Em 90% dos casos que me dão vergonha extrema, eu sei que o que sinto é irracional, ilógico. Saber disso não diminui em nada a vergonha, não é algo que eu escolho sentir ou não. O pior é que, quem me conhece pessoalmente sabe, eu fico visivelmente vermelho, nem dá para disfarçar. Mas, enfim, eu comentei no último texto como esse meu medo de passar vergonha me tira um monte de coisas.

Daí que meu aniversário chegou (e já passou faz mais de um mês, gente, não precisa me parabenizar!), e eu queria dar a mim mesmo um presente especial. Eu sempre faço isso. Um presente marcante, útil, revolucionário e satisfatório. Entendam que minha definição de especial é uma coisa muito pessoal. Então, inspirado pelo meu livro favorito, eu descobri o que eu queria.



Aí comprei uma vela perfumada.

Brincadeira. 

Dei a mim mesmo uma Semana sem Vergonha. Uma semana de ousadia (UEPA!), de confiança e de autoestima alta. A vergonha não iria embora da noite para o dia, né? Não, continuei com vergonha, mas, nessa semana, eu me proibi de deixar de fazer coisas que queria só por sentir vergonha. Não era uma semana de proibição, na verdade. Era uma semana de permissão. Tudo estava permitido, mesmo que meu psicológico dissesse que, ei, você não vê como está ridículo? 

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Foram muitas emoções? FORAM.

Uma coisa que eu tinha que presenciar toda semana era a ginástica laboral que tem lá no trabalho. Gente, que troço constrangedor. Basicamente, é um alongamento. Chega lá o profissional da ginástica, convida todo o pessoal da sala (Você, seus colegas de trabalho, os velhos, os novos, a secretária, o pessoal do cafezinho, seu chefe) e faz coisas que você vê na academia ou numa aula de Educação Física. "Estica o braço, mão direita nas costas, desce até o chão, bunda pro alto, segura o  pé esquerdo". Tipo, ali. Na sala. Você em posições antinaturais na frente dos seus colegas de trabalho. Eu morria só de olhar. A maioria do pessoal participava, eu não. Mas queria. É um benefício, se alongar faz bem, um clima de descontração e tal, a menina que aplica a ginástica é super legal etc.

EU FIZ. Ninguém acreditou quando eu fui o primeiro a levantar (nem eu). Minha cara queimou? SIM. Me bateu um cagaço? SIM. Cheguei a cagar nas calças de verdade? TALVEZ. Mas fiz tudo. Ainda ri, fiz piada (Fazer piada é minha defesa automática), gostei. Resultado: Faço sempre agora. A vergonha diminui a cada vez.

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Outro momento grandioso pra mim foi quando eu fui num casamento, que é a festa onde gosto de me esconder e ficar sentado no meu lugar do início ao fim. Eu quis me desafiar naquela brincadeira da gravata, quando os padrinhos passam de mesa em mesa pedindo dinheiro para os noivos. O cara passando com o microfone, fazendo piadas (ruins), galera colocando 2, 5, 10 e 20 reais no chapéu, chega na minha mesa.

- O QUE QUE ESSA MESA TEM DE BOM? ACEITAMOS TUDO.

Só gente nova na mesa, todo mundo duro. Eu só me movimentei pra chegar no microfone e:

- ACEITA DENTE DE OURO?

Ah, lavei minha alma. A comoção geral da festa foi eu colocando uma oncinha no chapéu discretamente.

- UMA ONCINHAAAAAA. MEU DEUS DO CÉU, ALGUÉM FILMA ISSO AQUI. TOMA, JOGA A ONCINHA DE NOVO.

E eu tive que encenar o lance, pessoas batendo palma, flashes, todos rindo, eu rindo com um pedaço enorme da gravata... Festa de pobre, sempre as melhores. Gente rica não sabe viver.

Sei que vou morrer quando ver as fotos e assistir a filmagem. Mas, ó, foi bom.

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Conversei com pessoas no ônibus, no metrô, no refeitório. Usei capuz para não deixar minhas orelhas congelarem no Metrô, coisa que sempre quis fazer. Pedi informação, apareci em fotos, usei um mictório, entrei num carro, SUBI NUMA MOTO.

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Falhei terrivelmente numa festa que me chamaram para dançar quadrilha. Eu queria muito, mas não deu. Só pra ficar registrado que todo mundo tem limites e não é fácil encarar todos os seus medos assim logo de cara. Não deve ser saudável. Mas juro que fica para uma próxima oportunidade porque, caramba, aquela dança estava muito boa.

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Jogando os sete dias da Semana Sem Vergonha na ponta do lápis, o saldo foi positivo. Nossa, que semana. Eu adorando tudo, mas torcendo que, pelo amor de Deus, acabasse logo. E acabou. Não morri, não sofri bullying algum, ninguém riu de mim, só deu em coisa boa. O bom é que, depois desse desafio, eu levei o que deu certo comigo. Estou fazendo a laboral todo dia. E me convidem para o casamento de vocês porque eu estou planejando causar comoção com uma truta dessa vez :P

Foi o melhor presente, recomendo a todos, daqui a pouco eu apareço com mais história.