Antes de 2015, aquele período conhecido como Minha Vida Praticamente Toda, eu só tinha ido ao teatro uma única vez. E minha lembrança mais forte era que eu quase tinha morrido sufocado com aquela fumaça sem propósito. As pessoas comentavam sobre peças teatrais perto de mim, e meu comentário era sempre "E eles gostam de usar aquela fumaça, né? Teve uma vez que fui e...".

2015 chegou com um "Tá na hora de mudar isso, não é mesmo?".

Gente, teatro é uma coisa. Não é um "cinema só que ao vivo". Não é "tipo um filme, mas sem muitos efeitos". Teatro é uma experiência completamente diferente. Sim, você fica sentado vendo uma história desenrolar na sua frente, mas o fascínio é outro.



Fui ver "Meu nome é Reginaldson" (< R$ 20), uma comédia em forma de monólogo, e saí de lá maravilhado. Eu reviro olho pra ator que menospreza novela, cinema etc porque "teatro que é atuação de verdade", mas, gente, eu tenho que concordar numa coisa: TEATRO É IMPOSSÍVEL. Fernando Ceylão atuou por quase duas horas sem pausa pra lembrar o texto, sem erro, sem gaguejar. Achei incrível a forma como ele se movia no palco, e a luz mudava magicamente. Tudo muito sincronizado. Nada menos que fascinante um cara fazer o papel de uma dúzia de personagens sem mudar o figurino, e você enxergar claramente quem é quem.


Musical é ainda mais coisa do que uma peça de teatro tradicional. Eu sentei na primeira fila pra ver "S'imbora - A História de Wilson Simonal" (R$ 91) sem fazer ideia de quem era Simonal. Saí de lá cantando Mamãe Passou Açúcar em Mim.



Os atores não apenas não fazem pausa para relembrar os textos, como também não erram, não gaguejam, não se confundem no palco e, ainda por cima, CANTAM E DANÇAM. Gente, quem são essas pessoas? Super-heróis? X-Men? É tudo muito lindo, sabe. Eu fiquei vidrado em reparar em como aquilo tudo funciona. E o que é Rafa da Malhação nesse espetáculo? QUEM SABIA QUE ELE CANTAVA? Pois canta muito. Quando todo mundo canta e dança em cena, você não sabe em quem prestar atenção. Às vezes, eles olham para você, inclusive.


Obviamente, rolou aquele momento SÓ COM VOCÊ, FELIPE. Nunca falta, incrível. Estava eu na primeira fila quando surgiu um momento em que Ícaro-barra-Simonal começa a interagir com a plateia, ensinando pra gente "Meu limão, meu limoeiro". De repente, ele quer todo mundo cantando e dançando, e eu apenas: MEU DEUS, NÃO.

Eu nem sabia a música. Eu não sei lidar com danças.

Eu não apenas ignorei como fingi que tinha algo interessantíssimo lá no fundo do palco quando Simonal disse "AGORA OS HOMENS".

Eu: .........................

"CADÊ OS HOMENS NA PRIMEIRA FILA?"

Eu: *olha para o nada e faz uma oração de socorro a Deus"

"NÃO ADIANTA DESVIAR O OLHAR. É, VOCÊ MESMO".

Eu tive que encarar nessa hora, já vermelho como um tomate. Ele lá todo meu pé de jacarandá, e eu:



Acho que ele viu que nada sairia dali e desistiu com um "MAS, GENTE, ESSE MENINO NÃO CANTA NADA".

*risos da plateia*

Até agora estou meio traumatizado com "Meu Limão, Meu Limoeiro" e me sentindo super culpado por ter decepcionado Ícaro Silva com a minha falta de molejo e gingado.

***

Resumindo: Vale muito a pena ir. Pode ser bem mais caro que cinema, ter um ator conhecido pode elevar o preço, mas indiquei o quanto paguei nos ingressos para vocês verem que há teatro para todo mundo que tem o costume de frequentar cinema e dar 20 reais numa pipoca. Não estou dizendo que é melhor que cinema, só que é diferente e que faz bem experimentar coisas novas.

Se você não for eu, super de boa sentar na primeira fila.