Não vou citar nomes por motivos que ficarão óbvios a seguir, mas vamos fingir que o sobrenome da história é "Lambertini". Não é um sobrenome comum, mas também não é como se fosse de outro mundo. Beleza. Daí que eu estava no Twitter e vi um tweet de Fulana Lambertini na minha timeline. Era um tweet meio curioso, então eu cliquei pra ver se tinha pessoas falando alguma coisa e tal. Eu sigo Fulana Lambertini há séculos no Twitter, ela não me segue de volta, mas tudo bem com isso. Aí vi que só uma pessoa tinha interagido com Fulana: Beltrana Lambertini.

Eu fiquei em choque quando vi o nome.

Não porque os sobrenomes eram iguais ou Beltrana tenha dito algo demais, mas porque eu CONHEÇO BELTRANA LAMBERTINI. Pessoalmente! Eu nunca tinha ligado Fulana a ela, apesar do sobrenome igual. Beltrana faz parte de uma fase muito engraçada da minha vida, mas atuou como figurante, sabe? Além do nome, eu não sabia muita coisa sobre ela. Beltrana era apenas mais uma pessoa. 

Gente, stalkeei tanto! Hahahahah

Na internet, descobri que Beltrana Lambertini usa CABELO AZUL (acho que era peruca), é feminista e, aparentemente, domina a arte do Krav Maga. Eu fiquei tão besta com as revelações! Tipo, BELTRANA! Parecia uma outra personalidade na internet. Fiquei fascinado.

Na Vida:


Na Internet:


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Li uma notícia no melhor site de todos os tempos, o Razões Para Acreditar, sobre um projeto na Itália que mantém um restaurante numa prisão aberta ao público, onde os detentos trabalham como cozinheiros (aqui). Eu achei a ideia tão legal! Mas, ainda assim, me imaginei frequentando esse restaurante e sentindo um pouco de medo. De quê, Felipe? Sei lá, de um deles me esfaquear, me fazer de refém pra fugir, de envenenar minha comida pra se vingar da sociedade que arrancou 10 anos da vida dele, coisas assim.

A Annie (que voltou a ter blog! <3) chegou toda "O CARA QUER MUDAR DE VIDA E RECEBE O SEU PRECONCEITO" pra cima de mim.

Eu sabia que era preconceito meu, até porque, gente, nem todo mundo que está na prisão é assassino. Isso é óbvio. E nem todo assassino é psicopata. Assassinato tem tantas circunstâncias que dificilmente você vai conseguir apontar o dedo pra alguém que já matou e acertar que ela é uma pessoa horrível que merece a morte sem saber nada sobre o fato.

Engraçado que, na mesma semana, eu comecei a ver Orange Is The New Black, série de TV que mostra o dia a dia numa prisão para mulheres (Tô amando), e, nossa, que universo. Uma pessoa mais linda que a outra, que deixa a gente com vontade de botar no colo e esconder do mundo. Eu total frequentaria um self-service organizado por elas.



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Tem uma parte no A Arte da Imperfeição, um dos livros da Brené Brown, em que ela comenta sobre pessoas que possuem múltiplas carreiras, como a consultora de negócios que também é cartunista (!), o cirurgião que atua no teatro (!!) e o gerente de investimentos que também é rapper (!!!). Eu trabalhei uns meses com um analista de sistemas que, só depois de ter saído do emprego, descobri que ele participa de um dos canais de comédia cristã mais famosos do Youtube (!!!!). Eu assisto os vídeos e gargalho só de ver que aquele cara na tela, fazendo várias piadas e imitações abobalhadas, é o mesmo cara sério que sentava perto de mim e resolvia os bugs do sistema.

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Eu vivo falando que amo pessoas. É que, não sei, é um fascínio tão grande! Uma pessoa é tão cheia de possibilidades. Gostos, roupas, músicas que gosta de ouvir, profissão, religião, família, sexualidade, hobbies, manias, história de vida... Eu nunca me canso de me surpreender. Não tenho como comprovar, mas acho que ninguém é só aquele cara chato que pega ônibus comigo. Eu mesmo sou todo psicodélico. Aposto que Beltrana Lambertini nem sonha que falo bobagem na internet, tenho um blog, escrevi um livro e componho músicas cristãs. Tem gente pelas quais não damos nada e, VRÁ, olha a peruca azul na nossa cara. Gente é uma coisa extraordinária. Em tempos de internet, nós descartamos tão rápido uma pessoa por uma frase ou foto postada, por um vídeo mal explicado ou por uma declaração divulgada....

É um desperdício de maravilhas.