Quando a Anna pediu como presente de aniversário que as pessoas fossem doar sangue, eu pensei: PRECISO FAZER ISSO. Experiências! Etc. Quer dizer, pessoas precisam de sangue o tempo todo. Temos sangue. Me pareceu muito lógico doar algo que não me fará falta alguma. Ilógico é banco de sangue passando aperto. Não sei como essa galera não avança na gente para tirar o sangue a força, nem julgaria.

Mas confesso que não foi o espírito cristão do Natal que me arrastou até o Hemorio, fui mais pela curiosidade de fazer uma coisa que nunca fiz.

Eu poderia fazer um relato cheio de informações importantes sobre a doação de sangue, mas, gente, usem o Google. Os sites dos pontos de doação explicam (quase) tudo. Vamos nos focar no (quase).



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A gente chega, faz um cadastro bem rápido e simples, responde um questionário do naipe SIM ou NÃO e espera até ser chamado para uma ~entrevista~ com um médico. No meu caso, médica.

De início, a pessoa querida FUROU meu dedo. Achei indelicado, de onde eu venho as pessoas dizem seus nomes antes de começar com essas intimidades, mas, beleza, era o trabalho dela. Apenas fingi que não doeu e resolvi dar uma segunda chance para nossa amizade. Claro, teve a balança antes. Quem tem problema com esse aparelho tão temido no século 21 não deve se intimidar, é tudo profissional e você não precisa tirar a roupa (verifiquei). Eu fiquei feliz por não ter menos de 50kg e ser impedido de doar, era uma possibilidade.

O interrogatório A entrevista em si foi interessante, não estou acostumado a pessoas querendo saber de mim nesse nível. A médica apenas repetiu o questionário do SIM ou NÃO, me olhando nos olhos, esperando cada resposta, como se elas não estivessem marcadas no papel sobre a mesa dela. "Minha senhora, está tudo escrito aí", eu quis dizer, mas apenas respondi novamente. Cada vez que eu respondia que NÃO tinha tal doença, eu imaginava ela pensando SIM, VOCÊ TEM. Estava quase confessado OK, EU TENHO AIDS, mesmo não tendo. É um pouco diferente responder num papel e falando com uma pessoa.

- Já fez sexo com homem que teve hepatite, aids, sífilis peste negra ou tenha feito transfusão de sangue?
- Não.
- Já fez sexo com homem que tenha feito sexo com outro homem?
- Não...
- Já fez sexo com homens?
- MINHA SENHORA, ONDE VOCÊ QUER CHEGAR? Não.
- Já fez sexo com prostitutas?
- TEM ESSA PERGUNTA AÍ? Não.
- Já recebeu dinheiro ou alguma outra coisa em troca de sexo?
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAH Moça... não.

Na pergunta do sexo por dinheiro, eu realmente dei um risinho de "kkkk essas perguntas", mas a mulher foi impassível. Perguntou tudo muito séria. Se eu fosse ela, apenas me divertiria inventando perguntas:

Eu: Já fez sexo com animais?
Pessoa: Não... oO
Eu: Nem com ovelhas?
Pessoa: Claro que não!
Eu: Jura, amigo? Com essa cara aí?
Pessoa: WTF?!

Eu: Já soltou flatulências em público?
Pessoa: Er... Não...
Eu: Olha, isso aqui é confidencial. A senhora não precisa mentir pra mim. Em elevadores, pelo menos?
Pessoa: Ok, umas duas vezes. .

Eu: Já fez sexo com homem que tenha feito sexo com mulher que fez sexo com outro homem que, na verdade, era irmão gêmeo do primeiro homem, porém malvado e com sífilis?
Pessoa: Talvez...?

Fora esses pequenos constrangimentos, a parte mais difícil para mim foi: COMER. Tinham me dito "Faça uma refeição leve antes de ir", e eu fiz, porém deveriam ter me dito: "Vá morto de fome, descubra seu mendigo interior". Antes de doar, você precisa comer umas coisas que eles dão. No meu caso, foram 3 pacotes de biscoito (naipe Club Social) mais umas balas mais QUATRO copos de suco. Para mim, foi muito (50kg etc). Mas sobrevivi.

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A agulha pode ser um pouco assustadora, é a picadinha de um mosquito africano. Você fica meio sentado, meio deitado numa cadeira confortável, abrindo e fechando a mão, sentindo um pouco de incômodo no braço, mas nada demais. Eu perguntei quanto demorava o processo, e me disseram "cerca de 12 minutos". Daí eu, opa, posso começar a ver um episódio de Parks and Recreation, mas, ué, acabou. Foram, sei lá, uns seis minutos.

Levantei da cadeira bem devagar, como se minha cabeça pudesse explodir caso eu fizesse movimentos bruscos. Caminhei lentamente para a saída pensando "Se eu desmaiar aqui... Pera, que cueca eu estou usando? Por que olhariam minha cueca em caso de desmaio? Iam abusar de mim? Por que as pessoas se importam com isso? Digo, com usarem roupa íntima velha, não com abuso..." até que cheguei num refeitório - meu deus, mais comida - onde todas as serventes me amavam como se fossem minha mãe. Tipo um harém sem sexo, sabe?

"Pode sentar, Doador, nós vamos trazer seu lanche."
"Não, Doador, fica sentado, não precisa levantar"
"Parabéns, Doador, aproveite seu lanche"
"Está se sentindo bem, Doador? Pode deixar tudo aí na mesa, nós vamos buscar"

O lanche foi muito melhor dessa vez. Croissant de queijo, bolo de chocolate, uma caixinha de suco, barra de cereal... Nunca que eu ia conseguir comer tudo, mas comi o máximo que deu, pra não cair na rua e tal.

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Não passei mal. Não senti nada. Andei até a Central do Brasil, passei quase duas horas num ônibus e cheguei em casa sem notar que estava com menos sangue. Eu sei que tem gente que doou e sentiu efeitos colaterais (fraqueza, tontura...), porém a dica que eu não segui é ir acompanhado. No fim das contas, você ainda ganha um dia livre no trabalho e um exame de sangue completo.

A experiência pra mim foi muito positiva, recomendo a todos. Vá para ajudar alguém, vá por diversão, vá pelo lanche, apenas vá. Eu pretendo continuar e, da próxima vez, levar mais gente.