Dias atrás, eu tive que virar o jogo. Tinha uma coisa que me incomodava muito, só que essa coisa sempre esteve comigo, então era muito difícil para mim me livrar dela. Tipo um relacionamento abusivo, sabe? A pessoa está sofrendo, mas continua com quem abusa, porque acha que não existe uma vida fora daquilo ou não enxerga as opções. Daí a pessoa fica eternamente sendo abusada.

Foi Survivor que iluminou minha mente.

Uma das coisas que me fazem achar Survivor o melhor reality show de todos os tempos é que só ganha quem merece. Não ganha o bonitinho, a boazinha, o simpaticão. Quer dizer, até ganham, mas só se eles também forem os melhores jogadores. Isso porque os participantes são eliminados pelos companheiros por votação, um a um, até que no final sobram apenas 2 ou 3 pessoas. E quem é que diz quem vence? Isso mesmo, a galera que foi eliminada. E esse pessoal tem a consciência de só dar o prêmio para quem fez grandes jogadas durante o programa.

Daí que toda pessoa em Survivor sabe que não adianta apenas durar até o fim. Você tem que fazer algo que mereça o voto das pessoas na final. Se você apenas for arrastado até o fim só por não ser uma grande ameaça, ser um zero à esquerda, apenas sairá com zero votos e tão sem prêmio como o 1º eliminado. Quem está no jogo fica o tempo todo "I need to make a huge move", "It's my time to make a move". Eles tentam enganar os próprios aliados, blefarem, encontrarem um ídolo de humanidade, botar uns fulanos contra os outros, fazer uma cena como quem vai rodar e rir ao eliminar uma pessoa que nem viu o tapa na cara chegando.


Assim é Survivor. A vida é um pouco diferente, mas nem tanto. A gente vive, cada um do seu jeito, mirando em chegar bem lá no final. Diferente do reality show, as outras pessoas não irão nos julgar. A gente não vive para os outros, a vida é só nossa. Porém, vocês lembram do Brás Cubas? Não li o livro ainda, mas é a história do morto contando sobre sua própria vida. Se eu tivesse uma experiência do naipe Memórias Póstumas, eu ia querer contar sobre uma vida legal. Não ia querer narrar um milhão de arrependimentos, uma existência infeliz, uma vida modorrenta causada exclusivamente pela minha inércia. E, veja bem, não estou falando que eu tenho a obrigação de MUDAR O MUNDO. Longe disso. Num Memórias Póstumas de Felipe Fagundes, eu ia apenas querer ver que fiz tudo o que pude. Que não me apeguei a coisas ruins, que não me acomodei, que não me deixei ficar em situações desfavoráveis.

E aí é que nem em Survivor mesmo. A oportunidade aparece, o jogador pode continuar no joguinho feijão com arroz dele ou surpreender todo mundo e a si mesmo com uma virada espetacular.

Eu fiz a minha virada e foi bom pra mim.

***

Bons motivos (ok, nem tanto) para compartilhar esse texto:

1) Você conhece pessoas que precisam sair da zona de conforto
2) Foi bom pra você, e você quer retribuir, mas sem me dar dinheiro
3) Você reconhece a magia dos programas de TV em nossas vidas (provável)
4) Você é fã de Survivor (improvável). ME MANDA UM E-MAIL, SEJA MEU AMIGO.