É impossível assistir Being Erica e não ficar pensando em tudo o que a gente já fez ou deixou de fazer na vida. Na série de TV, a protagonista vira paciente de um terapeuta não ortodoxo que a faz viajar no tempo para desfazer as escolhas erradas que ela considera ter feito na vida. COMO NÃO INVEJAR, NÃO É MESMO? 

Eu não acredito em pessoas que dizem que não se arrependem de nada, que fariam tudo de novo, mas também não vi grandes coisas que eu mudaria se tivesse oportunidade. Não encontrei nenhuma decisão que tenha estragado minha vida toda, então fiquei mais com as primeiras coisas que vieram na minha cabeça.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu...

MARCARIA LETRA C. Ensino Médio, Olimpíada de Matemática, a escola toda competindo (1º, 2º e 3º anos). Não lembro em que série eu estava exatamente, mas sei que não era do último ano. Aquelas pessoas gigantes ainda me assustavam. A olimpíada era super concorrida porque só 6 pessoas passariam para a 2º fase, mas eu amava matemática e, mesmo disputando com pessoas supostamente mais inteligentes, eu quis participar. A prova foi tão fácil! De 20 questões, eu marquei 19 com certeza absoluta. Uma, eu chutei. Na hora de conferir o resultado, que saía na hora, o professor me disse: "Acertou 18, Felipe, parabéns". 18 era, tipo, muito, mas eu fiquei WHAT?!

O resultado saiu, e eu não passei para a 2º fase. Só gente com 19 pontos para cima que passou. Conferindo minhas respostas com todo mundo, eu vi que tinha SIM acertado 19 também. MAS COMO É QUE PODE, GENTE? Aí fui conferir a prova com o professor responsável, ele mostrou o meu cartão resposta e, risos, eu tinha marcado uma questão errada. Era C, eu marquei D. Tipo, eu sabia a resposta certa, mas, na hora de marcar, marquei a errada. OTÁRIOOOOO.

Sintam o trauma do gênio da matemática que não sabia marcar cartões resposta.


Até hoje tenho pavor de cartão-resposta. Confiro mil vezes e sempre fico pensando em como seria se eu tivesse passado para a 2º fase e, quem sabe, ganhado uma das medalhas, os notebooks para os melhores etc

GUARDARIA A CAIXA DENTRO DE CASA. Essa é da infância. Eu tinha, sei lá, 9, 10 anos? Ganhei um Master System de presente da minha mãe, foi meu primeiro video game. Vinha com o jogo do Sonic na memória, e eu fiquei maravilhado com esse novo mundo se abrindo para mim. Mais fascinado eu fiquei com a carta que veio na caixa. Era um convite! Se eu enviasse o cupom que veio junto para a caixa postal indicada, eu viraria membro de um clubinho de jogadores, receberia jogos grátis, novidades e um cartão de membro oficial pelo correio. Eu fiquei louco para mandar o cupom! Mas deixei a caixa do video game passar uma noite no quintal (não me pergunte, também não sei o motivo) e, quando acordei no dia seguinte, ela estava acabada. Destruída, rasgada, mordida, arrasada. Ela, o cupom, tudo. Ao lado dela, meu cachorro comia feliz os pedaços de papelão. OTÁRIOOOOOOO.

Sintam o trauma da criança que achou que faria parte de um clube incrível, mas ficou de fora porque foi burra.



CALARIA MINHA BOCA. Novamente no Ensino Médio, acho que no 2º ano, 15 ou 16 anos. Fiz curso técnico de Informática junto com o médio, e era dia de entrega de projeto numa das aulas do técnico. Cada aluno tinha que montar um website sobre qualquer coisa e apresentar para o professor. Aquele havia sido o ano em que eu havia ganhado meu 1º computador. Eu sabia absolutamente NADA de computador quando entrei no curso, nem ligar, segurar um mouse, NADA. Não é difícil imaginar que eu não tinha familiaridade com sites e internet.

Mas eu era esforçado. Não queria ser a pessoa caipira que não sabia o que era internet, então procurei em livros - veja bem, LIVROS - como era a aparência de um website decente. E aquele projeto foi, tipo, MEU BEBÊ. O meu site era um teste de perguntas e respostas para você saber qual personagem do Cartoon Network você era. Que adolescente meigo. Eu sempre com mentalidade de criança. Mas, enfim, fiz o melhor que pude.

O professor era muito ogro, mas eu acreditava que Johnny Bravo e as Meninas Super Poderosas podiam quebrar o coração de gelo dele ou coisa assim. Aí chegou minha vez de mostrar o site. Ele odiou. E não escondia, sabe. Estávamos numa sala com os outros alunos, ele passava no computador de cada um para ver os projetos. Ele reclamou de cada centímetro na tela. E eu realmente acho que as críticas dele eram válidas (Eu procurei em livros, gente), mas, naquela hora, eu só... MEU BEBÊEEE :(((

E o professor ficava "MAS TEM UMA INTELIGÊNCIA POR TRÁS DISSO?", "É SITE PRA CRIANÇA? CRIANÇA SABE ACESSAR ESSAS COISAS?", "VOCÊ NÃO SABE QUE LINK É AZUL?", "E ESSA FONTE GIGANTE? É SITE PRA CEGO?".




Site pra cego Hahahahahahah

Ele não parava de falar mal, aquilo foi me sufocando, eu achando que a turma toda estava prestando atenção na minha mesa, o mundo girando, eu morrendo de vergonha, eu tentando falar e ele me cortando. Aí eu:

- XIIIIIIIIUU.

Tipo, xiu. Shhhh. Chega. Também conhecido como Cala a Boca. Eu mandei o professor parar de falar.

O cara explodiu.

- QUE XIU, O QUÊ? VOCÊ TÁ PENSANDO QUE ESTÁ FALANDO COM QUEM? (Agora, sim, a turma toda estava ouvindo) MAS QUE MERDA É ESSA DE XIU PRA CIMA DE MIM? EU NÃO VOU VER CARALHO DE SITE NENHUM SEU.

E jogou o mouse na mesa, arrastou a cadeira pra trás bruscamente e me deixou lá, atordoado, com cara de bunda olhando para o meu computador sem saber como controlar a situação, morrendo de vergonha, querendo morrer de verdade. OTÁRIOOOOOO.

Sintam o trauma do jovem caipira que não sabia o que era internet e nem como o mundo era puxado.

Ou eu faria o melhor site do mundo ou apenas ficaria quieto enquanto o professor xingava minha criação se pudesse voltar no tempo.
***

E eu achando que não tinha traumas Hahahahah VEM NI MIM, DR TOM!

Mas me contem aí uma coisa que vocês mudariam se pudessem voltar no tempo. E não me venham com "não mudaria nada, faria tudo de novo", porque eu sei que vocês fizeram cagadas também.