Estava eu no metrô muito empolgado após assistir um dos melhores episódios de Survivor, faltando umas três estações para eu descer. Perto de mim, notei que pessoas faziam um certo burburinho. Tinha uma mochila abandonada no chão e parecia estar vazando água.

- Moço, a sua mochila está vazando - Alguém disse.
- Não é minha não - O moço respondeu.
- Ué.
- Também achei que fosse dele - Uma terceira pessoa disse - Ah! Deve ser daquela mulher que estava aí agorinha, mas já saltou. Coitada.
- Vai ver é uma bomba
- Hahahahahahah

As pessoas falando e falando sobre a mochila perdida, e eu só pensando que a cada segundo a dona estava cada vez mais longe e com menos chance de alcançar de volta seus pertences. Lembrei de Achados e Perdidos. Era só levar até lá ou eu mesmo tentar devolver, sei lá, vai que tem um celular ali, uma carteira com endereço, coisas assim.


E acredita que eu realmente considerei a bomba? Seria tipo a season finale da sitcom que é a minha vida ou, quem sabe, a series finale, se eu morresse. Daí me deu mais vontade ainda de tirar dali. Uma bomba mataria menos pessoas numa estação vazia às 6h do que num vagão lotado. Eu achava. Façam as contas aí.

Então, assim que chegou na minha estação, eu disse:

- Ok, pessoal, vou tirar essa bomba daqui.

Todo mundo riu, eu saí com a mochila. Olhei para os dois lados para ver se tinha algum guarda por perto. Eu não sabia exatamente onde entregar, mas tinha que ter um Achados e Perdidos, né?

Eu acho que falhei como adulto de verdade ali. Porque eu deveria procurar o lugar, mas eu estava tão curioso que, veja a inocência, coloquei a mochila num banco da estação e abri um dos bolsos. Não vi nada do que tinha nos bolsos, porque um senhor VINDO DO ALÉM se materializou ali berrando:

- VC TÁ MALUCO DE PEGAR A MINHA BOLSAAAAAA??? ACHA QUE EU SOU OTÁRIO? ACHA QUE EU NÃO TE VI?
- Moço, eu só...
- MINHA BOLSAAAAA

Eu tentei explicar, mas ele estava todo NÃO QUERO SABEEER que eu deixei pra lá. Eu entendi completamente o lado dele. Imagina, você está de boa no metrô indo para o seu trabalho, daí vem alguém sorrateiramente E ROUBA SUA BOLSA. Ele estava nervoso, eu até achei que fosse apanhar. Pedi desculpas, mas duvido que ela tenha confiado em mim, um cara estranho que carrega bolsas no metrô. Eu não tinha como provar que eu era eu. Tipo, eu. Ele me devolveu um ESQUECE ISSO, e eu saí.

***

Não esqueci coisa nenhuma, né? Tanto que estou aqui contando para vocês e isso já faz dois dias. Naquele dia, eu cheguei no trabalho meio arrasado por dentro, porque uma pessoa não confiou em mim. Lembram que eu já falei sobre confiança e que gosto de confiar nas pessoas? Uma coisa que eu não comentei é que gosto ainda mais quando confiam em mim. Eu sou a pessoa mais confiável que eu conheço, sérião. Eu tento ser o mais transparente possível para que as pessoas consigam enxergam que realmente podem contar comigo, principalmente quando estou dizendo que elas podem.

Talvez, vocês podem estar pensando: Viu só? Quer fazer o bem e só se ferra. Tentar ajudar não dá em nada. A minha cabeça funciona um pouquinho diferente, porque eu saí atordoado daquela estação como se uma bomba tivesse explodido mesmo, pensando que, meu deus, eu preciso confiar MAIS nas pessoas, porque não desejo essa desconfiança pra ninguém.