminhada, eu assumi que aquelas "divergências" na verdade eram quem eu sou e no que eu acredito mesmo e a igreja simplesmente não encaixava mais nesse ideal. Eu não me encaixava dentro da igreja. A igreja podia e pode até ser válida e boa para algumas pessoas, mas, para mim, tinha perdido o propósito.


Era gente se importando mais com coisas do que com pessoas. Era a religião acima do amor. Era um apego desmedido a tradições e costumes vazios em detrimento de amar o próximo da forma devida. Eu via que as pessoas começavam a frequentar a igreja em busca de exaltação e riqueza. Quem já estava anos lá dentro julgava com fervor quem estava começando. Eram muitos dedos apontados, muitos super santos, muitas regras opressoras e eu sei lá onde escondiam a graça de Deus. Às vezes, circulava até um ódio violento. Notar isso tudo foi me matando de uma tal forma que eu já não tinha prazer em fazer mais nada para aquele lugar prosperar. O que eu vi foi um tempo precioso sendo desperdiçado, energia sendo jogada fora em picuinhas desnecessárias e pessoas achando que está tudo bem. Amigo, NÃO ESTÁ. A igreja, na minha visão, tinha virado um ambiente hostil, cheio de juízes e sem propósito na Terra. Um lugar em que as pessoas vão aos domingos para sei lá fazer o quê. E, deixando claro, não eram problemas exclusivos da minha última igreja, eu via que era um problema geral. Tipo, 100% das igrejas que eu conhecia eram assim. Era só sentar e conversar com qualquer cristão sobre a congregação dele que os sintomas apareciam.

Eu simplesmente desisti. Joguei a toalha. E estamos aí até hoje tentando trilhar um outro caminho. Confesso que no começo foi difícil. EU TINHA TANTO TEMPO LIVRE. E eu ainda gostava das pessoas, foram, tipo, ANOS da minha vida lá. Foi como arrancar um braço. Eu precisei fazer isso, foi a minha  mudança de atitude. Era isso ou ficar infeliz a vida inteira.

Ouvi muita lamentação da parte da família e de amigos. Mas, Felipe, LOGO VOCÊ? Você é um menino tão bom, como assim largou a igreja? O que Deus te fez? VOLTE PARA OS CAMINHOS DO SENHOR. Você ficou maluco? Você anda lendo livros espíritas? Aposto que são esses livros do mundo que você lê. Deus está com saudades de você, Felipe! Você deve estar em pecado e não quer falar. Tá fornicando? Não olhe para as pessoas, olhe para Jesus. A obra de Deus não pode sofrer.

Juro que de uma dessas eu até ri. Porque, gente, eu sou a mesma pessoa. Nada mudou. Nada. Verdade seja dita, eu me sinto até melhor. Voltar para os caminhos do Senhor? Mas eu nunca saí! Deus está com saudades de mim? Mas, Deus, a gente não conversou, tipo, horas atrás? Eu continuo lendo a Bíblia, falando com Deus, tentando praticar e espalhar amor, compondo minhas músicas cristãs... Eu não abandonei nada. A questão é que igreja não é Deus. Igreja é igreja, Jesus é Jesus. Não são a mesma coisa. Deus me livre de serem a mesma coisa. Foi nisso que eu esbarrei. Eu estava investindo meu tempo, meu esforço e meus recursos numa coisa que não era a obra de Deus. E achando que era! A Igreja de Cristo não necessariamente é essa igreja de tijolos que você conhece.

O formato que a Igreja assumiu não é o melhor pra mim. Aqui eu nem falo como dono da verdade, porque ainda busco respostas, mas por que as nossas igrejas são tão preocupadas em fazer cultos? A maioria das igrejas, aliás, só faz isso. Se é pra ensinar a palavra de Deus, por que não é no formato de uma escola? Por que não é tipo um grupo de terapia? Ou, sei lá, uma comunidade hippie? Por que não é um hospital de fato ou uma casa de assistência social? Qual é o real benefício de pessoas supostamente engajadas em fazer cultos (orar, cantar, dançar, ouvir a pregação)? O que eu enxergo é 10% de pessoas trabalhando para o culto acontecer e 90% de gente sentada e passiva. Cadê a ação, a mudança de vida, a transformação em massa dos corações? Cadê o amor sendo praticado? Embora eu não diga que a Igreja seja de todo ruim, apesar de que às vezes seja bem problemática sim, há todo um potencial desperdiçado de gente que poderia estar trabalhando, fazendo o bem na sociedade, demonstrando o amor de Jesus mais do que com só palavras. Eu não consigo me conformar. Eu não consigo mais frequentar um culto sem pensar nessas coisas todas. O ônus parece ser maior que o bônus. Eu perdi a minha fé nas igrejas. Acho que, em geral, são instituições que perderam o principal propósito e se tornaram ultrapassadas. Ah, mas a comunhão é importante. Eu falo com cristãos todos os dias. A maioria dos meus amigos ainda é cristã. Eu tenho comunhão com eles. E legal ter comunhão na igreja, mas a gente não pode se juntar pra fazer algo mais útil e menos nocivo? A igreja atropela e machuca tanta gente no meio do caminho que eu não sei lidar mais.

Se a sua igreja não é desse naipe, se a sua igreja realmente faz alguma diferença no mundo, então, amigo, não precisa aparecer aqui pra defender. Eu tenho muita fé que existam pessoas que, assim como eu, não se conformam com esse padrão defeituoso, pessoas que decidiram viver o evangelho de fato. Eu poderia até citar exemplos, mas não vem ao caso agora. Tem muita gente ruim dentro dos templos, mas tem gente boa também. Eu acredito nisso. Mas nós precisamos concordar que a maioria esmagadora tá praticamente morta e enterrada.

(Também não precisa me aplaudir e chutar esse cachorro morto, eu não me acho melhor que as pessoas da igreja. Não é esse o ponto, entende? Estamos no mesmo barco. Eu quero é mudança, quero é que você me ajude a encontrar um caminho melhor)

Eu creio em algo maior. Em algo melhor do que essa vidinha que eu costumava levar indo pra igreja praticamente todos os dias da semana. E eu sinto que estou chegando lá. Não fiquem tristes por minha causa, porque eu juro pra vocês que ESTOU CHEGANDO LÁ. Agora mais perto do que nunca. Foi até por isso que decidi encarar esse post de uma vez. Se é possível reciclar esse "sistema igrejal", o famoso mundão gospel, ou se é hora de jogar no lixo e começar do zero, eu não sei dizer pra vocês. Já não é mais problema meu. Nada contra quem curte, até tenho amigos que são, mas, pra mim, não serve, não basta, não funciona.

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Lá no Trilha Radical (vou morrer recomendando a todos), teve um momento que eu confessei para um dos organizadores que não ia numa igreja fazia tempo. Conversamos bastante sobre o assunto, daí eu:

- Eu queria ter o poder de mudar esse quadro, sabe? Mas não sei se é possível. Como se conserta as igrejas?
- A gente criou o Trilha Radical pra tentar fazer isso, Felipe.

E eu tive que concordar depois de ter participado do projeto.