O fato foi mais ou menos assim: O padre Fábio de Melo foi numa festa, daí tinha uma travesti por lá também. Ele ficou com receio dela vir falar com ele, mas ela foi. Daí ela pediu para tirar uma foto, ele é realmente uma celebridade e tal, ele meio desconfortável respondeu que sim. Tiraram a foto. Depois contaram para o padre que aquela travesti era uma grande ativista social, que tinha tirado várias pessoas das ruas e tal. Ele ficou maravilhado e todo, nossa, que bestão eu estava sendo, que pessoa maravilhosa.

Vocês podem ouvir o relato completo da boca do próprio padre contando para uma igreja no vídeo que está rolando por aí (recomendo!).


O Fábio de Melo, gente, eu nem sou católico e nem preciso ser para admirar os atos dessa pessoa. Além de engraçadíssimo no Twitter (@pefabiodemelo), o padre demonstra uma sensatez gigante em todas as entrevistas que já vi com ele, em cada tweet quando ele quer falar um pouco mais sério. Eu queria que existissem mais religiosos como o Fábio.

Mas daí eu fui ver o vídeo dele contando a história e, pra mim, é tudo meio desconfortável, por vários motivos. Ele faz o relato soar cômico, coisa que eu total também faria, veja só, aquela plateia gargalhando apenas pela menção de uma travesti no recinto... O padre Fábio não usou o gênero considerado mais adequado pela própria travesti... Eu fiquei imaginando como se sentiria uma/um travesti sentado naqueles bancos, servindo de piada apenas por existir. Confesso que senti um misto de, nossa, que legal com É HORA DE PROBLEMATIZAR.

Ainda bem que eu me segurei, pois gera um ódio desnecessário (SEMPRE) e nem demorou muito já fizeram esse trabalho por mim. Rolaram umas críticas ao padre chamando de desrespeitoso, TEM QUE USAR O PRONOME CERTO, QUE PADRE ESCROTO. Nesse vídeo linkado nesse post mesmo dá pra ver um ódio rolando de gente criticando o padre, de gente chamando de hipócrita quem critica o padre e etc etc etc aquela bola de neve que eu já citei por aqui. Ódio é assim, gente, ódio circula.

Eu queria que a gente soubesse conversar. O padre desconfortável com a simples presença da travesti, coisa que ele admitiu ser um preconceito vergonhoso, só demonstra que ele realmente mal tinha contato com essa outra realidade, não sabia mesmo como lidar. Certamente que, se alguém chegasse de boa e avisasse "Padre, ela prefere ser tratada no feminino" (que nem sei se é o caso, né), ele iria entender, ia aprender. Pode ter gerado algum desconforto, sim, mas, gente, uma mensagem desse tipo entrando numa igreja... Vocês não fazem ideia de como a Igreja, de uma forma geral, está bem longe de entender o que é um/uma travesti, uma pessoa transgênero ou o conceito de identidade de gênero. E, tipo, é complicado de fato. Muitos religiosos odeiam gratuitamente realidades que eles não fazem ideia do que se tratam. Novamente, é um bando de não saber.

Odiando, eu não aprendo nada mesmo. Odiando, eu não dou espaço para enxergar as pessoas por trás das ações, para ouvir outros discursos, para conviver e gerar empatia. Nem entro no mérito de rotular como, nossa, que ato supremo de bondade ou como grande merda, que padre escroto. Por que a gente tem que encaixar tudo nessas duas opções? Foram só duas pessoas convivendo. Que bom que a travesti se mostrou vulnerável de ir até um religioso e fazer um pedido como o que fez, coisa que a deixou chocada quando ele aceitou. Uma coisa tão simples! Pra você ver como o mundo anda. Que bom que o Fábio de Melo passou por cima do preconceito, do julgamento e do desconforto e se permitiu a descoberta de que gente é uma caixinha de surpresas, de que gente pode ser um acontecimento maravilhoso.

***
Se você:

1) concorda comigo e gostou desse texto
2) ou realmente acha que as pessoas precisam mesmo parar de odiar
3) ou é o padre Fábio de Melo e quer deixar um blogueiro dando cabalhotas pelo recinto
4) ou apenas quer me deixar feliz com pouco,

Me ajuda compartilhando o texto nas redes sociais? Obrigadão!