Existe aquela falácia de que fofoca é coisa de mulher. Quando surge um homem que aprecia o compartilhamento de informações, as pessoas se sentem obrigadas a comentar "Noooossa, pior que mulher". Até porque os seres mais fofoqueiros do universo são as mulheres. Não me darei ao trabalho de procurar por estatísticas, mas, honestamente, apenas acho que fofoca nada tem a ver com o gênero da pessoa. Inclusive, acho que há mais homens fofoqueiros Vide aquela famosa série de TV. Vocês sabem qual. Esqueça aquela imagem da fulana comentando no ouvido da outra, da dona na janela querendo saber da vida dos outros. Qualquer comentário que você faz sobre uma coisa que você ouviu, principalmente quando você altera a informação, é fofoca. É muito difícil você ouvir um homem falar "Vamos fofocar", mas quando você percebe o que acontece na prática...

Mas, enfim.

Estava eu assistindo a aula de domingo na igreja (que, ironicamente, não é exatamente o lugar menos propício para fofocas), fazendo parte de um círculo de cadeiras, o professor falando alguma coisa da qual já me esqueci. Estávamos ao ar livre, porque os demais lugares estavam ocupados com outras turmas, é melhor para ficar longe do barulho. Juro para vocês que eu estava prestando atenção, até uma conversa atraiu minha atenção. Uma mulher parada perto do círculo estava contando em voz baixa para um homem que:

- Pastor foi para o hospital... É, passou muito mal... Quase não conseguia dirigir... Está internado.


Gente, eu só ouvi isso. Quer dizer, nem era da minha conta. Nem estavam falando comigo. Ouvi casualmente e jurava que não tinha absorvido aquilo por osmose. A aula rolou por mais alguns minutos, até que o professor, que é carne e unha com o pastor, diz:

- Que estranho. Pastor não apareceu até agora. Não sei o que houve, ele não me disse nada.
- Ele não tá no hospital?

Eu falei automaticamente. Sem pensar. Silêncio no recinto.

- PASTOR ESTÁ NO HOSPITAL?

Sabe aquele desespero que bate quando você sabe que fez besteira? Mas tentei minimizar.

- Esquece o que eu disse, continua a aula, sei de nada.

E a aula continuou. No final, todas as classes se reuniram para fazer a oração final para todo mundo ir feliz para casa. Meu professor ficou encarregado de fazer essa oração, todos se colocaram de pé, ele pegou no microfone e:

- Então, pessoal, vamos orar. Mas, antes disso, uma pessoa comentou que o Pastor...

Gelei. 

- ... está INTERNADO no HOSPITAL, o FELIPE me disse, eu não estou sabendo de nada direito, VAMOS ORAR PELO NOSSO PASTOR.

Gente. Eu não sabia onde enfiar minha cara. A igreja toda virou pra mim como se eu tivesse informações valiosas sobre o estado gravíssimo do pastor morrendo no hospital, meu professor com os olhos cheios d'água. A mulher que tinha me "passado" a informação olhou para mim com cara de "COMO VOCÊ SABE???". Gente, podia ser qualquer outro pastor. Podia ser qualquer coisa. E nada da terra se abrir pra me engolir.

- Er...

Mas a mulher falou por mim e explicou o caso. Pastor passou mal e estava no soro. Só. Mas quem disse que a minha cara vermelha sumia?

Olha. NUNCA MAIS. Meu deus, nunca mais. Fofoca é coisa de mulher? NÃO. Homem faz fofoca? FAZ. Depois desse momento embaraçoso, eu vou tomar cuidado com as coisas que eu ouço e falo? TALVEZ. Não existe nenhum nível de fofoca aceitável, né? Existe fofoca do bem? Acho que não, uma pena, vou ter que trabalhar mais nisso.