AVISO: O texto a seguir não é sobre você. Não é sobre o que você deve fazer ou parar de fazer. Não é sobre como as pessoas devem ou não militar, eu não sei nada sobre a luta de ninguém. Este é um texto sobre mim, sobre o que eu descobri que funciona ou não para mim. Exclusivamente para mim.


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Começando com o livro da Amanda Palmer, eu ando numa vibe de me apaixonar perdidamente por livros de não ficção. Eu daria três tapas na cara de quem dissesse ano passado que em 2015 meus livros favoritos seriam mais parecidos com autoajuda do que com uma ficção bem escrita, porque nem eu, que tanto fugi de livros desse naipe, poderia imaginar que isso aconteceria. Eu tinha até um certo preconceito com não ficção. Uma verdade é que eu sempre preferi a realidade à fantasia, sempre me apeguei mais àquelas histórias com os pés no chão, com dramas de família, relacionamentos, problemas do dia a dia e tal. Nem sei como não cheguei antes à conclusão de que não há nada mais verossímil do que um livro que conta inteiramente fatos e pensamentos de uma pessoal real.

Por N motivos que não vejo necessidade de abordar agora, eu comecei a ler "Alma Sobrevivente" (Philip Yancey), um livro que traz relatos de como algumas pessoas influenciaram demais a vida do autor. Algumas delas, Yancey conheceu apenas através de seus escritos, mas com outras ele teve o prazer de conviver e trabalhar ao lado delas. Gandhi, Martin Luther King Jr e Tolstoi são uns dos nomes mais famosos.

O livro está sendo, de fato, MUITO INSPIRADOR. Eu quase chorei no começo porque parecia que o autor estava falando diretamente comigo. Fiquei todo YANCEY, ME ABRAÇA, ME ADOTA, SEJA MEU BFF. Eu nem sei como explicar.

Chega a ser engraçado que os próprios influenciadores interagiram de alguma forma. Gandhi teve acesso aos escritores russos e acabou inspirando King, que até hoje causa impacto na vida de um monte de gente nos EUA. Parece uma corrente do bem ou algo assim. Eu me sinto na ponta dessa corrente, e a mensagem que eles estão passando para mim é a Não Violência.

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Semana passada, a Anna me recomendou uma música que, segundo ela, tinha muito a ver comigo. Gente, não é que ela acertou EM CHEIO?



Esse clipe, gente. Tem como não amar? Acho que todas as pessoas que acreditam em Deus, independentemente de religião, podem aceitar de cara como essa mensagem de que Deus é amor é boa. Daí é lindo ver que Deus não pertence à religião, que ele não pode ser vendido, que ele é universal, que Deus ama todo mundo. E, tipo, todo mundo MESMO.

Mas algumas pessoas já chiam no "Atheist", outras chiam no "Lesbians", principalmente se forem cristãos mais conservadores. Aí quem não pertence a igreja alguma fica MAS É LINDO, SIM! DEUS AMA A TODOS! Aí chega a vez dos terroristas e, epa, pera, terroristas? Todo mundo trava nos terroristas.

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Tem um trecho no livro com uma citação do Martin Luther King Jr, na qual ele faz um apelo para as pessoas que estavam lutando ao lado dele:



Ele precisava lutar pelos direitos humanos nos EUA, mas, inspirado em Gandhi e Jesus, King viu que havia um caminho mais eficaz que a guerra: a não violência. Ele não atacava, não xingava, não guerreava. King, mesmo sofrendo várias retaliações, não deixava de ver os opositores como pessoas. Era justamente o que faltava nos segregacionistas, eles não viam os negros dos EUA como gente. Eu fiquei tão chocado com os relatos no livro! Eles eram violentos demais, chegavam a ter NOJO e ÓDIO de pessoas não brancas. King queria proteger a si mesmo e aos seus seguidores de sentimentos desse tipo, que corroem uma pessoa por dentro. Vocês devem saber como é exaustivo ODIAR uma coisa. Pior ainda é odiar uma pessoa.

Eu não quero esse estresse. Eu quero desistir de odiar. Eu quero continuar vendo TODO MUNDO como gente. E, sabe, meio que anda difícil. Todo dia na internet é um embate. Todo dia tem gente fazendo declaração racista, homofóbica, machista... Às vezes, tudo de ruim numa declaração só. Tem gente sendo atacada, gente sendo exposta, gente destilando ódio. Até quando uma pessoa sofre um preconceito violento, dá para perceber que quem sente empatia pela pessoa oprimida tende mais a agredir o opressor do que consolar quem sofreu. Daí jogam todo mundo na lista das PESSOAS HORRÍVEIS QUE MERECEM A MORTE e vira aquela guerra colossal. No fim, entre mortos e feridos, não há nenhum crescimento pessoal. Porque ódio não agrega, não transforma. Ódio só gera mais ódio. Ódio mata por dentro e por fora.

Pessoa agiu de forma ridícula? Ou eu reajo com amor ou não reajo. Bolsonaro falou as atrocidades de sempre? Ignoro, sigo em frente. Quero problematizar alguma coisa que vi? Não preciso de sarcasmo, não preciso diminuir pessoas das quais eu nada sei da vida. Parece impossível, né? O meu sangue sobe, eu me revolto, eu quero queimar os opressores com o fogo dos meus olhos, mas Deus me livre de ter meu nome na lista das pessoas horríveis que merecem a morte.

Gandhi resistiu ao ódio e movimentou a Índia pacificamente. Martin Luther King Jr conseguiu grandes avanços para os direitos humanos nos EUA quando descobriu que havia um caminho sem agressão. E eles não eram santos, sabe? Tinham tantas falhas, até alguns desvios de caráter, assim como eu sei que também tenho. Eu posso no mínimo tentar trilhar o mesmo caminho que eles, até pela minha própria sanidade. Ódio me faz muito mal.