segunda-feira, agosto 25, 2014

Em 90% dos casos que me dão vergonha extrema, eu sei que o que sinto é irracional, ilógico. Saber disso não diminui em nada a vergonha, não é algo que eu escolho sentir ou não. O pior é que, quem me conhece pessoalmente sabe, eu fico visivelmente vermelho, nem dá para disfarçar. Mas, enfim, eu comentei no último texto como esse meu medo de passar vergonha me tira um monte de coisas.

Daí que meu aniversário chegou (e já passou faz mais de um mês, gente, não precisa me parabenizar!), e eu queria dar a mim mesmo um presente especial. Eu sempre faço isso. Um presente marcante, útil, revolucionário e satisfatório. Entendam que minha definição de especial é uma coisa muito pessoal. Então, inspirado pelo meu livro favorito, eu descobri o que eu queria.



Aí comprei uma vela perfumada.

Brincadeira. 

Dei a mim mesmo uma Semana sem Vergonha. Uma semana de ousadia (UEPA!), de confiança e de autoestima alta. A vergonha não iria embora da noite para o dia, né? Não, continuei com vergonha, mas, nessa semana, eu me proibi de deixar de fazer coisas que queria só por sentir vergonha. Não era uma semana de proibição, na verdade. Era uma semana de permissão. Tudo estava permitido, mesmo que meu psicológico dissesse que, ei, você não vê como está ridículo? 

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Foram muitas emoções? FORAM.

Uma coisa que eu tinha que presenciar toda semana era a ginástica laboral que tem lá no trabalho. Gente, que troço constrangedor. Basicamente, é um alongamento. Chega lá o profissional da ginástica, convida todo o pessoal da sala (Você, seus colegas de trabalho, os velhos, os novos, a secretária, o pessoal do cafezinho, seu chefe) e faz coisas que você vê na academia ou numa aula de Educação Física. "Estica o braço, mão direita nas costas, desce até o chão, bunda pro alto, segura o  pé esquerdo". Tipo, ali. Na sala. Você em posições antinaturais na frente dos seus colegas de trabalho. Eu morria só de olhar. A maioria do pessoal participava, eu não. Mas queria. É um benefício, se alongar faz bem, um clima de descontração e tal, a menina que aplica a ginástica é super legal etc.

EU FIZ. Ninguém acreditou quando eu fui o primeiro a levantar (nem eu). Minha cara queimou? SIM. Me bateu um cagaço? SIM. Cheguei a cagar nas calças de verdade? TALVEZ. Mas fiz tudo. Ainda ri, fiz piada (Fazer piada é minha defesa automática), gostei. Resultado: Faço sempre agora. A vergonha diminui a cada vez.

***

Outro momento grandioso pra mim foi quando eu fui num casamento, que é a festa onde gosto de me esconder e ficar sentado no meu lugar do início ao fim. Eu quis me desafiar naquela brincadeira da gravata, quando os padrinhos passam de mesa em mesa pedindo dinheiro para os noivos. O cara passando com o microfone, fazendo piadas (ruins), galera colocando 2, 5, 10 e 20 reais no chapéu, chega na minha mesa.

- O QUE QUE ESSA MESA TEM DE BOM? ACEITAMOS TUDO.

Só gente nova na mesa, todo mundo duro. Eu só me movimentei pra chegar no microfone e:

- ACEITA DENTE DE OURO?

Ah, lavei minha alma. A comoção geral da festa foi eu colocando uma oncinha no chapéu discretamente.

- UMA ONCINHAAAAAA. MEU DEUS DO CÉU, ALGUÉM FILMA ISSO AQUI. TOMA, JOGA A ONCINHA DE NOVO.

E eu tive que encenar o lance, pessoas batendo palma, flashes, todos rindo, eu rindo com um pedaço enorme da gravata... Festa de pobre, sempre as melhores. Gente rica não sabe viver.

Sei que vou morrer quando ver as fotos e assistir a filmagem. Mas, ó, foi bom.

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Conversei com pessoas no ônibus, no metrô, no refeitório. Usei capuz para não deixar minhas orelhas congelarem no Metrô, coisa que sempre quis fazer. Pedi informação, apareci em fotos, usei um mictório, entrei num carro, SUBI NUMA MOTO.

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Falhei terrivelmente numa festa que me chamaram para dançar quadrilha. Eu queria muito, mas não deu. Só pra ficar registrado que todo mundo tem limites e não é fácil encarar todos os seus medos assim logo de cara. Não deve ser saudável. Mas juro que fica para uma próxima oportunidade porque, caramba, aquela dança estava muito boa.

***

Jogando os sete dias da Semana Sem Vergonha na ponta do lápis, o saldo foi positivo. Nossa, que semana. Eu adorando tudo, mas torcendo que, pelo amor de Deus, acabasse logo. E acabou. Não morri, não sofri bullying algum, ninguém riu de mim, só deu em coisa boa. O bom é que, depois desse desafio, eu levei o que deu certo comigo. Estou fazendo a laboral todo dia. E me convidem para o casamento de vocês porque eu estou planejando causar comoção com uma truta dessa vez :P

Foi o melhor presente, recomendo a todos, daqui a pouco eu apareço com mais história.

Posted on segunda-feira, agosto 25, 2014 by Felipe Fagundes

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quinta-feira, agosto 14, 2014

Teve uma época em que existia, entre outras tantas, uma pergunta que eu não sabia responder: "Qual é o seu maior medo?". Tem gente que responde na lata. Medo de altura, de escuro, medo de ser enterrado vivo, da morte. Nem era por que eu não tinha resposta, eu tinha várias na verdade. E, por várias, eu quero dizer muitas. Não conseguia escolher um dos meus muitos medos paralisantes. E acho normal a pessoa ter algum medo de altura, medo de morrer, a gente nunca sabe se pode ter um serial killer no escuro... Existe instinto de sobrevivência, né? Mas eu não via como dançar ou posar para uma foto poderia me matar. Mas de alguma forma me matava por dentro.

Daí que eu fiz uma lista com todos os meus medos para saber qual deles era o maior dos maiores. Fui escrevendo sem pensar muito, lembrando de todas as vezes que senti aquele pavor sem explicação, que deixava minha cara quente, minhas mãos suando, tudo girando... Parei no medo nº 30 porque, gente, medo de TRINTA coisas? Não é normal, né? E eu podia continuar enchendo a lista com muito mais itens. Parei para analisar e constatei que, na verdade, os trinta medos (e contando) eram variações muito específicas de um só: Humilhação Pública.


Demorei um pouco para absorver, mas, putz, total era isso. Eu tenho medo de Academia porque não sei lidar com os aparelhos, me imagino sentando do lado errado ou usando para alguma coisa que eles não servem, todos rindo de mim, tirando fotos. Mesma coisa de pedir bebida no almoço. Não sei as opções, detesto me embolar na frente das pessoas, fazer o garçom esperar, não saber os valores, correr o risco de atirar o garfo em alguém (já fiz). Morro quando tenho que passar perto de crianças jogando bola, vejo a bola me acertando na cabeça ou alguém pedindo pra eu chutar, e eu chutar de um jeito desengonçado ou tropeçar na bola e cair...

Loucura, né? Já perdi muitos momentos na vida por causa desses medos. Quantas caronas pra casa eu já perdi com vergonha de entrar em carros ou subir numa moto! Quantas vezes eu quis dançar, mas fiquei sentado vendo o povo se divertir pra caramba! Já perdi a conta das fotos das quais não participei e me arrependi depois de vê-las no Facebook. Se você der uma stalkeada básica nos meus álbuns, vai ver que apareço em poucas fotos (E com certeza reclamei "Foto nãaaooo" em todas que apareci antes de serem tiradas). Vai notar que troco a foto do perfil uma vez na vida e outra na morte. Vergonha por não ser fotogênico, sair todo troncho, pessoas comentando, piadas de mau gosto...

Vocês devem achar tudo isso meio idiota e exagerado, eu sei como é ver a coisa de fora, mas é por isso que aceito todo tipo de medo que os outros tenham. Tem medo de palhaço? Tem medo de pente fino? Tem medo de sentar num balanço? Beleza. Respeito. Fica na tua que eu fico na minha.

Posted on quinta-feira, agosto 14, 2014 by Felipe Fagundes

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