terça-feira, julho 06, 2021

Comecei esse blog dizendo que eu sou um personagem. Na época, eu me sentia exatamente assim, como se minha vida fosse inteira roteirizada, como se eu pudesse achar um dos meus roteiristas atrás de uma cortina se eles dessem mole e eu fosse rápido o bastante. A gente tem essa mania, né, de tentar explicar os fatos aleatórios, os altos e baixos. Eu particularmente encontrei muita dificuldade de sentido quando acharam que um demônio apareceu na selfie da minha prima. Ou quando o Ícaro Silva me mandou dançar lá de cima do palco. Ou ainda quando sem querer me sequei com a toalha de outra pessoa dentro de um vestiário. Com certeza eu estava numa série de TV! Numa sitcom!



Depois disso, eu atirei um garfo no meu chefe. E me enrolaram em papel higiênico da cabeça aos pés. Eu literalmente fiquei famoso na internet por causa de 1 tweet e apareci na TV! Teve aquela vez que eu tomei coragem e saí da casa da minha mãe, fui viver em outra cidade. E aquela reviravolta incrível de que larguei um emprego bom, fui para um ruim, FUI DEMITIDO e consegui um emprego ainda melhor que todos esses, estou nele até hoje.

Os textos que fizeram mais sucesso aqui no blog, além das viagens que nunca terminei, foram aqueles que vocês me viram ir de menino de Jesus para gay rebelde. Vocês viram meu primeiro beijo. Eu tinha 26 anos, meu Deus. QUEM dá o primeiro beijo aos 26 anos? Com certeza a mesma pessoa que começa a namorar com o primeiro match que saiu do Tinder para a vida offline.

É uma série de TV, não é? Daquelas que a gente assiste sem esperar nada profundo, talvez daquelas que a gente deixa a TV ligada e vai passar pano na casa. Cafona, por vezes inverossímil, ligeiramente simpática e com umas temporadas muito melhores que outras. Modéstia à parte, eu tenho muito orgulho das histórias que criei nesse blog.

Vocês já sacaram que o blog acaba hoje, confere?

Na verdade, gente, acho que ele já acabou e eu esqueci de contar. Ali os créditos subindo.

Acontece que toda série de TV tem que acabar. Menos Grey's Anatomy, aparentemente, mas é porque dá muito dinheiro. Mas Não Sei Lidar, eu gosto de pensar que o nome da minha série é Não Sei Lidar, foi legal, cativou algum público, mas agora os atores protagonistas querem fazer outra coisa da vida e é muito difícil seguir em frente sem eles, já que não inventamos nenhum filho para o personagem. Ou um irmão gêmeo do mal. Um cachorro, pelo menos. Mas eu é que não ia deixar minha série ser cancelada! Então, melhor que o cancelamento, só uma temporada bem fechadinha.

E essa história tem final feliz.

Eu acho, né. O problema do final feliz é que a gente não sabe realmente se ele é um final de verdade, não dá pra saber. Quando é triste tá na cara, porque a pessoa morre e vai com Deus, mas o feliz? A pessoa que termina grávida pode perder o bebê ou, que Deus a proteja, nascer uma criança feia. O casal que termina namorando pode brigar uma semana depois. Quem casa dá em divórcio. Quem abre um negócio pode perder tudo e virar coach. E muito pior que morrer ou ser preso é virar coach, todo mundo sabe. Mas a gente gosta de acreditar que, se a gente não viu, não aconteceu, então, se a última cena é feliz, feliz para sempre será.

E eu tô me agarrando a isso, porque é o que conta.

Realizei todos os meus sonhos? Não. Fiquei rico, pelo menos? Também não. Ô, cacete, engravidei então? Não, mas, se eu engravidasse, a criança seria lindíssima.

Mas eu de fato casei!!! Não é piada, eu realmente casei.

Eu e Arthur segurando nossa certidão de casamento

Pois é, o Felipe de 2013 que começou a escrever esse blog jamais, eu disse JAMAIS, imaginaria que esse fosse ser o seu final feliz 8 anos depois. Casado não apenas com um HOMEM, mas um homem GOSTOSO Arthur morre de vergonha quando me vê falando essas coisas na internet, mas, caramba, eu ganhei na loteria gay. Eu continuo bem gay, aliás. A cada dia mais. Conseguimos equilibrar nossas contas, montamos nossa casinha juntos e, nossa, me sinto morando no Paraíso. Não naquele paraíso bíblico onde as pessoas vestem branco o dia todo e ficam, sei lá, tocando harpa, mas em um que construímos com amor, carinho, confiança e respeito. Engraçado que desde o nosso primeiro encontro eu já sentia que ia dar certo. Não dizia isso em voz alta, mas, quando dizia, minhas amigas ficavam CALMA, você acabou de conhecer o menino, que já vai casar o quê. Não ia casar logo de cara, né, mas de alguma forma sabia que era só questão de tempo. Arthur é meu encaixe perfeito.

Minha família tá bem, ninguém morreu. Meu chefe não quer me matar e eu também não quero que ele morra, o que eu já acho mais que suficiente para ser feliz no trabalho. Amigos eu tenho aos montes. Em 8 anos soltei a mão de alguns, mas agarrei várias outras mãos incríveis. Continuo lendo, fofocando sobre livros nos meus clubes, escrevendo minhas próprias histórias. Um dia vocês estarão matando tempo numa livraria e vão dizer NOSSA, olha o livro do Felipe aqui! Pode acontecer ano que vem ou daqui a vinte anos, quem viver verá.

Sobre Deus... Essa parte é muito complexa porque eu não sei bem se o final feliz seria eu me arrependendo de todos os meus pecados e voltando para os braços de Jesus OU tendo a certeza de que o Cristianismo é uma farsa e precisa acabar para eu enfim me libertar. Fica aí esse plot em aberto. Nem lá, nem cá, mas, se quiser me ganhar de volta, Jesus vai ter que se esforçar um pouco mais. Com certeza acabei de cometer um pecado digitando isso, mas eu já vou pro inferno por ser gay mesmo.

Eu já falei que tem um texto meu no The Intercept? Porque nunca vou parar de dizer isso. Quero que deixem essa informação na minha lápide. Ou algo do tipo "Morri, mas venci na vida horrores".

Hoje o blog acaba, mas eu não. Vou continuar escrevendo em outro lugar, de outro jeito, só não sei onde nem como e muito menos quando. A gente se esbarra por aí. Eu prometo.



A melhor fonte de notícias sobre a minha vida atualmente é meu perfil no Twitter, @felipe_fgnds. Se você não me segue lá, esse é um bom momento. Falo até o que não devo. Quando eu voltar a escrever textos engraçadinhos e ligeiramente preocupantes, é por lá provavelmente que você vai saber.

Mas, se não quiser se dá o trabalho, deixe seu e-mail nesse formulário aqui! Que eu te aviso quando eu e a nova casa estivermos prontos para receber visitas.

Em breve, NaoSeiLidar.com.br vai deixar de ser um lugar que existe na internet, mas o blog estará aqui até eu começar a sentir muita vergonha dele e trancá-lo, mas acho que não vai acontecer ou vai demorar. Os links ficarão todos quebrados, mas vocês que chegaram depois e estão aqui para me stalkear precisam se esforçar também, né, não vou dar tudo de mão beijada mais do que já dou.

Estou delirando.

Fiquem bem no que depender de vocês, ok? Vocês que leram, comentaram, compartilharam ou mesmo mandaram um pensamento positivo (eu recebi) me fizeram muito feliz nesse tempo todo. Espero ter retribuído à altura. 

Agora troquem de canal e voltem a passar pano, que essa casa não vai ficar limpa sozinha.

Posted on terça-feira, julho 06, 2021 by Felipe Fagundes

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sexta-feira, dezembro 11, 2020

Leio ficção ativamente desde 2010, e toda pessoa que lê muito acaba chegando na mesma conclusão: precisa comprar muito. Chega uma hora que seus livros simplesmente acabam. E, se você não quiser entrar na ilegalidade, vai depender do seu bolso para conseguir novas histórias.



Ah, mas tem biblioteca, tem meu amigo que empresta, eu gosto de ler ebook e pago só vinte centavos por mês


Legal, mas então esse post não é para você. Também tenho acesso a isso tudo e amo ler ebooks, mas ainda não é incomum encontrar pessoas que gostam de ler exclusivamente livros físicos. São estes que ultimamente andam custando um rim. Se você sente a necessidade de comprar mais de dois ou três livros por mês, já sabe que metade do seu salário vai ficar nisso (um exagero, mas parece que estamos chegando lá).


Então como faço para diminuir a dor da facada comprando livros físicos?


Já te adianto que NADA nesse mundo vai te vender livros novos de 300 páginas a 2 reais, não existe mágica para comprar livros, mas economizar um pouquinho aqui e ali você consegue, sim. Vamos às dicas! 


1) Paciência 



Prejudica muito o orçamento quando você só quer ler os lançamentos que saíram ontem. Nada contra, na verdade, mas você precisa comprar agora? Existe um mundo de livros em promoção, mas os lançamentos raramente entram nelas. Um livro que hoje custa 50 reais daqui a 6 meses pode estar custando 30 numa promoção relâmpago. Você pode ganhar num sorteio. Alguém pode te presentear. Saber esperar por um livro me ajuda muito a não sair dando meu suado dinheiro em livros que talvez eu pague caro e fiquem aqui em casa pegando poeira, já que tenho outros para ler também. Espere pelo livro, ele não vai desaparecer.


2) Troca de livros


Troco meus livros desde 2014 e até hoje já foram mais de 100 trocas. Já pensou nisso? Tem muito livro que eu leio e não gosto ou então livros que não vejo necessidade de ter em casa, livros que sei que não irei reler. Eu fico com todos os meus favoritos, mas troco todo o resto. Existem diversos sites e grupos na internet destinados a esse tipo de troca e eu recomendo demais. Você manda um livro que não quer mais e, tcharam, ganha um livro novo! É quase mágica.


O envio é feito pelos Correios, então algum dinheiro você precisa desembolsar. Existe a categoria Registro Módico, que é exclusiva para livros e sai muito mais barato do que SEDEX e PAC. Depende do peso do livro, mas no geral fica menos de 10 reais.


Usar desses espaços de troca acaba sendo um exercício de paciência também. Nem sempre os livros que você quer estão disponíveis. Eu faço assim: saiu um lançamento que quero ler? Marco no site como desejado e espero até que uma boa alma coloque esse livro para troca. Um dia, aparece.


3) Sites de Cashback



Mas eu entendo que às vezes a gente simplesmente quer comprar aquele livro que acabou de sair. Não dá pra esperar. Ou é uma emergência, é para estudo, é um presente. Os livros que o meu clube do livro escolhe caem muito nessa categoria, pois preciso comprar e ler antes da data do encontro. Então recorro aos sites de cashback. Para quem nunca ouviu falar, cashback é "dinheiro de volta". Comprando através desses sites/aplicativos, eles te devolvem uma pequena porcentagem. Por exemplo, se você compra um livro de 30 reais, eles te devolvem alguns centavos. Sim, não é uma grande economia, mas é dinheiro de graça, gente. Depois de um tempo, você junta esses centavos e compra um livro novo.


4) Cupons de desconto


Essa aqui é uma dica patrocinada pelo site Cupom Válido. Mas, mesmo se não fosse, eu iria recomendar porque trabalha pelo nosso bolso muito melhor que sites de cashback na maioria das vezes. O que deixa um pouco a desejar em sites de cashback é que o desconto, digamos assim, é muito baixo: 3%, 5%, raramente chegamos em 10% de dinheiro de volta. Os cupons são mais generosos. Por exemplo, acessando o site do Cupom Válido agora e procurando por cupons da Amazon, que é a loja onde geralmente compro meus livros, esses são os primeiros que aparecem:


Lista de cupons da Amazon dando 50%, 75%, 80% de desconto em livros


Sentiu a diferença? Aproveitar essas promoções específicas vale muito mais a pena do que ganhar centavos com o cashback. Claro, você precisa querer os livros que estão com preços promocionais e tem lançamentos que realmente nunca entram em promoção, mas, no caso de procurar um presente para alguém, por exemplo, você pode facilmente se guiar pela lista de cupons.


As promoções já estão nas lojas, mas nem sempre você fica sabendo. Nos sites, há muitas informações, muitas ofertas ao mesmo tempo. O Cupom Válido, nesse caso, funciona como um agregador de promoções, você consegue ver tudo numa página só. Tô falando aqui de livros, mas o Cupom Válido trabalha com lojas que vendem diversos produtos. Recomendo sempre dar uma olhada antes de comprar qualquer coisa na internet, pode ter um cupom perfeito que se encaixa com seu desejo de consumo.


5) Serviços de Frete Grátis


Algumas lojas virtuais oferecem serviços de frete grátis que talvez valham a pena você dar uma olhada. Eu que moro no Rio de Janeiro já fico desgostoso quando o frete vai se aproximando dos dez reais. Pessoal que mora no Norte/Nordeste sofre ainda mais com isso, alguns fretes ficam com valores exorbitantes, mais caros que os próprios livros comprados. Então, um frete grátis vem muito a calhar. Às vezes, o valor que se paga mensalmente por esses serviços compensa se você compra muitos livros por mês. Alguns também te dão outros benefícios, mas aí cada loja faz do seu jeito.


Acho que é isso! É assim que atualmente eu tenho 20 livros em casa para ler e não gasto mais que 30 reais em livro todo mês. Vocês têm mais algumas dicas que funcionam para vocês? Me contem! Tô sempre atrás de um desconto.




Sabe onde mais estou falando sobre livros? No Instagram do clube! Estou me dedicando a ele um pouco mais agora, criando conteúdo e interagindo mais por lá.

Posted on sexta-feira, dezembro 11, 2020 by Felipe Fagundes

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terça-feira, novembro 17, 2020

Amo pular páginas. Sempre rola uma comoção quando dou a entender, casualmente, que meu hábito favorito de leitura é esse. Não sei se as pessoas me entendem. Não que eu queira me justificar, não tô aqui buscando o PERDÃO de ninguém, é que eu acho que quem não pula é que perde horrores. Você tem o costume de pular páginas?



Entendo que pega mal. Quer dizer, eu leio desde sempre, tô falando de livros desde que vim capinar o matagal da internet, agora eu organizo clubes do livro e muita gente me agradece por esse trabalho, por eu ter ajudado a ressuscitar o hábito de leitura de gente que tinha deixado os livros um pouquinho de lado. Pular páginas parece coisa de quem não gosta de ler, de quem está lendo por obrigação e só quer chegar logo ao final para se ver livre da tarefa. Eu particularmente nem tenho nada contra quem faz isso, o livro é seu, pode ler de trás pra frente se quiser, mas não é por isso que pulo páginas.


Pulo para o livro ficar melhor. Pular páginas, pra mim, é melhorar a minha experiência de leitura.


Pessoal do clube do livro fica dizendo que eu deveria dar um curso. Não tenho essa cara-de-pau, mas na minha cabeça realmente existe uma técnica. Não saio pulando páginas aleatoriamente. Preciso primeiro sentir que posso pular aquela cena, aquele parágrafo, aquelas páginas. Não é qualquer página que dá para ser pulada, mas o processo é muito pessoal e só você vai saber quais páginas são boas para serem lidas. Vai muito do seu autoconhecimento enquanto leitor.


Eu tenho exemplos.


"Fangirl" é um livro da Rainbow Rowell, que é uma escritora que eu amo, tudo que essa mulher escreve me encanta pelo jeito que ela usa as palavras. Nesse Fangirl, bom, ela conta a história de uma menina indo para a faculdade, uma menina que escreve fanfics. Até aí tudo bem. O livro fica alternando os capítulos entre a vida da protagonista na universidade (as amizades dela, os relacionamentos amorosos, professores, dramas familiares etc) e as histórias que ela escreve. Sim, história dentro de história, que é um artifício que eu realmente odeio. Eu nunca fui muito feliz com livros nesse formato. Enquanto eu lia muito animado os capítulos da protagonista, quase morria pra finalizar os capítulos da fanfic, que é uma história de fantasia, gênero que já não me apetece muito. Era até engraçadinha e tal, mas não acrescentava EM NADA à história original. Muito mal se conectava com a trama, eram páginas e mais páginas descrevendo cenas que, ao meu ver, eram inúteis. Bastava saber que a menina escrevia fanfics de uma série naipe Harry Potter. Pulei sem dó. Li o livro até o final, continuei amando a autora, Fangirl é um dos melhores livros dela, na minha opinião.



Outro caso foi com o "Por trás de seus olhos", da Sarah Pinborough, que foi uma das escolhas do clube do livro. O livro fala do drama de uma mulher que se vê dividida entre a melhor amiga e o marido dessa amiga. Comecei lendo realmente muito curioso, a história é instigante, a escrita te leva longe. A protagonista entende que tá sendo fura-olho pegando o marido da amiga, mas está muito apaixonada pelo cara. E o casamento deles é todo esquisito mesmo, parece um relacionamento abusivo girando em várias direções. Aí notei um padrão. Toda santa vez que, por exemplo, o marido mandava uma mensagem para a protagonista do tipo "ei, vamo transar", ela ficava MAS NUNCA que vou fazer isso com minha amiga incrível, CHEGA DESSE HOMEM, aconteceu uma vez só sem querer, mas agora BASTA. Aqui eu tô resumindo. Mas eram umas cinco páginas da gente lendo os motivos que ela tinha pra nunca mais ficar perto desse homem, pra na última frase ela beber vinho, se chatear com a amiga por qualquer coisa e ficar QUER SABER? VOU DAR PRA ELE SIM. E aí ia. O tempo todo isso, gente. Às vezes ia na direção da amiga, às vezes na direção do cara. Mas era batata. Mil páginas falando que não ia fazer e, do nada, jogar tudo para o alto e fazer o oposto. Fiquei, meu deus, PRA QUE ESTOU LENDO ISSO se logo em seguida essa DESGRAÇADA vai cagar para o que disse? Quando comecei a identificar que vinha a lengalenga de sempre, pulava até ela efetivamente fazer o malfeito. Nossa, a leitura voou. O final é muito surpreendente, ou você termina de queixo no chão ou ultrajado com a reviravolta. Adorei ter passado por essa experiência!


Deu para entender meu ponto? Eu só pulo páginas em livros que estou gostando. Evito páginas que considero inúteis ou só vão me irritar sem acrescentar nada de novo. Às vezes o livro é incrível, mas tem uma parte muita chata, eu corto ela da minha experiência. É como tentar salvar um legume meio podre. O que é ruim a gente corta fora, a parte que sobra a gente consome. Quando o livro é ruim como um todo, na minha opinião, aí eu nem avanço na leitura. Eu abandono. Tenho certeza de que, se eu tivesse tentado ler de cabo a rabo esses livros que citei, teria ou abandonado ou terminado com uma avaliação bem negativa. Sem contar as horas gastas lendo coisa chata.


Ah, mas tenho medo de pular e perder coisa importante. Se for importante, você volta, ué. Ninguém morre por isso. Mas, como eu disse, vai muito de você saber identificar o que faz sentido para você ler. Um fã de fantasia, que ama Harry Potter, por exemplo, provavelmente seria muito feliz lendo os capítulos da fanfic em Fangirl. Cabe a você decidir. Também não é sobre ser importante ou não para o enredo do livro. Tem livros com capítulos imensos e inúteis, mas que eu gosto de ler porque sim. A escrita é boa, as cenas são engraçadas, eu amo ver os personagens interagindo... Eu pulo o que eu sinto que não vou gostar. Como eu disse, há séculos que sou leitor, então tem muita coisa que já sei que não rola para mim: história dentro de história, personagens sonhando, cenas com personagens alucinando, gente perdida em floresta e alguns formatos repetitivos como rolou com o "Por trás de seus olhos".


Ah, mas o autor e o editor pensam muito bem em construir a narrativa, tudo que está no livro é importante. Assim... Eu concordo que quem trabalha no livro realmente se esforça para que fique o melhor possível, mas o conceito de melhor é muito subjetivo. Melhor pra quem? A melhor forma do Fangirl pra mim seria ele sem os capítulos da fanfic. Obviamente a autora e quem editou o livro discordam de mim, e isso não é um problema. Pular páginas é minha forma de eu mesmo editar o livro para deixá-lo do jeito que me interessa. E, pelo amor de Deus, livros são escritos por pessoas, gente que erra, que toma decisões questionáveis, quantas vezes você não já leu um livro cujo final você odiou pois pareceu completamente incoerente com o resto da história? Nunca um livro vai ser publicado da melhor forma para todo mundo. Poder até ser a melhor forma para a maioria, mas para todo mundo não. Me sinto muito poderoso, cabe a mim mesmo fazer do livro a melhor experiência de leitura que eu puder.



Um exemplo que considero maravilhoso e que põe logo o prego no caixão dessa discussão é o Memórias Póstumas de Brás Cubas. Juro pra vocês que não estou faltando com a verdade, assim como fui ilibado ao demonstrar a subtrama homossexual em Dom Casmurro. Machado de Assis sempre a frente de seu tempo, ai, ai. Um dos capítulos do Memórias, não vou reproduzir com as exatas palavras, mas começa assim: "Olha, o capítulo a seguir é um grande delírio, então, se você quiser pular, pode, não acrescenta em nada". EU JURO, GENTE. E eu realmente odeio delírios!!! O AUTOR ME DEU O AVAL PARA SER FELIZ. Obviamente pulei. E vocês ainda nisso, ah, mas o autor quer que a gente leia tudo. Gente, o autor quer DINHEIRO, quer que você COMPRE O LIVRO. Depois de comprado você pode até botar fogo. Em outra parte do livro, eu senti que ia começar uma cena longa e desnecessária, então pulei o capítulo. Fiquei muito surpreso que o capítulo seguinte começa mais ou menos assim: "Eu sei que o capítulo anterior parece inútil, mas te garanto que não é. Se você pulou, te aconselho a voltar lá e ler". JURO DEMAIS, GENTE. Vocês que já leram Memórias Póstumas sabem que isso está lá! 


Então, assim, até o Machado de Assis sabia que tudo bem pular as páginas certas. Algumas precisam ser lidas, outras não necessariamente. O livro é seu, a experiência é sua, faça o que for melhor para você. Fico me perguntando o tanto de livro que vocês odiaram e que poderiam ter sido muito mais divertidos fazendo os cortes bem feitos. Dê seus pulos! Se um dia eu montar um curso, vocês saberão.




Nesse meio tempo entre um post e outro, estava brincando nas casas virtuais de outras pessoas. Dei uma mini-entrevista para o Rata de Biblioteca, falando da minha relação com a Biblioteca Parque RJ e de como ela ajuda os meus clubes do livro presenciais. Já leu?



Também ousei e participei de um podcast! Vocês que me acompanham exclusivamente aqui pelo blog provavelmente nunca ouviram minha voz, então talvez tenham interesse em ouvir o Eu-Lírico, da Laura Rubianes. O podcast é voltado para livros de terror e suspense, e nesse episódio a Laura me chamou para conversar sobre A Garota do Lago, um best-seller que foi lido pelo clube do livro e que, na minha opinião, está sendo um grande delírio coletivo nas listas de Mais Vendidos do Brasil. Ouça o episódio aqui!




Posted on terça-feira, novembro 17, 2020 by Felipe Fagundes

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terça-feira, outubro 27, 2020

Fiquei mais de um mês sem ligar pra minha mãe. O pior de tudo é que nem percebi.


Um dia, se eu tiver tempo e oportunidade, ainda vou escrever um livro sobre isso. No que tange questões familiares, eu nunca me identifiquei 100% com nenhuma família representada na ficção. Temos as famílias felizes, dessas que tem uns conflitos no meio, mas no fim das contas todo mundo coloca as diferenças de lado e se ajuda quando precisa. Tem aquelas pessoas que vivem pela família. Tem a irmã que se voluntaria como tributo pela outra. Tem os pais que se sacrificam pelos filhos. Lógico que o outro lado da moeda também aparece bastante nos livros e filmes: as famílias completamente despedaçadas, abusivas, disfuncionais. Sempre tem alguém que ama demais, sempre tem gente que se odeia até a morte. É um espectro até bem abrangente, mas não consigo me ver nele.


Maçãs penduradas em galhos de árvore


Não tenho nenhum carinho especial pela minha genealogia, talvez porque eu seja um fruto que caiu um pouco longe demais da árvore. Acho o conceito de "laço de sangue" uma bobagem. Amo minha mãe porque ela me criou, não porque ela me pariu. Sigo esse mesmo raciocínio com os demais parentes. Uma tia que nunca teve participação na minha vida é apenas uma conhecida. Dos meus primos distantes eu mal sei o nome. Às vezes a gente se aproxima, às vezes a gente se afasta e, pra mim, isso é natural. É o que acontece com todas as minhas amizades: um amigo com o qual eu não tenho mais assunto, que a gente nunca se procura, nunca se vê, vira uma lembrança. Os parentes que esperam de mim alguma coisa só por sermos da mesma família estão fadados à frustração. EU COMECEI ESSE POST DIZENDO QUE ESQUECI DA MINHA MÃE, pelo amor de Deus.


E, gente, eu realmente amo a minha mãe. Quando vou visitar, fico grudado nela. Adoro o carinho que ela me dá, amo abraçar. Ela tem um riso facílimo que me deixa muito feliz. Minhas irmãs, meus primos e tias, minhas crianças, eu não tenho nada contra ninguém. Nenhuma briga mal resolvida, nenhum ódio mortal básico por causa das eleições 2018, se algum dia alguém me tratou mal eu já esqueci. A gente se dá bem, de vez em quando a gente senta pra rir e conversar, passo horas nos jogos de tabuleiro com meus sobrinhos... Então, assim, é um mistério eu não sentir saudades de ninguém. O que eu tenho pela minha família é gratidão, eu acho. Fui amado em todas as linguagens do amor na infância e adolescência. Minha mãe fez de um tudo pra me manter numa escola boa, sempre incentivou meus estudos. Se hoje eu tenho um diploma que ela nunca teve, um emprego estável que ela também nunca alcançou, um salário que dá para sustentar a mim e a ela, foi tanto mérito dela quanto meu. Mais da metade do meu dinheiro vai para minha mãe e, se eu pudesse viver com menos pra ela viver com mais, eu viveria. Ela merece. Eu gosto de todos os demais, mas mais de uma vez pensei que, se minha mãe morresse, não sei o que me faria ir até eles novamente sem ela por lá.


Já conversei com amigos sobre isso, embora talvez devesse levar para um psicólogo, sou muito curioso em saber por que as pessoas amam suas famílias. Talvez você que me lê nunca tenha pensado sobre isso, para algumas pessoas soa como "Por que você gosta de sorrir?", mas encontrei algumas respostas. "Porque eles são meu porto seguro". Eu sou muito bom em resolver meus problemas sozinho e, quando preciso de colo, é meu namorado quem me dá. Quando me imagino triste e devastado, não penso na casa da minha mãe como lugar de curar minhas feridas. Nossa, ia ter que responder tantas perguntas! Eu prefiro até ficar chorando minhas pitangas sem ninguém. "Porque meus melhores amigos estão lá". Pois os meus estão todos do lado de fora. Ninguém da minha família é meu amigo íntimo. Meus segredos, minhas aflições e planos eu conto para outras pessoas. Eu jogo no Twitter, mas não compartilho com parente. "Porque eles me sustentam". Já tem uns anos que eu sou financeiramente independente, inclusive tem gente na minha família me devendo horrores.


A sensação que eu tenho, e eu evito dizer isso em voz alta, é que eu não preciso da minha família para nada. Eles poderiam sumir que minha vida não iria piorar. Aliás, era capaz da minha vida melhorar. (muito mais dinheiro, menos telefonemas que não gosto de dar, menos eventos que não gosto de ir, menos pessoas pra eu me preocupar...). Não que eu queira que eles MORRAM. Se todo mundo falecer num acidente trágico de avião, por exemplo, eu vou sofrer largado, mas digo sumir mesmo, pluft, como se nunca tivessem existido. Um cenário completamente irreal, eu sei, mas penso demais nisso. Tem dias que eu quase quero que eles sumam.


É bem fora do meu personagem revelar aqui um pensamento feio desses, mas o nome do blog é "Não sei lidar", então achei condizente. Vira e mexe me debato com esse conflito, já fui ao Google várias vezes ver se é sintoma de psicopatia (não é). Eu nem fui criado por lobos nem nada. Pensar assim não chega a me fazer mal, além de umas leves crises de consciência, só fico constrangidíssimo perto de gente que liga para a mãe todos os dias sem falta.




Revelei demais? Se diferente de mim você sabe não se expor gratuitamente na internet, mas gostaria de conversar sobre o assunto, pode me mandar um e-mail! O formulário de contato do blog funcionava em 2019, fica aí o suspense se ainda funciona, mas tente!

Se você já perdeu as rédeas da sua vida na internet, então deixe um comentário aqui mesmo. Você ama sua família? Consegue me dizer o porquê?


Posted on terça-feira, outubro 27, 2020 by Felipe Fagundes

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terça-feira, outubro 20, 2020

Todo mundo já sabe mais ou menos o que esperar quando começa a ler Dom Casmurro, do Machado de Assis. Quando meu clube do livro escolheu essa leitura, já imaginei todo um debate gostoso sobre o bom e velho Capitu traiu ou não traiu. Sabe o que eu não esperava? Um tórrido romance lgbt nas entrelinhas e principalmente nas linhas.



Eu não tô brincando, gente. Sei que nesse blog faço piada com tudo, mas o subtexto homoerótico entre Bentinho e Escobar é real. Tudo começou com esse meme aqui:





Quer dizer, eu achei que fosse um meme, mas é toda uma teoria embasada nas pistas escondidas por Machado à espera do gay certo. Quanto mais eu ia lendo, mais ficava Nossa. Eita. Rapaaaaaaz. Juro pra vocês, a tensão sexual nas páginas de Dom Casmurro me balançou mais que os últimos romances gays que li. Chegou certo ponto do livro, eu não estava mais nem aí pra saber quem era Capitu, afinal nem se quisesse ela conseguiria alguma coisa com Escobar, que só tinha olhos para o Bentinho.


"Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os rapazes e os padres"


Isso é quando Bentinho começa a contar como foi a adolescência dele no seminário, que é um colégio católico que forma padres, obviamente só para meninos. Assim... ATÉ AÍ TUDO BEM. Ele acabou de conhecer o Escobar e, de repente, já são grandes amigos. Até que vem essa confissão:


"Escobar, você é a pessoa que mais me tem entrado no coração"


"Bentinho, a verdade é que não tenho relações com ninguém aqui, você é o primeiro e creio que já notaram, mas eu não me importo com isso"


Logo em seguida eles são repreendidos por um padre porque se abraçaram no pátio. O padre diz que eles não precisam demonstrar tanto afeto assim, "podem estimar-se com moderação". A solução dos dois amigos é dar as mãos às escondidas, longe dos olhares indesejados.


Eu não sei pra que gastei minha adolescência inteira indo numa igreja evangélica se toda diversão acontece nos seminários católicos.


Ok que vocês podem achar pouco, mas eu não acabei.


Amo a parte que o Escobar conhece a mãe do Bentinho e percebe que ela é muito bonita.


"Está muito moça e bonita! Também a alguém há de você sair"


Meu deus, gente, que flerte sutil. Ao mesmo tempo em que Escobar elogia a mãe, encaixa rapidamente um elogio a beleza de Bentinho.


MANDARAM ISSO NO GRUPO DO CLUBE e achei pertinente


Existem outras passagens menos reveladoras, mas que carregam muito potencial quando lidas com os olhos certos. Quando Bentinho pergunta, irritado, por que Escobar não foi jantar na casa dele, e o segundo rebate que não foi convidado, para ouvir um "E precisa???". Ou as inúmeras vezes que Bentinho deixa claro que a opinião de seu amigo hétero Escobar é tudo que ele precisa ouvir. Ou ainda quando Bentinho APALPA os braços de Escobar, como num clássico lgbt, e diz "Nossa, que braços de nadador!"


De qualquer forma, porém, o detalhe que deixou minhas pernas bambas é o porta retrato sobre a mesa do escritório do Bentinho com uma foto do Escobar. Isso mesmo, nosso protagonista trabalhando o dia todo olhando para a foto de seu grande amigo, como todos nós fazemos. Nenhuma menção a outras fotos, nem da Capitu, nem do filho, nem da mãe... Mas tudo bem! Intrigante inclusive que a foto foi dada pelo próprio Escobar como um presente. Não é uma foto deles juntos. Não é uma foto das famílias, não é um grupo de pessoas que por acaso inclui o Escobar. Não. É uma foto EXCLUSIVAMENTE DO ESCOBAR. Posando para a câmera. Não bastasse tudo isso, ainda vem com uma dedicatória:


"Ao meu querido Bentinho, do seu querido Escobar"


COMO É LINDO HOMENS QUE SE AMAM NA CAMA COMO AMIGOS!!!


Eu encerro meu caso aqui.




* Se você gosta de gays, pode me seguir no Twitter pois sou um.


* Se por acaso você também gosta de livros, eu participei de uma coletânea que une o melhor dos dois mundos. Parece aquele meme: tem gay, sapatão, androide, contos de fada, espíritos, demônios e um conto meu pra fazer você rir largado. Já conferiu? É a coletânea Não Morre No Final, à venda na Amazon e disponível no Kindle Unlimited!

Posted on terça-feira, outubro 20, 2020 by Felipe Fagundes

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