Ainda aprendendo a manter a política de não odiar, eu estava investigando as causas do ódio. Por que bate aquela vontade de esganar a outra pessoa? De onde a gente tira tanta disposição para xingar, julgar e condenar um desconhecido na internet? Por que o ódio deixa a gente tão empoderado de forma que nosso alvo parece tão desprezível aos nossos olhos? Como eu disse, estou aprendendo. Só ando no caminho, mas não tenho as respostas ainda. O que eu sei é que me faz mal e seria ótimo cortar pela raiz.


Uma das minhas pessoas favoritas, a Nívea Soares, lançou uma música nova no Youtube, que, na verdade, é uma versão de uma música em inglês. Beleza. Ouvi, achei legal, dei meu like lá no vídeo... Só que fui ler os comentários (por que a gente ainda teima, né?) e apareceu uma pessoa dizendo algo como "Música bonita, mas a gente precisa plagiar os gringos? Temos criatividade também! Temos que valorizar nosso país etc etc etc". Daí apareceu uma outra "defendendo" a Nívea, dizendo que "Minha querida, você precisa estudar mais! Não é plágio!", chamou de burra e tudo. E ficou aquele bate boca, as pessoas depreciando as outras a cada novo comentário. Fiquei imaginando a Nívea, que só queria mostrar uma música nova, horrorizada lendo a discussão.

O mesmo com o show de horror que ficou o Facebook no final de semana com as pessoas DISCUTINDO sobre qual tragédia era a CERTA para se compadecer, com as vítimas do terrorismo na França ou com o desastre ambiental em Minas Gerais. Meus queridos amigos do Facebook estavam literalmente chamando pessoas de burras, estúpidas, anti-patriotas, alegando que ninguém no Brasil tinha que sentir nada pelos franceses, porque eles também não se importavam com a gente aqui. Até gente dizendo que eles tinham mesmo que sofrer, eu vi.

Nos dois casos, o ódio foi tanto que chegou até em mim, que estava apenas de observador. A minha vontade foi me meter em todas as tetras com um caps lock ligado para dizer DEIXEM DE SER BESTAS, QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS? COMERAM COCÔ? FORAM CRIADOS POR ANIMAIS? Como se isso fosse resolver alguma coisa. Como se a minha reação não fosse parte do problema.

O ódio simplesmente circula. A gente vê uma pessoa sendo odiosa e imediatamente a odeia também. Daí alguém vê nosso ataque de ódio e passa a nos odiar. O ciclo não termina! Quando alguém tem uma atitude horrível perante nossa opinião, tudo na gente apita alertando que aquela outra pessoa tem que ser humilhada, pisada, cuspida, que ela tem que pagar AGORA por todos os erros dela, que ela é um ser estúpido que precisa aprender uma lição que a gente vai ensinar, que ela precisa ser exposta. A gente lança um ódio sobre os outros que não apenas não causa nenhuma mudança na outra pessoa (só se for pra pior) como também contamina a gente.

Eu já tinha sacado que o certo era responder com amor, mas isso não estava vindo com nenhuma naturalidade. Eu poderia ignorar as tretas, eu poderia não atacar ninguém, mas ainda assim continuava sentindo a raiva. Eu fiquei todo "Mas como se quebra o ódio? Cadê exemplo de uma pessoa que explica isso?".

Foi conversando muito com os amigos, observando as timelines, terminando de ler o Alma Sobrevivente (<3) e tentando achar um ciclo de ódio quebrado que eu cheguei num momento específico da vida de Jesus. Ele foi humilhado, açoitado, pisado, cuspido, pregado numa cruz e uma série de outras torturas que eu não gosto de lembrar. Inclusive, só de pensar na cena, já me sobe um ódio dos presentes porque ele não merecia. Daí que a atitude de Jesus perante aquele povo, ao invés de ser um ódio mortal, é um "Perdoa-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem". Jesus pediu perdão porque sabia que aquelas atitudes grotescas não eram boas, mas não quis condenar as pessoas pela falta de conhecimento delas.

ISSO É TÃO PODEROSO. É o mesmo caso daquela pessoa que te critica sem te conhecer direito. É o caso da pessoa que tem preconceito contra uma classe sem enxergar nela os indivíduos. É o que acontece quando a gente vê uma pessoa falando uma besteira tão grande, muitas vezes fora de contexto, e acha que já sabe tudo da vida dela a ponto de tachá-la como burra e merecedora da morte. A GENTE NÃO SABE O QUE FAZ. Gandhi fazia questão de dar o mesmo tratamento a todos os tipos de pessoas, fosse rei, fosse mendigo, fosse celebridade... Os melhores médicos são aqueles que tratam os pacientes como pessoas individuais e não como uma lista de sintomas. Amanda Palmer descobriu que, olhando realmente para o público dela, ela pode se relacionar melhor com eles. Existe uma preciosidade em cada pessoa que pouca gente enxerga. As pessoas são cheias de traumas, motivos e vontades que explicam muito as ações. Em qualquer ficção bem escrita, a gente consegue ver o lado do protagonista, seja ele mocinho ou vilão. Existe um laço forte que a empatia cria que nos impede de olhar mal para uma pessoa, porque a gente sabe que, talvez, faria o mesmo que ela em determinada situação.


Se a humanidade inteira tivesse esse laço atando a todos, o ódio morreria. Porque não se odeia o que é igual. E somos todos humanos. Aquele alvo que recebe todo nosso ódio, veja só, é apenas uma pessoa como nós. Que teve criação diferente, passou por lugares diferentes, foi tratada de formas diferentes, recebeu amor em doses diferentes e teve uma vivência completamente diferente da nossa. Mas ainda é uma pessoa, com sentimentos, contradições e dúvidas. Pode parecer um monstro, mas juro que é gente.

Quando Jesus estava sofrendo na mão dos agressores, ele sabia que aquelas pessoas não tinham total noção de quem ele era, não enxergavam nele um ser humano. Enxergavam só um alvo de ódio. Ah, então você está dizendo que todo mundo é inocente? Não, todo ato tem consequência, ainda mais um ato de ódio. O ódio sempre volta pra cobrar da pessoa alguma hora. O que eu estou dizendo é que eu não preciso odiar, porque eu sei que ali está uma pessoa, que merece ser tratada como gente.

Aquelas pessoas discutindo no vídeo da Nívea? Era como se não soubessem que atrás daquele perfil do Youtube estava uma pessoa de carne e osso, sentindo todas aquelas palavras. As pessoas do Facebook? Era como se não sentissem a empatia, não sentissem a mesma dor que muitos sentiram, como se não soubessem que a pessoa do outro lado da tela pode ser muito parecida com eles mesmos. É um bando de não saber.

O caminho é muito longo, ainda mais longo que esse texto, mas eu quero parar de odiar. Eu quero é enxergar pessoas por trás de todas as ações. Ah, Felipe, mas agora você tá virando o quê? Hippie? Quer ser o Dalai Lama? Não, gente, só quero parar de fazer um mal a mim mesmo. É tão absurdo assim?