Não achei que seria tão puxado manter o ritmo que emplaquei em julho, mas, agora, de posse de uma história com início, meio e fim, eu posso garantir que valeu a pena. Quer dizer, eu adoro imaginar novas histórias. Eu sou uma máquina criadora de ficções que ficam só na minha cabeça. Eu deveria contratar um exército de ghost writers e dominar o mundo com uma dúzia de livros publicados por mês. Mas, né, não há dinheiro para tal façanha, o que significa que eu mesmo tenho que colocar a mão na massa.



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Eu olho para alguns livros e vejo algo de sagrado neles. Parece que não foram escritos por pessoas. O próprio Deus talhou em pedra e apenas passou discretamente para o homem publicar em papel. Eu leio as frases e fico MEU DEUS... COMO? MAS... MAS... O QUE ACONTECE NA CABEÇA DESSA PESSOA? Genialidade pura*. Esses são os autores com lugar já reservado no céu.

Porém, há uma segunda categoria de escritores, que consiste basicamente em: todo o resto. Esses não recebem muitas visitas das divindades inspiradoras. Não, esses precisam talhar suas próprias pedras e montar seu caminho sinuoso para algum lugar indefinido que pode ou não levar ao sucesso. Eles são as pedras. O pessoal da segunda categoria são aqueles que simplesmente fazem as coisas. Vão com o que têm, arriscam a fazer o que sabem e torcem para dar certo no final.

Acabei de dar um abraço na galera do segundo grupo e de dizer "Calma, vai ficar tudo bem".

Livro não é magia. Não são escritos numa única tarde de sol e brisa, nem imediatamente depois de, opa, tive um sonho legal, acho que termino de escrever um romance antes da Sessão da Tarde. Não é mesmo magia. Livro é esforço, disciplina, alguma renúncia, um pouco de desespero, reclusão, luta contra a procrastinação e outros demônios menores. Livro é fazer surgir tempo e força de vontade que não existem, é seguir em frente sem inspiração.

Livro é esperança e diversão também. AINDA BEM.

Estou pagando por todos os meus pecados cometidos contra escritores nesses anos de internet, blogs e redes sociais. Contra todos aqueles que eu jurei que tinham fumado um baseado durante a escrita, contra as escritas as quais chamei de porcas, contra os plots que eu chamei de ridículos e contra todos os autores que gonguei menos John Grisham. Não há perdão para você, John. Você me gongou, eu te gongo agora EU NÃO SABIA DO CAOS. Gente, é uma luta desenvolver personagens coerentes. Você quase chora quando chega no capítulo 10 e vê que tudo ainda faz sentido, embora você não saiba exatamente como. Levar um plot do início ao fim é como puxar um cachorro teimoso pela coleira por um caminho no qual ele não quer andar. Nós esquecemos coisas, escrevemos besteiras, ficamos com vontade de apagar tudo e começar outra história. Apenas preciso aplaudir de pé essa galera que chega até o fim e consegue fazer um leitor - nem que seja só UM mesmo - realmente gostar do que foi escrito. E ainda pagar por isso.

Aplaudindo Stephenie Meyer, E. L. James, 
Elizabeth Chandler, John Green, Dan Brown, seus guilty pleasures...

Longe de mim criticar quem chega lá, com base no argumento "Ah, isso até eu faço". Não, amigo, você não faz. E, se faz, está perdendo teu tempo urubuzando, deveria estar fazendo e ganhando dinheiro também. Vai lá, boa sorte.

Escrevendo, eu pude ver que todo livro, mesmo aqueles que parecem terem sido feitos nas coxas, são frutos de trabalho duro, porque simplesmente não dá para cuspir tudo no papel. Mesmo quando a publicação parece toda errada, eu tenho certeza que o autor começou porque acreditou ter tido uma boa ideia, que ele revisitou parágrafos, que ele teve insights durante a escrita e que ele achou o trabalho final, pelo menos, aceitável. Ou seja, ele deu o melhor dele naquele momento. Se a crítica geral não apreciou o resultado, apenas me resta torcer para que o autor aprimore suas habilidades e comece outra história do zero.

E não é como se eu não fosse criticar livros nunca mais. PORQUE EU VOU. Vou discordar das ideias, vou pensar em frases melhores, vou notar as incoerências e olhar feio para as saídas fáceis. Mas vou ler com empatia, de preferência aprendendo com os deslizes alheios.

* Só quis colocar o primeiro grupo no pedestal, sei que os gênios trabalham pesado também. Mas não consigo abandonar a impressão de quem tem um dedo de Deus naquelas palavras.

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Então, eu tenho um original para odiar, pôr fogo, jogar no lixo, pegar de volta, revisar, editar, cortar e, finalmente, me dar por satisfeito. O que vem depois da satisfação, eu realmente não sei. Por hora, vou seguir a dica que me deram de deixar a história descansando por um tempo antes de começar a revisar. Até porque, honestamente, quem precisa de descanso sou eu.

Deixa eu tirar a poeira desse blog.